Moçambique/Ataques: Quase 85% das crianças de Cabo Delgado vivem abaixo da linha de pobreza, diz Unicef
Quase 85% das crianças de Cabo Delgado, Moçambique, vivem em agregados familiares abaixo da linha de pobreza, 228 mil estão deslocadas pelo conflito e 45% sofrem de desnutrição crónica, segundo dados do Unicef.
No relatório sobre a situação em Cabo Delgado em 2025, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) traça um quadro preocupante da infância na província do norte de Moçambique afetada há quase nove anos pela insurgência armada, concluindo que as crianças continuam a enfrentar “uma crise prolongada, marcada pelo conflito, deslocação, pobreza, choques climáticos e acesso limitado a serviços essenciais”.
Acrescenta que “a insegurança continuou a desenraizar famílias, perturbar a vida quotidiana e exercer forte pressão sobre os sistemas de que as crianças dependem para sobreviver, aprender e estar protegidas”.
O Unicef aponta que 84% das crianças vivem em pobreza monetária, a taxa mais elevada de Moçambique, enquanto 48% enfrentam privações multidimensionais em áreas como educação, nutrição, água, saneamento, habitação e proteção.
Em abril de 2025, Cabo Delgado acolhia 428.945 deslocados internos, “quase 70% de todas as pessoas deslocadas internamente em Moçambique”, sendo que mais de metade eram mulheres e crianças, incluindo 228.329 menores e mais de 74.000 crianças com menos de cinco anos.
Os indicadores de sobrevivência infantil permanecem entre os mais graves do país e Cabo Delgado regista a mais elevada taxa nacional de mortalidade de menores de cinco anos, com 89 mortes por cada mil nados-vivos. A desnutrição crónica afeta 45% das crianças nessa faixa etária, com o relatório a referir que muitas destas mortes estão associadas a causas evitáveis, como malária, diarreia, pneumonia e complicações durante o parto.
Na educação, apenas 19,1% das crianças frequentam o primeiro ciclo do ensino secundário e 6,8% o segundo ciclo. Além disso, cerca de 44% dos adolescentes dos 12 aos 14 anos e 63% dos jovens entre os 15 e os 17 anos estão fora da escola.
Os riscos de proteção continuam igualmente elevados e segundo o Unicef, 61% das mulheres dos 20 aos 24 anos casaram antes dos 18 anos e 56,7% das crianças entre os 1 e os 14 anos sofreram alguma forma de disciplina violenta. O documento assinala ainda que “continuam a ser reportadas violações graves dos direitos da criança”.
Para a organização, a conjugação entre conflito, pobreza e fragilidade dos serviços básicos ajuda a explicar por que Cabo Delgado reúne simultaneamente potencial de desenvolvimento e algumas das mais profundas privações infantis do país.
“Este contexto mostra por que razão a programação integrada é essencial”, conclui o relatório.
A crise humanitária decorre da insurgência que afeta Cabo Delgado, província rica em gás, desde outubro de 2017. Segundo dados divulgados anteriormente pelo Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), foram registados 2.408 eventos violentos desde o início do conflito, dos quais 2.224 envolvendo elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), provocando mais de 6.600 mortos.
Um relatório apresentado recentemente ao Conselho de Segurança da ONU concluiu que o grupo armado aumentou para entre 400 e 500 combatentes, intensificou o recrutamento e apresenta sinais de expansão para os distritos do sul de Cabo Delgado, apesar da pressão militar no terreno.
O impacto sobre as crianças continua a constituir uma das principais preocupações das organizações internacionais. Um relatório das Nações Unidas sobre Crianças e Conflitos Armados, divulgado este mês, confirmou 552 violações graves contra 355 crianças em Moçambique durante 2025, sobretudo em Cabo Delgado, incluindo 175 casos de recrutamento e utilização de menores por grupos armados, 326 raptos, 23 situações de violência sexual e ataques contra 12 escolas e um hospital.
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