As histórias que a ópera canta
Porquê e para quê mexer em textos perfeitos? Ou a roçar a perfeição, para não choverem críticas a mordiscar o exagero. Macbeth é um texto que não esmorece, não perde vitalidade. Continua a convocar-nos. E se retrata, com a elegância e mordacidade do Bardo, o pior do ser humano, a verdade é que ganhou uma dimensão ainda mais portentosa quando, à escrita de William Shakespeare se uniu uma outra escrita, operática, de Giuseppe Verdi. A sempre atual história de ascensão, queda, paranoia, traição e obsessão pelo poder faz com que Macbeth não olhe a meios para atingir e cumprir a profecia da sua subida ao trono. Enlouqueceu, corroído pela culpa e pelo receio de sofrer idêntico golpe.
Está dado o mote para a nova temporada 2026-27 da Metropolitan Opera. Do outro lado do Atlântico, em Nova Iorque, a 22 de setembro – ainda antes das midterms nos EUA, qual aperitivo para o que a política norte-americana poderá vir a ‘servir à mesa’ –, a MET leva a cena, uma nova produção de Macbeth, volvidos 20 anos sobre a derradeira. Dirigida por Yannick Nézet-Séguin, conta com o barítono Quinn Kelsey no papel do rei escocês e com a soprano Lise Davidsen no papel de Lady Macbeth, acompanhados pelo tenor Freddie De Tommaso (Macduff) e pelo baixo-barítono Ryan Speedo Green (Banquo).
A outra estreia, “Lincoln in the Bardo”, inspira-se no romance de George Saunders e, segundo a crítica nova-iorquina, não poderia ter melhor adaptação, ao reunir o libretista Royce Vavrek e a compositora Missy Mazzoli. A estreia mundial, dirigida pela “imaginativa” Lileana Blain-Cruz, também sob a batuta de Yannick Nézet-Séguin, contará com intérpretes como Peter Mattei, Christine Goerke, Stephanie Blythe e outros.
O amor louco…
“Isto chamam amor louco, eu por ti e tu por outro”. Síntese da ópera Jenůfa, do compositor checo Leoš Janáček? Assim é. O amor louco de Jenůfa pelo seu namorado, o jovem Števa de quem está secretamente grávida, e o do meio-irmão de Števa, Laca, que ama Jenůfa. O compositor levou mais de uma década até alcançar o resultado que pretendia: uma música poderosa e carregada de emoção. No elenco, as sopranos Asmik Grigorian e Nina Stemme, numa encenação de Claus Guth, dirigida por Tomáš Hanus, que aqui faz a sua estreia na MET.
Nas produções de repertório figuram La Bohème de Puccini, A Flauta Mágica (versão inglesa) e Così fan tutte de Mozart, assim como Medea de Cherubini, Maria Stuarda de Donizetti, Manon de Massenet, Tosca de Puccini, Sansão e Dalila de Saint-Saëns, Der Rosenkavalier de Strauss, a par de duas óperas de Verdi, Aida e Otello, e Parsifal de Wagner.
A 20ª saison do projeto “MET Opera Live in HD”, apresentada a partir da Metropolitan Opera House, inclui oito óperas, que serão transmitidas em diversas salas e auditórios em todo o mundo. Em Portugal, a Gulbenkian Música garante a transmissão em direto para o Grande Auditório Gulbenkian
do ciclo MET Opera Live, incluindo “La Fanciulla del West”, numa encenação de Richard Jones, protagonizada pela soprano Sondra Radvanovsky, que a crítica considera ser uma das mais emplogantes vozes da MET nos últimos anos. Lado a lado com SeokJong Baek e Christopher Maltman.
… poder e traição
Bem mais perto, em Milão, o Teatro alla Scala prepara-se para abrir a nova temporada com “Otello”, numa nova produção de Damiano Michieletto. “Leonora”, de Ferdinando Paër, produzida por Daniele Menghini e dirigida por Roland Böer, é outra das estreias previstas. A par de “Nixon na China”, de John Adams, que leva a assinatura de Valentina Carasco. No rol das novas produções figuram, ainda, “Macbeth”, pela mão de Barrie Kosky, sob a direção de Myung Whung Chung, diretor musical do Scala. E “Don Quichotte”, com produção de Michieletto e direção de Bertrand De Billy.
