Pão vai subir em outubro
O próximo aumento no supermercado pode não começar no supermercado. Pode começar num campo de trigo na Ucrânia, num porto russo do Mar Negro, num silo francês ou num navio que demora dias a chegar à Europa. Pode passar por uma moagem, por uma fábrica de massas ou por uma exploração pecuária e só meses depois aparecer na fatura das famílias portuguesas.
É este o risco que a atual subida dos cereais coloca sobre Portugal. Pão, farinha, massas, bolachas, pastelaria e cerveja estão entre os produtos diretamente expostos. Carne, leite e ovos podem ser afetados indiretamente, através do custo da alimentação animal.
Não significa que todos estes produtos vão subir imediatamente — nem que subirão na mesma proporção que o trigo. Mas a combinação de guerra, perturbações logísticas, seca e dependência externa está a criar uma pressão que a indústria portuguesa terá de absorver ou, em algum momento, transferir para o consumidor.
E há uma razão para Portugal estar particularmente exposto: produz muito menos cereais do que aqueles que consome.
O produto que pode subir primeiro: o pão
O pão é o exemplo mais evidente da exposição ao trigo mole. “É expetável que haja ajustes no preço do pão a partir de outubro. O setor enfrenta um aumento dos custos das matérias-primas, da energia, dos transportes e da mão de obra, impactos que ainda não foram totalmente refletidos no consumidor. Os nossos associados indicam que, desde junho, as matérias-primas, como o trigo panificável e as leveduras, registaram um aumento médio na ordem dos 10%, pelo que estes custos vão começar a refletir-se no preço final do pão a partir de outubro. Nesta fase, não é possível estimar ainda a percentagem do aumento, mas vai subir.”, avança Débora Barbosa, presidente da Direção da ACIP – Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares.
Os preços internacionais já estão a dar o primeiro sinal. O trigo negociado em Chicago atingiu esta semana de 28 de agosto o nível mais elevado desde 2023, depois de uma subida que ronda 37% desde os mínimos de finais de Junho. A crise do Mar Negro voltou a colocar um prémio de risco significativo no mercado.
No mercado europeu, o movimento também se estendeu ao milho. O contrato de Novembro de 2026 na Euronext ultrapassou os 265 euros por tonelada, enquanto a Argus prevê uma produção francesa de milho de apenas 6,9 milhões de toneladas em 2026.
Os dados do Observatório de Preços Agroalimentar mostram isso claramente. Entre 15 de Junho e 12 de Julho de 2026, o trigo panificável importado estava 6,9% acima do preço de um ano antes. A farinha de trigo normal subia apenas 1,12% e o esparguete 1,04%.
O pão, contudo, apresentava uma subida muito superior: 19,22% em termos homólogos no caso da carcaça acompanhada pelo Observatório. Os números parecem contraditórios, mas não são. Entre o trigo e o pão existe uma cadeia inteira.
Mas a relação entre os dois preços, o do trigo e do aumento do pão está longe de ser directa. Um estudo do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) sobre a cadeia de valor do trigo concluiu que a farinha representa, em média, 14,14% do custo total de produção do pão. Os custos com pessoal representam cerca de 40,31%, a distribuição 15,53% e a energia 11,16%. É por isso que uma subida de 30% do trigo não significa uma subida de 30% do pão.
Num exercício puramente mecânico, se a subida de 30% fosse integralmente transmitida à farinha e todos os restantes custos permanecessem constantes, o custo total de produção do pão aumentaria aproximadamente 4,2%. Não é uma previsão. É uma demonstração da forma como o choque é diluído ao longo da cadeia. Mas há uma segunda questão: o que acontece se o trigo permanecer caro durante vários meses? Aí a capacidade de absorção das empresas diminui.
Segundo o eleconomista, “o preço do arroz está a subir mais de 55% nos mercados internacionais, acompanhando a alta do óleo de soja, de quase 38%, e de outros recursos básicos como o açucar, com um aumento de 21%, ou do milho, que está mais de 15% mais caro até agora.”
Depois vêm as massas, bolachas e pastelaria
O segundo grupo de produtos directamente exposto é constituído pelas massas alimentícias. O trigo duro é a principal matéria-prima da produção de massa. Portugal importa trigo duro sobretudo de outros países europeus, nomeadamente Itália, mas também recorre ao Canadá.
José Palha, presidente da ANPOC — Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas — explica que o abastecimento português de cereais para alimentação humana é essencialmente europeu.
Isto significa que Portugal não precisa necessariamente de comprar trigo directamente à Ucrânia para ser afectado pela guerra. Se o trigo ucraniano deixa de chegar ao mercado, os compradores procuram outros fornecedores. A procura desloca-se para França, Itália, Alemanha, Canadá ou outros grandes exportadores. O fornecedor pode mudar. O preço internacional não desaparece.
