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AI Literacy: muito mais do que uma obrigação do AI Act

AI Literacy: muito mais do que uma obrigação do AI Act

Durante muito tempo, falar de transformação digital nas empresas era, sobretudo, falar de tecnologia. Novas plataformas, processos automatizados, ferramentas mais eficientes, a prioridade estava quase sempre aí. Com a Inteligência Artificial, essa lógica começou a mudar.
A tecnologia evoluiu depressa, tornou-se mais acessível e entrou no dia a dia das organizações, mas também trouxe uma evidência difícil de ignorar: ter acesso às melhores ferramentas não significa, por si só, saber tirar partido delas.
Como já era claro antes, as pessoas, com as suas competências, fazem toda a diferença no sucesso das organizações. A IA só veio amplificar esta realidade. Na forma como compreendem a tecnologia e na capacidade que têm para a utilizar com sentido crítico, sem perder de vista os seus limites e impactos.
É neste contexto que a AI Literacy ganha especial relevância no âmbito do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, o AI Act. Desde fevereiro de 2025, as organizações que desenvolvem ou utilizam sistemas de IA têm a responsabilidade de promover um nível adequado de literacia em IA junto das pessoas que trabalham com estas tecnologias.
Com a entrada numa nova fase de supervisão destas obrigações, o tema deixou de poder ser tratado como algo distante ou reservado para mais tarde, e passou a fazer parte das decisões que as empresas têm agora de tomar.
Ainda assim, olhar para a AI Literacy apenas como mais uma obrigação de compliance é redutor.
Cumprir a legislação é importante, naturalmente, mas a oportunidade é bastante maior. A questão central é perceber se as pessoas dentro da organização estão realmente preparadas para utilizar a IA de forma útil para o negócio e se sabem reconhecer os riscos associados à sua utilização. E essa necessidade já é muito concreta!
As ferramentas de IA generativa entraram rapidamente no quotidiano de milhares de profissionais. Muitas vezes, começaram a ser usadas antes de existir uma estratégia formal ou uma política interna clara. A formação surgiu, em muitos casos, já depois da adoção.
Em algumas organizações, o processo aconteceu quase de baixo para cima, ou seja, primeiro vieram as ferramentas e só depois começaram a considerar-se questões como governação, segurança ou utilização de dados. E é precisamente aqui que encontramos um dos grandes desafios deste momento.
Nunca foi tão simples colocar a IA ao serviço de uma organização. Ao mesmo tempo, nunca foi tão importante garantir que essa utilização é consciente.
Sabemos que o potencial é enorme. A IA pode libertar tempo e tornar processos mais rápidos, apoiar decisões e abrir espaço para novas formas de trabalhar. Mas o reverso também existe: uma utilização pouco informada pode amplificar erros ou dar uma aparência de confiança a respostas que continuam a exigir validação humana.
Mas o impacto da IA não se fica dentro da organização. A sua utilização pode também transformar produtos e serviços, melhorar a experiência dos clientes e criar novas formas de responder às suas necessidades. É aqui que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passa a ser também uma oportunidade de negócio.
Por isso, falar de AI Literacy não pode significar apenas colocar colaboradores numa sala para frequentarem uma formação pontual. É necessário ir mais além e construir uma competência dentro da própria organização.
E, neste processo, o papel das lideranças é decisivo. Cabe-lhes dar o exemplo, definir prioridades e garantir as condições para que a IA seja adotada de forma responsável e alinhada com os objetivos do negócio.
E essa competência não será igual para todos, pois um programador não precisa do mesmo conhecimento que um profissional de recursos humanos, nem um gestor de projeto terá as mesmas preocupações que um membro da administração. O essencial é que cada pessoa compreenda aquilo que é relevante para as decisões que toma e para as responsabilidades que assume.
Assim, mais do que ensinar a utilizar uma determinada ferramenta, é necessário desenvolver capacidade crítica e isso implica saber interpretar um resultado e perceber quando faz sentido desconfiar de uma resposta. Implica também reconhecer os riscos associados aos dados utilizados e entender que os modelos têm limitações. Acima de tudo, significa não abdicar da supervisão humana só porque a tecnologia consegue produzir uma resposta rapidamente.
Estas competências começam a ter um peso real na forma como as organizações trabalham e competem. E esta mudança na relação com a tecnologia não acontece apenas na IA.
A evolução da regulamentação europeia mostra uma tendência mais ampla, a de que a confiança digital está a tornar-se parte estrutural da competitividade das empresas.
O Cyber Resilience Act, que entra agora numa nova fase da sua implementação, aponta no mesmo sentido. Reforça a importância de integrar a segurança e a gestão do risco ao longo do ciclo de vida dos produtos digitais, em vez de tratar estas preocupações apenas no fim do processo.
São regulamentos diferentes e dirigem-se a realidades distintas, mas partilham uma ideia essencial: a tecnologia já não pode ser tratada apenas como um assunto técnico. É uma questão de governação e de cultura organizacional. Por isso, as organizações mais bem preparadas para os próximos anos poderão não ser as primeiras a comprar uma nova ferramenta ou a adotar a tecnologia mais recente.
Serão as que conseguirem desenvolver internamente as competências necessárias para acompanhar a velocidade da inovação sem perder capacidade crítica pelo caminho.
É aqui que a AI Literacy deixa de ser apenas uma obrigação decorrente do AI Act.
Passa a ser um investimento na capacidade de inovar com confiança e de reduzir o risco associado à adoção da IA. Quando essa preparação existe, a tecnologia pode traduzir-se também em ganhos reais de produtividade e em decisões mais informadas.
Nos próximos anos, a vantagem competitiva de uma empresa não dependerá apenas da tecnologia que tem disponível. Dependerá, sobretudo, da preparação das pessoas que a utilizam e da capacidade de transformar essa utilização em valor para o negócio e para os clientes.

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