“La Bohème” será revisita por Daniel Oren e “Les pêcheurs de perles”, de Bizet, também, pela verve criativa de Arnauld Bernard, sob a direção de Henrik Nànàsi. Destaque ainda para “Anna Bolena”, de Donizetti, numa produção de Chiara Muti, dirigida por Francesco Ivan Ciampa. E para o regresso ao palco milanês, 55 anos depois, de “I Puritani”, sob a direção de Fabio Luisi e produção de Davide Livermore.
Entre as óperas de repertório, refira-se “Il Barbiere di Siviglia”, produzido por Leo Muscato, com direção de Giulio Cilona. E “Dido e Eneias”, de Purcell, dirigido por Gianluca Capuano, numa produção de Marcos Morau.
Programa completo disponível online e bilhetes já à venda.
… e a sedução de Fausto
De Milão seguimos para a capital austríaca e centro nevrálgico da vida musical vienense, a Ópera de Viena, que apresentará seis novas produções no palco principal, uma estreia mundial de ópera infantil, oito revivals, obras de repertória, e, claro, grandes estreias de ballet e uma ampla programação pensada para o público jovem.
“Don Carlo”, de Verdi abre a saison, a 4 de setembro, mês em que também subirão ao palco da Wiener Staatsoper duas obras de Mozart, “As Bodas de Fígaro” e “A Clemência de Tito”, a derradeira ópera que compôs, com libreto em italiano de Caterino Tommazo Mazzolá. “Tosca” (outubro), “La Bohème” e “A Danação de Fausto” (dezembro), tão-só uma das mais notáveis criações de Berlioz, a partir do poema trágico de Goethe, que o cativou de tal forma que, nas suas memórias escreveu sobre o fascínio que lhe provocou desde a primeira página. “Não conseguia pousar o livro, lia-o constantemente, durante as refeições, no teatro, nas ruas e em todo o lado”.
A temporada estende-se até junho e tem excelentes propostas. Os bilhetes tendem a voar.
Na casa da ópera madrilena, o Teatro Real, tem no programa seis novas coproduções com alguns dos teatros mais importantes do mundo. E não faltam grandes obras do repertório operático, como “Manon Lescaut” de Giacomo Puccini, “As Bodas de Figaro” de Wolfgang Amadeus Mozart, “Tannhäuser” de Richard Wagner e “O Barbeiro de Sevilha” de Gioachino Rossini. A dança estará também em destaque e ao mais alto nível com o Alvin Ailey Dance Theater, a National Dance Company e o Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.
A emblemática Opéra Garnier de Paris não foi esquecida
Propostas? Um “Festival Ring”, i.e., dois ciclos completos do Ciclo do Anel de Wagner, pela mão do encenador Calixto Bieito e direção musical de Pablo Heras-Casado, onde se destacam intérpretes como Tamara Wilson (Brünnhilde) e Andreas Schager (Siegfried), ao lado de Mika Kares, Eve-Maud Hubeaux e Brian Mulligan. E um programa estruturado em torno de uma estreia mundial – “Mirror of Our Sorrows”, em homenagem a Pierre Lemaitre –, de apostas seguras, como “Werther”, e de uma leitura menos convencional de “Don Giovanni”, com encenação de Louisa Proske. A par de clássicos intemporais como “Hamlet”. E se a arte questiona o mundo, também pode iluminá-lo. Eis o fio condutor da temporada 2026-2027 da Ópera de Paris, já disponível online. Esta será a última saison antes de a instituição parisiense encerrar para grandes obras de modernização, entre o verão de 2027 e o verão de 2029. Mais uma razão para eleger Paris como destino para um interlúdio musical.
As óperas mais encenadas e os compositores mais tocados
“As Bodas de Figaro”, “Don Giovanni” e “A flauta Mágica” são três das mais notáveis e populares óperas de Mozart.
A unir as duas primeiras, temos os libretos assinados por Lorenzo da Ponte, numa das mais felizes colaborações na história da música. Mas em qualquer uma das obras constatamos as marcas da fulgurante inventividade melódica do compositor austríaco.
Com “A Flauta Mágica”, a sua derradeira criação no género, Mozart acentuaria a enorme contribuição que deu para o desenvolvimento futuro da ópera em língua alemã.
O site operabase.com, que recolhe e trata estatísticas na área do canto lírico, faz uma viagem pelos números.
No Top 5 das óperas mais encenadas estão: 1. A Flauta Mágica (Mozart); 2. La Traviata (Verdi); 3. Carmen (Bizet); 4. La Bohème (Puccini); 5. As Bodas de Figaro (Mozart). Já no Top 5 dos compositores mais tocados, surgem, por esta ordem, Mozart, Verdi, Puccini, Tchaikovsky e Beethoven.
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