Graça Morais: Num mundo à deriva, resta-nos a amizade, o amor e a arte
Se no princípio era o verbo, aqui foram os lápis de cor. “Aqui” remete para uma vida que ainda não tinha traço firme, contundente. “Aqui” remete para uma criança que descobria o mundo a partir da aldeia do Vieiro, em Trás-os-Montes. Graça Morais, que desde cedo descobriu que quis ser pintora. Que nunca abdicou da sua relação com a vastidão dessas paisagens, das montanhas que carregam os anseios, as dores e as alegrias de quem nelas faz vida. Dos rostos que a marcaram desde sempre e aos quais retornou, uma e outra vez. Muitas vezes. E que nem a morte apagou.
Mas demos dois passos em frente, para dar um atrás. Aos pedaços de telha que usava como lápis de cor. À porta de casa, onde vivia com a mãe e os seus cinco irmãos, sempre aberta, em que “a rua entrava em casa e a casa entrava na rua”, diz ao JE com uma expressão serena. À liberdade de movimentos. À dureza da terra. Às cerejas que desenhava “a uma chávena e um bule que havia lá em casa” e que lhe fizeram as delícias do traço. A uma caixa de aguarelas que o pai lhe deu, já não em Trás-os-Montes mas em Moçambique, numa aldeia tão isolada quanto a do seu berço.
Novas experiências ganharam vida. A pintura, afinal, habitava-a. Comandava-lhe o sonho e a vontade. Seria pintora. Esbarrou na incompreensão da mãe, para quem a arte não punha alimento na mesa, só trazia fome. Obstinada, não hesitou em fazer frente e dizer que “preferia passar fome.” Não foi para as Belas-Artes. Ficou um ano a contemplar as gentes do Vieiro. Foi assim que manifestou a sua revolta – chama-lhe ‘birra’ no documentário que a sua filha Joana Morais produziu e realizou, “Na cabeça de uma mulher está a história de uma aldeia” – sobre a sua vida e obra, agora parte integrante da exposição “Graça Morais. Uma antologia”, que pode ser vista, até 13 de setembro, no Palácio Anjos, em Algés.
Pintar as dores do mundo
Numa tarde de domingo, em pleno agosto, as salas do Palácio Anjos enchem-se de gente. Aproximam-se das pinturas, fixam-se em detalhes. Afastam-se e contemplam as telas em grande escala. O que veem? Que sentimentos lhes provocam? Os desenhos, mais pequenos mas não menos complexos pedem uma maior intimidade. As séries de fotografias – sim, nesta antologia são reveladas fotografias que a artista guarda em arquivo e que serviram, amiúde, de ponto de partida às suas pinturas. Porque dela saem com um grande fundo de verdade. Viscerais. Cerebrais, muitas delas.
Mas de quem falamos quando falamos em Graça Morais? Da menina que se viu pintora numa aldeia isolada do mundo, mas que continha imenso mundo nela. Na adolescente que acabou por estudar Belas-Artes no Porto. Na jovem que vive em Paris, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. E que recorda esses anos como fundamentais para a descoberta de outros artistas, técnicas, olhares.
O deslumbramento seria fácil, mas isso iria contra a sua essência. Um episódio ilustra isso mesmo. No regresso de Paris, pediu um subsídio à Fundação Calouste Gulbenkian. Precisava de conhecer melhor a terra onde tinha nascido. Queria tomá-la como fundacional na sua obra. Dar voz aos esquecidos desse interior longínquo da capital. Recorda-se de o então administrador da Fundação Gulbenkian, Pedro Tamen, ter rasgado um sorriso e dizer-lhe que era a primeira vez que um pintor lhe pedia um subsídio para ir para uma aldeia. O valor em causa só dava para pagar o material. Deu aulas e caminhou. Caminhou muito, observou ainda mais, para beber as paisagens, mas, acima de tudo, as paisagens que habitam as suas gentes. “A natureza e as paisagens estão dentro das pessoas”, diz.
Reconhece que a sua grande força como mulher e como ser humano nasceu dessa relação com pessoas simples. Da figura da mãe, determinante na sua vida, mas que, nesta exposição, não está presente. Estão outras mulheres, símbolo das grandes dores do mundo, como a violência e a morte, as injustiças e a indiferença. Mulheres e bichos, muitas vezes umas e outros apresentados numa só figura, revelam as suas raízes e a vida difícil de quem trabalha o campo. 50 anos a traçar o papel. A pôr nele maravilhamento, sim, mas também os algozes, os que se arvoram donos do mundo.
Sempre atenta ao que a rodeia. E sendo a sua obra política, embora não pertença a nenhum partido, como faz questão de frisar, como vê Graça Morais a sociedade portuguesa no tempo presente – queremos saber. “Vejo um país muito desorientado. Neste verão, vejo a maior parte das pessoas em festa. E a festa faz falta. Penso nas Festas [do Povo] de Campo Maior, por exemplo. As festas são importantes, pois reúnem as pessoas, ligam mães e filhos, a família e o passado. É extraordinário que essas festas se mantenham. Depois há as outras festas, que eu abomino e que me irritam muito. Porque são as festas da manipulação. Que os presidentes da Câmara fazem simplesmente a pensar no voto. São festas de grande alienação.”
