Encontro de verão em Jackson Hole arranca com Warsh posto à prova
Os banqueiros centrais de várias economias ocidentais (embora sem Christine Lagarde, mas com o governador português Álvaro Santos Pereira) reúnem-se esta quinta-feira em Jackson Hole, Wyoming, no simpósio anual da Reserva Federal norte-americana (Fed), naquele que será o primeiro encontro desta natureza liderado por Kevin Warsh. A ausência de sinais quanto ao futuro da política monetária está a gerar alguma apreensão nos mercados, sobretudo depois da intervenção do Tesouro no mercado obrigacionista e de a dívida pública ter ultrapassado os 40 biliões de dólares, e, no final do dia, a pressão para o novo líder da Fed não desiludir é considerável.
Mercados aguardam pistas sobre decisão de juros da Fed e do Banco Central Europeu (BCE) em setembro.O BCE publica nesta quinta-feira, 27 de agosto, a súmula da reunião de 22 e 23 de julho e a próxima decisão sobre taxas de juro está marcada para 10 de setembro, poucos dias antes da reunião de setembro da Fed.
Com alguns membros da Fed da ala mais conservadora a recomendarem subida dos juros se inflação não diminuir, um sinal nesse sentido por parte de Warsh reforçaria o dólar e apertaria as condições financeiras globais, complicando os cálculos em Frankfurt, numa altura em que a Europa já lida com uma inflação alimentada pelos custos da energia e enfrenta agora uma pressão crescente dos preços dos alimentos, que se prolonga até 2027.
O presidente da Fed só fala na sexta-feira, mas a discussão em torno do que dirá e os seus efeitos nos mercados está a ganhar tração e a assumir o papel principal na antecâmara do evento. Dada a falta de forward guidance e a decisão de manter os juros inalterados na mais recente reunião, em julho, apesar de o indicador de preços se manter acima do objetivo de 2%, a intervenção de Warsh está a ser enquadrada sobretudo numa perspetiva de credibilidade do banco central, defendem os analistas.
A AllianzGI começa por argumentar que “a Fed tem de permanecer vigilante” no atual contexto de resistência acima do esperado da atividade norte-americana, sendo que, dado o posicionamento de Warsh, “uma subida de juros torna-se numa questão de ‘quando’ e não de ‘se’”.
Esta visão de que se está a tornar cada vez mais inevitável subir juros na maior economia do mundo tem vindo a ganhar força, dado que a inflação continua sem regressar ao objetivo da Fed, embora tenha recuado nas leituras mais recentes, caindo de 4,2% em maio para 3,4% em julho. Para a reunião de setembro, a próxima do banco central, o mercado vê agora uma probabilidade de subida de 25 pontos base (pb) de 40,4%, acima dos 33,1% estimados há uma semana, segundo a FedWatch Tool.
“No entanto, a preferência de Warsh em evitar certos sinais, para manter os mercados livres da influência da Fed, torna improvável qualquer indício claro em Jackson Hole” do que acontecerá aos juros diretores nos EUA, completam.
Por outro lado, a decisão do Tesouro norte-americano de aumentar as compras de títulos com maturidades mais longas “foi amplamente vista como um sinal de que a subida das yields se está a tornar num assunto politicamente sensível, sobretudo dada a proximidade das intercalares”.
A medida é vista como possivelmente dificultando a tarefa do banco central na luta contra a inflação, alertaram à altura vários analistas e economistas. Nesta mesma linha, o Bank of America classificou o simpósio como um “evento de elevado risco” tanto para as bonds, como para o dólar, sendo que a divisa norte-americana pode fechar a semana sob pressão caso o presidente da Fed desaponte os mercados.
“O dólar depreciou marcada e transversalmente na última semana, servindo o seu propósito como válvula de escape no meio desta tentativa de reina as yields do Tesouro”, lê-se numa nota do banco norte-americano, que fala ainda numa “série de eventos negativos” para a moeda dos EUA.
Dívida bate recordes
O encontro no Wyoming surge também depois de novo recorde absoluto no stock de dívida norte-americana, que ultrapassou recentemente os 40 biliões de dólares (34,3 biliões de euros), uma barreira psicológica que fez correr tinta.
A correr consistentemente défices orçamentais acima de 4% desde 2019, as finanças públicas dos EUA têm-se deteriorado, contribuindo para o agravamento dos juros e, por arrasto, do custo da dívida. Agora, e dadas as questões quanto à independência de Warsh da Casa Branca, fica a dúvida se o banco central poderá ser pressionado a agir para controlar esta dinâmica.
Perante este cenário, ativos como o ouro ou as criptomoedas têm sido dos principais beneficiários, com os investidores a apostarem numa inflação persistente e que demorará a recuar para os valores que pretende a Fed – no fundo, o mercado vê a política monetária como insuficientemente apertada.
O metal precioso valorizou cerca de 15% em agosto, colocando-se assim em linha para o seu melhor mês desde 1999 e dando continuidade ao rally que tem experienciado nos últimos meses. Já a Bitcoin ganhou 25% este mês, que se perfila para ser o melhor da divisa nos últimos dois anos.
Europa presente sem Lagarde
Com mais de 120 convidados, entre banqueiros centrais, economistas, académicos e decisores políticos, o BCE não poderia deixar de marcar presença – ainda que Christine Lagarde, a presidente da instituição, vá falhar o encontro.
Em vez de Lagarde, a autoridade monetária europeia será representada pelo vice-presidente Boris Vujčić, bem como por Isabel Schnabel, que tem marcada para sexta-feira uma participação num painel sobre ‘Inovação Financeira’, o tema alargado do simpósio.
Também Philip Lane, economista-chefe do BCE, estará presente no encontro anual.
Do lado português, Álvaro Santos Pereira também figurará no evento e pela terceira vez consecutiva, embora seja a primeira como governador do Banco de Portugal (BdP). O banqueiro marcou presença nos dois anteriores encontros, mas como economista-chefe da OCDE, cargo que ocupou antes de assumir a liderança do banco central nacional.
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