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Um ano depois, o que está em causa no acidente do Elevador da Glória?

Um ano depois, o que está em causa no acidente do Elevador da Glória?

Quem fazia a manutenção do Elevador da Glória?
A manutenção estava a cargo da MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, Lda., empresa que prestava serviços à Carris desde 2017. O contrato abrangia quatro equipamentos históricos da empresa: Elevador da Glória, Elevador da Bica, Elevador do Lavra e Elevador de Santa Justa.
Quanto pagava a Carris pela manutenção?
O contrato celebrado em 2022 tinha um valor de 995.515,20 euros, mais IVA, para um período máximo de 36 meses. A avença mensal era de 23.653,20 euros, mais IVA, para os quatro equipamentos. O contrato previa ainda uma verba máxima de 144 mil euros, mais IVA, para reparações extraordinárias autorizadas pela Carris.
Quanto correspondia especificamente ao Elevador da Glória?
A repartição contratual correspondia a cerca de 5.913,30 euros por mês, mais IVA, por equipamento, ou cerca de 70.959,60 euros por ano, no caso da Glória. O contrato, contudo, era global para os quatro equipamentos.
Quando é que a MNTC deixou de fazer a manutenção?
A Carris revogou o contrato com a MNTC a 4 de novembro de 2025, dois meses depois do acidente. A empresa pública informou que as necessidades de manutenção passariam a ser asseguradas pela equipa interna da Carris.
O que apontou a investigação à manutenção?
O relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), publicado em 20 de outubro de 2025, identificou problemas relacionados com a manutenção e apontou que a MNTC não dispunha do corpo de engenharia com o conhecimento técnico especializado em funiculares necessário para desenvolver, atualizar e adaptar as ações de manutenção à realidade da operação. O relatório final ainda não foi concluído.
O que aconteceu à empresa que fazia a manutenção quando ocorreu o acidente?A MNTC, responsável pela manutenção do Elevador da Glória no momento do acidente e prestadora de serviços à Carris desde 2017, deixou de trabalhar para a transportadora. A Carris terminou os contratos com a empresa em novembro de 2025, passando a assegurar internamente as necessidades de manutenção.
O que fez a Câmara de Lisboa depois do acidente?Além de criar a equipa de missão para estudar o novo sistema tecnológico, a autarquia diz ter desenvolvido auditorias internas e externas, apoiado vítimas e familiares e acompanhado a investigação às causas do acidente. A oposição, por seu lado, tem criticado a falta de informação e exigido esclarecimentos sobre as responsabilidades.
Que empresa está a fazer a auditoria externa e quanto custou?
A auditoria externa foi adjudicada ao CATIM – Centro de Apoio Tecnológico à Indústria Metalomecânica, por 12.600 euros, para inspeção técnica ao funcionamento de todos os equipamentos históricos, enquanto o inquérito interno da Carris está a ser feito pela Comissão de Inquérito de Acidente Grave (CIAG).
Quantas pessoas morreram e ficaram feridas?
O acidente de 3 de setembro de 2025 provocou 16 mortos e 24 feridos. As vítimas tinham 15 nacionalidades diferentes.
Quantas pessoas faltam indemnizar?
Dos 16 mortos no acidente, apenas quatro processos de indemnização foram concluídos com acordo entre a seguradora e as famílias. Isso significa que 12 processos relativos às vítimas mortais continuam por fechar: sete estão em negociação, um seguiu para tribunal, outro está a ser tratado como acidente de trabalho e três ainda não permitem uma proposta definitiva por questões documentais e jurídicas. Quanto aos 24 feridos, ainda não foi possível determinar definitivamente as indemnizações, uma vez que é necessário aguardar pela estabilização clínica e pela avaliação das eventuais sequelas. Assim, há 36 vítimas no total e apenas os processos relativos a quatro das vítimas mortais estão já concluídos.
Quanto dinheiro já foi assumido pela seguradora?
A Fidelidade, seguradora da Carris, revelou à Lusa em 27 de agosto de 2026 que já tinha suportado diretamente ou assumido a responsabilidade pelo reembolso de cerca de 2,3 milhões de euros em despesas relacionadas com o acidente. Este valor inclui indemnizações, mas também despesas funerárias, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, cirurgias, reabilitação, transportes e salários perdidos. Portanto, os 2,3 milhões de euros não correspondem apenas a indemnizações.
Qual a cobertura do seguro?
Após acionado o seguro, a cobertura ronda até 50 milhões de euros.
