Reacender das tensões no Médio Oriente leva juros dos títulos soberanos a renovarem máximos
O renovar das hostilidades entre norte-americanos e iranianos em Ormuz está a levar a uma subida nas yields soberanas, com o mercado a temer maior pressão inflacionista e, subsequentemente, mais subidas dos juros diretores nas principais economias ocidentais. Os títulos de vários países, incluindo Portugal, aproximaram-se ou renovaram máximos de vários anos, espelhando as preocupações dos investidores perante nova onda de incerteza.
Os juros dos títulos japoneses são dos que assumem mais destaque, batendo máximos de 30 anos ao chegarem a 3% nas maturidades a dez anos, mas não são os únicos em alta. As gilts britânicas a dez anos também dispararam mais de 9 pontos base (pb), chegando a 5,258%, o nível mais alto desde junho de 2008; já nas maturidades a 30 anos, uma subida de igual magnitude levou a yield a cerca de 5,9041%, o valor mais elevado desde 1998.
Nos EUA, os títulos do Tesouro a dez anos também tocaram máximos de 20 meses depois de subirem mais de 3pb até 4,798%, enquanto as bunds alemãs a dez anos, tipicamente vistas como um barómetro da vitalidade da zona euro nos mercados, subiram mais de 3pb até 3,369%, um novo máximo do último ano. Já os títulos a dois anos chegaram a máximos de 2024 com yields de 2,9919%.
Em França, as obrigações a dois anos também renovaram máximos de abril de 2024, chegando a 3,1939%.
Já os títulos portugueses a 20 anos aproximaram-se de máximos de quase uma década, subindo mais de 3pb até 4,269%.
“Isto tem sido uma história global”, classifica Peter Schaffrik, estratega na RBC Capital Markets, ao ‘New York Times’.
Na mesma linha, Jim Reid, diretor de análise macro no Deutsche Bank, argumentou à agência francesa AFP que “o principal motor foi a escalada no Médio Oriente durante o fim-de-semana, em que os EUA e o Irão trocaram fogo pela primeira vez desde o final de julho”.
Os mercados obrigacionistas voltam assim a estar em destaque com nova escalada após o renovar das hostilidades em Ormuz, com norte-americanos e iranianos a trocarem fogo pela primeira vez em várias semanas. Na mesma linha, a retórica entre ambos os lados agravou-se.
A cotação internacional do petróleo reagiu de imediato, adensando os medos dos investidores quanto a novas subidas das taxas diretoras face a uma inflação que continua sem dar sinais de melhoria. Na zona euro, o indicador de preços tocou novos máximos desde o arranque do conflito entre americanos e iranianos ao chegar a 3,3%.
Assim, os investidores estão cada vez mais inclinados para novas subidas das taxas diretoras em breve, dada a persistência da inflação na zona euro, EUA ou Reino Unido. Esta possibilidade foi reforçada pelos comentários recentes do secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, sobre como o Banco do Japão (BoJ) deve subir juros na próxima reunião de política monetária.
O receio é que, com yields nas obrigações acima de 3%, muitos agentes financeiros de grande escala japoneses, nomeadamente fundos e seguradoras, abandonem títulos do Tesouro dos EUA em detrimento de reforçarem a sua posição no mercado doméstico.
Financiamento de hyperscalers na mira do BCE
O disparo nas obrigações soberanas surge numa altura em que o Banco Central europeu (BCE) alerta para os riscos criados pela onda de investimento em IA, onda essa que chegou aos mercados europeus.
Por um lado, a preferência dada a este segmento pode inviabilizar projetos relevantes noutras áreas, levando a uma exclusão dos mesmos em detrimento de mais IA (o chamado crowding-out do investimento); por outro, e com um risco sistémico associado ainda maior, o recurso a dívida por parte destas empresas podem tornar estes títulos cada vez menos sólidos.
Numa publicação desta segunda-feira no blog do banco central pode-se ler que as necessidades crescentes e maciças de financiamento por parte dos hyperscalers norte-americanos (empresas como a Meta, Amazon, Microsoft ou Oracle) estão a levar a mais emissões de dívida denominada em euros, representando já quase 10% de toda a dívida na moeda única emitida por entidades não-financeiras.
Apesar de ainda não haver sinais de disrupções, o risco sistémico é evidente, defendem os técnicos do BCE.
“Isto pode ser o início de uma onda de financiamento de proporções sem precedentes que poderá decididamente remodelar os mercados obrigacionistas, incluindo na zona euro, levando emissores, intermediários e investidores a terem de se adaptar”, lê-se no site da autoridade monetária europeia.
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