A cerveja também pode entrar na equação
A cevada merece uma atenção especial. Portugal produz apenas uma pequena parcela da cevada de que necessita — José Palha estima cerca de 17% das necessidades nacionais. A cevada é utilizada tanto para alimentação animal como para produção de malte, que é essencial na indústria cervejeira.
A campanha deste ano foi particularmente difícil, segundo Palha, devido às condições meteorológicas adversas. E a situação europeia também é complicada. A consequência é que a pressão sobre os cereais não se limita ao trigo. Trigo mole significa sobretudo pão. Trigo duro significa massas. Cevada pode significar cerveja. Milho significa, em grande medida, alimentação animal. É uma cadeia muito mais extensa do que a cotação do trigo sugere.
E depois há a carne, o leite e os ovos
É aqui que começa a segunda vaga. Os cereais são uma componente fundamental da alimentação animal. Milho, cevada e trigo entram nas rações utilizadas na produção pecuária.
Se estes cereais ficam mais caros durante um período prolongado, aumenta o custo de produção de carne, leite e ovos. Não acontece necessariamente de forma imediata. Um produtor pecuário pode ter contratos de alimentação, stocks de ração ou compras antecipadas. Mas, quando esses contratos são renovados e os custos de alimentação permanecem elevados, a pressão chega à exploração.
Depois, passa para a indústria e para a distribuição. É o efeito indireto dos cereais sobre o supermercado. Por isso, uma crise do trigo pode acabar por afetar produtos que, à primeira vista, parecem não ter nada a ver com uma espiga de trigo.
Portugal tem pouca margem para errar
A fragilidade portuguesa não é nova. Segundo o Observatório de Preços Agroalimentar, Portugal produz apenas cerca de 20% dos cereais que consome, dependendo do exterior para aproximadamente 80%.
No trigo, a situação é muito mais extrema: o grau de autoaprovisionamento ronda apenas 5%. Ou seja, Portugal pode produzir pão, massas, bolachas e cerveja. Mas não produz a maior parte da matéria-prima necessária para os fabricar.
José Palha descreve uma situação de “grande dependência das importações” e alerta para outra vulnerabilidade menos conhecida: a capacidade nacional de armazenamento.
Segundo o presidente da ANPOC, as reservas disponíveis representam apenas cerca de 15 dias a três semanas de necessidades, dependendo da situação e do cereal. É uma margem pequena para um país dependente dos portos.
E se os portos fecharem?
A importância dos portos torna-se evidente quando se olha para a atual crise no Mar Negro.
Na Ucrânia, cerca de 90% das exportações de cereais passavam tradicionalmente pelos portos do Mar Negro. Os ataques russos estão a dificultar novamente a utilização dessas infraestruturas, obrigando a desviar parte dos fluxos para o Danúbio. A alternativa está longe de ter a mesma capacidade.
A Reuters relata que até 70 navios chegaram a estar à espera junto ao canal de Sulina. A capacidade de passagem caiu para dois ou três navios por dia. Em Agosto, as exportações ucranianas de cereais estavam muito abaixo das registadas um ano antes.
O problema é especialmente grave porque a Ucrânia está a colher. Os silos ficam cheios. E quando os silos ficam cheios, o agricultor começa a ter dificuldade em guardar a próxima produção. É assim que uma crise logística pode transformar-se numa crise agrícola.
O paradoxo russo
Na Rússia acontece algo diferente. Moscovo continua a ser um dos grandes produtores e exportadores mundiais de trigo, mas os ataques e as perturbações logísticas também estão a dificultar as exportações.
Segundo a Reuters, a Rússia já colheu mais de 100 milhões de toneladas de cereais e enfrenta um excesso de oferta interna. Os agricultores estão a pressionar por medidas que permitam escoar a produção. É um dos paradoxos desta crise: há cereal, mas há cada vez mais dificuldade em fazê-lo circular.
O mercado mundial não está necessariamente perante uma ausência física imediata de trigo. Está perante um problema de geografia, logística e preço.
A seca está a fechar a outra porta
Se o Mar Negro representa um choque geopolítico, a seca representa o choque climático. A Europa está a atravessar uma situação particularmente difícil para várias culturas cerealíferas.
O milho francês é um dos casos mais preocupantes. A Argus prevê uma colheita de apenas 6,9 milhões de toneladas em França em 2026, depois de uma combinação de seca e calor ter afectado o potencial produtivo.
