Mercados arrancam semana a digerir discurso de Warsh e novos ataques ao Irão
Os mercados entram na nova semana sob tensão acrescida. Além do discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole e do anúncio do acordo petrolífero EUA-Venezuela, surgiu este domingo uma nova escalada militar no Estreito de Ormuz, o principal ponto de estrangulamento do petróleo mundial.
As forças norte-americanas atingiram lançadores de foguetes iranianos na ilha de Larak, nas imediações do Estreito de Ormuz. Foi a primeira ação militar direta dos EUA na região em cerca de um mês, segundo um responsável norte-americano citado pela Associated Press e pela Al Jazeera.
Os EUA afirmam que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica se preparava para lançar foguetes com minas navais para o estreito. Meios semioficiais iranianos reportaram explosões na zona. A Guarda Revolucionária confirmou “o martírio e ferimentos de vários combatentes e compatriotas” e prometeu “punição do agressor”. Agências falam em pelo menos duas mortes e dois feridos.
A guerra entre EUA e Irão completou sexta-feira seis meses (iniciada a 28 de fevereiro com a “Operação Fúria Épica). Washington ainda não eliminou o programa nuclear iraniano nem provocou mudança de regime em Teerão. O conflito continua a gerar crise energética global, pressões sobre o custo de vida e instabilidade no Médio Oriente, com impacto eleitoral nas intercalares americanas de novembro.
Este ataque ocorre pouco depois de as forças americanas terem concluído a remoção de minas das rotas de navegação no estreito. Qualquer retaliação iraniana ou novo bloqueio parcial pode voltar a apertar a oferta de crude.
Este ataque americano e o risco de retaliação iraniana reforçam o prémio de risco geopolítico no Estreito de Ormuz. Qualquer interrupção, mesmo parcial, do tráfego pode fazer subir rapidamente os preços.
Na sexta-feira petróleo. o WTI cotava perto dos 83 dólares e o Brent em torno dos 89 dólares, com tendência de alívio semanal após picos anteriores. Mas os eventos deste domingo prometem subida nos preços.
No imediato, o risco de escalada no Ormuz tende a sobrepor-se ao acordo venezuelano, que é um projeto de médio-longo prazo. Os investidores vão vigiar de perto notícias de retaliação, volume de navios a atravessar o estreito e declarações oficiais de ambos os lados.
O Presidente Donald Trump anunciou nas redes sociais, este domingo, o que classificou como o “maior acordo de petróleo da história mundial” com a Venezuela. O acordo, segundo Trump, dará aos EUA controlo majoritário sobre mais de 65 mil milhões de barris de reservas comprovadas venezuelanas e servirá para encher as reservas estratégicas norte-americanas (Strategic Petroleum Reserve), que se encontram em níveis muito baixos depois de retiradas sucessivas. Trata-se de um passo no objetivo de extrair energia do país sul-americano após a captura de Nicolás Maduro em janeiro. A presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, confirmou o entendimento, que prevê o desenvolvimento de 17 campos e potenciais investimentos elevados.
Há, no entanto, ainda muitas incógnitas: prazos de produção efetiva, estrutura legal e operacional da joint-venture, capacidade real de aumentar a oferta no curto prazo e riscos políticos e de segurança no terreno. No imediato, a notícia pode reforçar a narrativa de maior oferta futura e exercer alguma pressão descendente sobre os preços, mas o impacto concreto na cotação diária dependerá da credibilidade e dos detalhes que forem surgindo.
No que toca à Fed, Warsh reiterou o foco no controlo da inflação, o que elevou receios de uma eventual subida de taxas e levou Wall Street a fechar em baixa na sexta.
Os investidores em obrigações estão também cautelosos após os fãs de Warsh terem apostado que a Fed está prestes a aumentar as taxas de juro.
O VIX permanece contido (cerca de 14,5) e a yield das Treasuries a 10 anos rondava os 4,69%. Para segunda-feira espera-se uma abertura sem direção clara ou ligeiramente negativa, com os investidores a digerirem o tom de Warsh e a anteciparem a agenda da semana (ISM Manufacturing na terça e payrolls na sexta). O foco mantém-se na capacidade da economia de absorver preços de energia mais elevados sem deteriorar demasiado o mercado de trabalho.
A bolsa de Nova Iorque encerrou na sexta-feira em terreno negativo, com os investidores a reagirem ao discurso do presidente da Reserva Federal (Fed), Kevin Warsh, em Jackson Hole, enquanto a PayPal afundou 12,7%, depois de ter sido noticiado que um consórcio que incluía a Stripe e a Advent International desistiu das negociações para adquirir a empresa de pagamentos.
O Dow Jones cedeu 0,02% para 53.559,99 pontos, o S&P 500 perdeu 0,25% para 7.711,76 pontos e o tecnológico Nasdaq recuou 0,52% para 26.402,42 pontos.
O sentimento permanece suportado pelo tema da IA e por resultados empresariais sólidos, mas a geopolítica no Médio Oriente e os preços da energia continuam a dominar o risco.
“O tema da IA e os resultados corporativos dão suporte de fundo, mas a combinação de geopolítica e inflação energética mantém o risco de volatilidade elevada ao longo da semana”
Esta segunda-feira deve assim ser de consolidação e digestão do discurso de Warsh, com os olhos postos no petróleo (agora também no acordo com a Venezuela) e nos dados de inflação europeus e PMIs chineses.
Bolsas da Europa
No que se refere à Europa, há a destacar que as atas oficiais e os discursos recentes dos membros do conselho indicam uma forte probabilidade de uma nova subida de 25 pontos base na próxima reunião de setembro de 2026.
As bolsas europeias mostraram resiliência relativa nas últimas sessões, com o Stoxx 600 pouco alterado na semana e ganhos pontuais no CAC 40, DAX e FTSE 100. O sentimento económico da zona euro melhorou pelo quarto mês consecutivo. Os resultados empresariais do segundo trimestre foram robustos.
Na segunda-feira o Reino Unido está fechado (Summer Bank Holiday).
Na Europa continental o principal dado é o CPI preliminar da Alemanha de agosto. Os investidores vigiam o impacto dos preços da energia na inflação e a possibilidade de a BCE manter um tom cauteloso. Os riscos geopolíticos e energéticos limitam o upside.
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