A falta de empatia dos poderosos
Pausa. E entramos pela Europa. “Nós estamos numa Europa com muitos problemas. Estamos com uma guerra que se pode alastrar a toda a Europa. Estamos com um país com pessoas muito velhas. Não há crianças… É preciso que os governos, as autarquias, comecem a apoiar os jovens, casados ou não, as mulheres, para terem filhos. Porque nós precisamos de crianças. As aldeias estão desertas.” A demografia. Palavra séria para um assunto muito sério. “Quando vou à minha aldeia, venho de lá com uma sensação de angústia enorme. Não vejo ninguém na rua. Não há crianças. E depois, ao mesmo tempo, lembro-me da minha infância e como era tão bom brincar na rua com dezenas de crianças.” Não convoca a nostalgia. Corrige o rumo. Continua a ir ao Vieiro. “Faz-me falta. Eu ainda preciso de sentir a terra, sentir as mudanças das estações do ano e falar com as pessoas. Ver a paisagem, continua a ser relevante. Até porque aquela zona ainda está muito defendida, por enquanto.”
Mas deixa uma forte crítica aos “quilómetros e quilómetros e quilómetros” de paineis solares que queimam a terra. “Estão a querer encher o Mogadouro e Miranda do Douro com isso… Já viu o que é uma paisagem maravilhosa, com flores, giestas de todas as cores, animais… de repente, em nome de uma energia limpa, ser destruída? Para ser limpa, [a energia] tem de respeitar a natureza. Essa é uma economia de morte.”
Para ela, “a arte deve servir como testemunho da violência e da injustiça”, mas também como antídoto ao sabor amargo que aquelas nos deixam na boca. Lembrete do que vai mal no mundo, onde prevalece a “cultura de impunidade” e uma gritante “falta de empatia e de preocupação genuína por parte dos que ocupam lugares de poder.”
O que podemos esperar do traço de Graça Morais. “Não sei, porque para mim é tudo um mistério. A vida é um mistério. Eu gosto que os meus dias tenham um bocado de repouso, porque trabalhei muito e já não estou nova. Mas estou com muita vontade de voltar a fechar-me no meu trabalho. E depois será uma surpresa. Nem sempre eu sei o que é que vou fazer. Começo a encontrar muita coisa que me vai dando ideias e quanto mais trabalho, mais as soluções aparecem, mais o pensamento se envolve, mais aquilo que temos dentro de nós – a cultura oral e a cultura que vamos adquirindo ao longo da vida – aparece.”
Recordamos que o desenho e a pintura são apenas uma das múltiplas formas que Graça Morais encontrou para representar a sua visão do mundo. A sua inquietude plasma-se em múltiplos suportes, da azulejaria e cenografias para teatro a ilustrações de dezenas de obras de escritores e poetas portugueses – como José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga e Manuel António Pina. E foi ao azulejo que regressou, mais uma vez na Viúva Lamego, para criar um mural, na sequência de um convite de Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras. Não era uma mera obra de arte pública o que se pretendia. Era um mural com o qual o município de Oeiras quer homenagear os presos políticos da Prisão de Caxias durante a ditadura.
Regressamos à primeira sala da exposição “Graça Morais. Uma antologia”, com curadoria de António Meireles e Emília Ferreira, que reúne mais de 170 obras de desenho e pintura desde a década de 1970 até ao presente. Queremos rever o conjunto de trabalhos preparatórios para o mural em questão. Aquele que ganhou forma depois de olhar para dentro e fundo. Uma obra com cerca de seis metros de altura e 20 metros de comprimento, que será instalada junto ao Estabelecimento Prisional de Caxias.
“Eu sinto sempre uma grande responsabilidade em fazer uma obra pública porque vai ser vista por muita gente, e tenho a obrigação de oferecer às pessoas mais do que inquietações, uma certa felicidade”. Mas também um pretexto para se encontrarem e conversarem. Explicarem às crianças, aos mais novos o que foi esse passado. Para que não volte a acontecer. Apetece dizer que recordar o passado não é apenas um ato de responsabilidade, mas também um ato de libertação que deve ser constantemente renovado. Até porque nada pode ser dado como adquirido. Como “os valores democráticos”, diz a pintora, cada vez mais feridos nos tempos que correm. E eis que a política volta a intrometer-se nesta conversa. Apolítica e o poder da arte.
“O que eu sinto é que a arte – a arte da música, da poesia, das várias artes – pode ajudar-nos a suportar este mundo, porque estamos a viver um momento muito difícil para a humanidade. Porque temos governantes nos países mais poderosos do mundo que não lutam pela paz, lutam pela guerra. E por interesses… pelo lucro, pelo enriquecimento. E, sobretudo, o presidente Trump é um homem que está a fazer muito mal ao mundo neste momento.” Invoca a incerteza, a descrença no Outro, a desconfiança, o medo que as atitudes dos homens que comandam provocam. E questiona. “O que é que nos resta? Resta-nos a amizade que podemos ter uns com os outros, o amor e a arte. E nós, com a arte, encontramos aquilo que melhor o ser humano nos oferece.”
“Graça Morais. Uma Antologia” | até 13 SET no Palácio Anjos – Centro de Arte Contemporânea, Algés
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