Rússia regressa aos encontros do G20 a convite dos EUA e para desconforto dos europeus
No meio de uma guerra comercial declarada contra o Irão, outra menos explícita com o parceiro Canadá e uma terceira mais ou menos disfarçada contra a imprensa, os Estados Unidos receberam a cimeira dos G20, onde esteve incluído novamente o ministro das Finanças russo, para a ira dos europeus presentes.
“Creio que a posição europeia é conhecida”, começou por afirmar Valdis Dombrovskis, comissário europeu para a economia, à margem do encontro organizado pelos EUA em Asheville, na Carolina do Norte, entre os representantes das 20 economias mais avançadas do mundo. “Esta não é a altura de normalizar a Rússia”, prosseguiu.
O arranque do segundo dia ficou marcado por uma série de tensões entre os participantes, com a mais óbvia e notória sendo a rejeição por parte dos representantes europeus de figurarem numa fotografia de grupo com o ministro russo das Finanças, Anton Siluanov, no final do primeiro dia do encontro.
“Uma das razões pelas quais sou tão bem-sucedido é que me dou bem com toda a gente”, atirou o presidente Trump aos repórteres a propósito da presença russa.
O desconforto dos europeus com o convite ficou patente, mas nem por isso do lado dos EUA houve qualquer recuo. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, falou em “boas discussões” no final de segunda-feira, garantindo que Washington continuará a pressionar os seus aliados para que se juntem à asfixia económica a Teerão com vista a derrubar o regime iraniano.
O portal norte-americano Axios cita uma fonte anónima no Tesouro que revela que Bessent e Siluanov discutiram o plano de paz de Washington para a Ucrânia, mas que do lado norte-americano houve a garantia que não haverá recuos nas sanções a Moscovo enquanto o conflito continuar.
Do lado europeu, o ministro das Finanças alemão foi um dos porta-vozes do descontentamento. Lars Klingbeil falou num “sinal preocupante” com o convite norte-americano a Siluanov, admitindo que gostaria de ter visto uma posição clara dos aliados transatlânticos quanto à presença russa no encontro.
“Não confiamos na Rússia. Eles mentem constantemente e precisamos de ser muito cuidadosos ao debater com eles”, acrescentou o ministro polaco das Finanças, Andrzej Domanski.
Aliados e jornalistas visados
Além das tensões geopolíticas entre blocos, a reunião dos responsáveis das 19 economias mais avançadas do mundo juntamente com a UE (a África do Sul faz parte do G20, mas o país não foi convidado depois de avançar com uma queixa no Tribunal Penal Internacional contra a ação militar de Israel em Gaza, sendo substituído pela Polónia) serviu para os líderes do G7 discutirem, em reuniões à margem do evento, a guerra comercial entre EUA e Canadá.
O receio é que estas fricções desgastem o bloco, dado o afastamento crescente entre norte-americanos e canadianos. Com a presidência rotativa dos EUA a aproximar-se do fim (acaba no dia 31 de dezembro deste ano), quaisquer acordos materiais começam a parecer cada vez mais improváveis.
Outro foco de desconforto e discórdia entre os países presentes é a decisão da administração norte-americana de não permitir a presença de jornalistas de certos órgãos de comunicação social, incluindo o ‘New York Times’, a ‘Bloomberg News’ ou o ‘The Wall Street Journal’.
Pressionado pelo sindicato alemão dos jornalistas, o ministro germânico das Finanças deixou algumas críticas.
“A imprensa tem um interesse completamente legítimo em reportar de forma livre e aberta a cimeira dos G20”, afirmou Klingbeil. “Considero inaceitável a exclusão de jornalistas ou de equipas de média”, acrescentou.
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