Trump muda de tática e ameaça os parceiros comerciais do Irão
O presidente dos Estados Unidos mudou de estratégia para avançar numa operação económica “esmagadora” contra o Irão – desta vez com foco nos parceiros comerciais do regime de Teerão: Donald Trump anunciou uma nova campanha para isolar a economia do Irão, ameaçando com “tremendas consequências económicas” qualquer país que ajude ou faça negócios com Teerão – o que não é bem a mesma coisa. Alguns analistas descobriram de imediato nesta nova tática a evidência de que os ataques militares não conseguiram levar Teerão à mesa de negociações e quase todos eles lembraram-se de referir a China como potencialmente visada.
“Anuncio a operação económica mais devastadora já realizada contra um país!”, escreveu Trump nas redes sociais. “Qualquer país que permita que as suas instituições financeiras, empresas, aeroportos ou entidades governamentais forneçam qualquer tipo de apoio financeiro ao Irão enfrentará enormes consequências económicas.” O anúncio não avançava detalhes sobre quais ações seriam tomadas ou quais países poderiam ser afetados, para além de um genérico “qualquer país que…”. Mas listou diversas atividades que, segundo diz, precisam de ser interrompidas imediatamente: “contrabando de petróleo, linhas de comércio, transferências de dinheiro, casas de câmbio, registos de navios e empresas de fachada”.
No mês passado, o presidente dos Estados Unidos suspendeu os ataques ao Irão, após duas semanas de bombardeamentos noturnos que não conseguiram levar as autoridades de Teerão a voltar à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, multiplicaram-se os rumores de que a guerra esgotara os stocks norte-americanos de munições importantes. Segundo informações que a Casa Branca não confirma, assessores do Pentágono disseram a Trump, no passado mês de julho, que os Estados Unidos esgotaram a sua lista de alvos no Irão e que a campanha militar havia atingido o limite da sua eficácia.
A nova estratégia já se antevia. De facto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou na semana passada que os Estados Unidos começariam a intensificar esforços para isolar economicamente o Irão, tentando assim vergá-lo ao ponto a que as armas não conseguiram. Há vários meses que o Tesouro dos EUA vem realizando uma operação a que chamou ‘Fúria Económica’, com o objetivo de cortar o financiamento do Irão por via de sanções direcionadas, ao mesmo tempo que o bloqueio naval no Estreito de Ormuz tenta impedir que os portos iranianos exportem petróleo, vital para manter a economia do país e o esforço de guerra em funcionamento.
O Irão já enfrenta uma série de sanções severas impostas pelos Estados Unidos (depois da sua saída do Acordo Nuclear, em 2018) e pelo Ocidente – todas elas à revelia do disposto pelas Nações Unidas – que vêm debilitando a economia há anos e restringindo a sua capacidade de vender petróleo. Mas os especialistas afirmam que os líderes do país aprenderam a adaptar-se às sanções, inclusive por via da exportação de petróleo com o recurso a uma rede de navios-tanque clandestinos.
O anúncio sugere que Trump pode estar a prever sanções secundárias contra os países que compram petróleo iraniano, mas os analistas dizem que tal medida poderia levar a um confronto direto com a China – o maior parceiro comercial do Irão – num momento em que os Estados Unidos estão a tentar estabelecer uma nova relação comercial com Pequim. O líder chinês Xi Jinping deverá visitar os Estados Unidos no próximo mês de setembro, o que complica ainda mais qualquer esforço para atingir as importações de petróleo iraniano por parte de Pequim.
Na passada terça-feira, 18 de agosto, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a suspensão de todas as atividades comerciais e transações financeiras com o Irão, após afirmarem ter detetado o lançamento de dois mísseis contra o seu território, mas Teerão desmentiu. Antes da guerra, os Emirados Árabes Unidos eram um dos maiores parceiros comerciais do Irão, fornecendo mais de 30% das suas importações.
Para além da China e dos agora retirados Emirados, a lista dos principais parceiros económicos do Irão contempla o Iraque, a Turquia, a Índia e o Brasil. O Iraque é o principal destino das exportações iranianas de gás natural, eletricidade e produtos de consumo. A Turquia mantém-se cliente de gás natural e fornecedor de bens industriais. A Índia é compradora de petróleo, mas mantém ligações ao setor agroalimentar e farmacêutico. A Rússia reforçou genericamente a cooperação económica e geopolítica face às sanções ocidentais. E o Brasil atua como um importante fornecedor de produtos agrícolas, nomeadamente de milho.
O preço do petróleo brent subiu mais de 2% ao longo desta quinta-feira, 20 de agosto, fixando-se entre os 93,50 e os 93,90 dólares por barril, após atingir máximos intradiários próximos dos 94,70 dólares. Esta forte valorização amplia os ganhos acumulados da semana para mais de 4%.
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