Para Portugal, isto é particularmente relevante porque a Europa é uma das principais fontes de abastecimento de cereais destinados à alimentação humana, nomeadamente a França.
Se a Europa produz menos, Portugal tem de procurar mais longe. E procurar mais longe custa dinheiro.
Os agricultores também estão a pagar mais
Existe ainda uma parte da equação que não pode ser esquecida: produzir cereais está mais caro.
José Palha chama a atenção para a subida dos custos de produção agrícola, nomeadamente combustível, energia e fertilizantes. Os fertilizantes são particularmente sensíveis aos preços da energia e às perturbações geopolíticas, incluindo as que afectam regiões produtoras de matérias-primas e rotas comerciais.
Isto cria outro círculo vicioso. O agricultor paga mais para produzir. Precisa de vender mais caro para recuperar a margem. Mas, se o preço de venda não acompanhar os custos, reduz a área cultivada ou muda para uma cultura mais rentável. É precisamente o que tem acontecido em algumas regiões portuguesas.
Alqueva também conta nesta história
A redução da área cerealífera portuguesa não pode ser explicada apenas pelo clima. Com a expansão do regadio do Alqueva, terras que historicamente produziam cereais de sequeiro passaram a ter alternativas agrícolas mais rentáveis.
O olival e o amendoal são exemplos particularmente evidentes. Para o agricultor, a escolha é racional: se a mesma terra e a mesma água permitem produzir uma cultura de maior valor económico, torna-se difícil justificar a manutenção dos cereais.
Para o país, porém, existe um problema. O que é racional para cada exploração agrícola pode ser menos racional para a segurança alimentar nacional. É um dos dilemas mais difíceis da política agrícola portuguesa.
O relógio da inflação alimentar
Há uma razão para os preços do supermercado não acompanharem imediatamente os mercados de futuros. Uma empresa pode ter comprado trigo meses antes. Pode ter contratos de fornecimento. Pode ter stocks. A farinha ainda tem de ser produzida, a massa transformada, o produto embalado e distribuído. A transmissão é lenta.
Segundo economistas da FAO citados pela Reuters, os choques dos preços das matérias-primas alimentares podem demorar três a seis meses a chegar plenamente aos preços finais. É por isso que o preço de hoje não é necessariamente o preço que o consumidor verá daqui a três meses.
A pergunta relevante não é, portanto, apenas quanto subiu o trigo? É durante quanto tempo ficará caro? Se a resposta for algumas semanas, a indústria pode absorver uma parte do choque. Se forem seis meses, um ano ou mais, a pressão sobre os preços finais será muito maior.
Portugal precisa de mais do que trigo
A atual crise volta a colocar uma velha questão em cima da mesa: segurança alimentar. A Estratégia +CEREAIS, coordenada pelo GPP, pretende aumentar o grau de autoaprovisionamento nacional de cereais para 38% em cinco anos, partindo de aproximadamente 20%. A meta é ambiciosa.
Mas aumentar a produção significa tornar os cereais economicamente competitivos para os agricultores num país onde água, terra, clima e rentabilidade competem entre si.
José Palha lembra que esta dependência tem raízes históricas. Portugal foi durante séculos deficitário em cereais e a procura de abastecimento externo esteve ligada à própria história económica e marítima do país. A diferença é que hoje uma perturbação num porto a milhares de quilómetros pode ser transmitida quase instantaneamente aos mercados financeiros.
Da espiga ao supermercado
O cenário que se desenha não é o de Portugal ficar sem pão. É mais subtil.
O trigo sobe no Mar Negro. Os compradores procuram novas origens. A procura desloca-se para a Europa e para outros grandes exportadores. Os custos de transporte e seguros aumentam. A farinha fica mais cara. Depois podem subir massas, pão, bolachas e pastelaria. Se milho e cevada também encarecerem, aumenta o custo da alimentação animal. E, mais tarde, carne, leite e ovos podem sentir a pressão. É uma cadeia que começa numa guerra e pode terminar numa fatura de supermercado.
Por enquanto, ainda é cedo para afirmar que Portugal que os alimentos vão todos subir. O próprio presidente da ANPOC considera prematuro fazer essa previsão. Mas há uma diferença entre dizer que a crise já chegou à mesa e reconhecer que as condições para ela chegar estão a formar-se.
Portugal importa cerca de 80% dos cereais que consome. Tem uma produção nacional limitada de trigo. Dispõe de capacidade de armazenamento reduzida. E está inserido num mercado europeu que também enfrenta problemas climáticos. A guerra no Mar Negro pode, por isso, não ser capaz de tirar o pão da mesa dos portugueses. Mas pode tornar o pão — e tudo o que depende dos cereais — mais caro para o pôr lá.
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