Quantas famílias das vítimas mortais já receberam indemnizações?
Até 27 de agosto de 2026, tinham sido concluídos acordos de indemnização com quatro famílias das 16 vítimas mortais, sobretudo turistas estrangeiros. Outros sete processos estavam em negociação.
O que acontece aos restantes processos?
Além dos quatro acordos já alcançados e dos sete processos em negociação, um processo segue os seus trâmites judiciais, depois de não ter sido possível chegar a acordo sobre a proposta apresentada. Há ainda uma vítima mortal cujo processo está a ser tratado exclusivamente no âmbito de acidentes de trabalho, com pagamento de pensões provisórias. Outros três processos ainda não tinham uma proposta indemnizatória definitiva, sobretudo devido à necessidade de obter documentação e às especificidades legais dos países envolvidos.
E os 24 feridos, já receberam indemnizações?
Ainda não é possível fechar definitivamente esses processos. A Fidelidade explicou em comunicado citado pela Lusa que a avaliação indemnizatória definitiva só poderá ser feita quando existir estabilização clínica, permitindo determinar a extensão das eventuais sequelas e dos danos sofridos. Até 27 de agosto, nenhum dos processos dos feridos estava definitivamente encerrado.
Qual é o valor de uma indemnização reclamada em tribunal?
Em junho de 2026, a família de Ana Paula, uma das vítimas mortais, apresentou uma ação judicial contra a Carris, a Fidelidade e a MNTC, reclamando 1.050.000 euros. O valor inclui a perda da vida, o sofrimento antes da morte, danos morais do marido e da filha e rendimentos que a família deixou de receber.
A Carris já encontrou os responsáveis pelo acidente?
Ainda não. A Carris terminou o contrato com a MNTC e o relatório preliminar apontou problemas relacionados com a manutenção, mas isso não significa que estejam já determinadas as responsabilidades legais pelo acidente. O apuramento definitivo depende da investigação do GPIAAF.
Quando será conhecido o relatório final sobre o acidente?
O relatório final do GPIAAF, inicialmente esperado para setembro de 2026, já não ficará concluído nessa altura. A previsão atual aponta para a publicação até ao final do primeiro trimestre de 2027. O atraso deve-se à complexidade das peritagens técnicas e da investigação.
O que foi apresentado dia 31 de agosto para o futuro do Elevador da Glória?
A Carris apresentou no dia 31 de agosto de 2026, o novo plano para o Elevador da Glória, quase um ano depois da tragédia. A solução prevê a substituição integral do sistema por uma solução moderna e certificada, procurando conciliar segurança, engenharia, espaço público e preservação do património. A Carris quer manter a identidade histórica do ascensor e a sua relação com a Calçada da Glória e com Lisboa.
Quem ficou responsável por desenhar o novo sistema do Elevador da Glória?Uma semana depois do acidente, a Câmara de Lisboa criou uma equipa de missão para estudar a solução tecnológica para o futuro ascensor, reunindo especialistas do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), da Ordem dos Engenheiros e do Instituto Superior Técnico (IST). A equipa deveria contribuir para definir uma solução que preservasse a identidade do equipamento, mas respondesse aos atuais requisitos de segurança.
Quando estará pronto o novo Elevador da Glória?A Carris prevê que o novo ascensor seja inaugurado em 2029. O equipamento será uma nova instalação e não uma reconstrução do anterior, mantendo uma configuração semelhante, mas utilizando materiais mais resistentes e deixando de utilizar a madeira na estrutura original.
Quando será lançado o concurso para o novo ascensor?A Carris prevê lançar um concurso público internacional de conceção até ao final de março de 2027. O projeto deverá respeitar a identidade histórica do Elevador da Glória, mas incorporar padrões mais elevados de segurança, fiabilidade, acessibilidade, sustentabilidade e supervisão tecnológica.
O que vai mudar no novo equipamento?O futuro ascensor terá uma configuração semelhante à do anterior, mas será construído com materiais mais resistentes e com uma solução tecnológica moderna. A madeira utilizada na estrutura original será abandonada. Segundo o presidente da Carris, Rui Lopo, a solução será uma nova instalação e não uma reconstrução. A intenção é manter a Calçada da Glória com o aspecto que tem tido ao longo das últimas décadas, conciliando a preservação histórica com padrões de segurança mais elevados.
Há uma investigação criminal além da investigação técnica?Sim. Além da investigação do GPIAAF, que deverá ter o relatório final publicado até ao final do primeiro trimestre de 2027, está a decorrer uma investigação do Ministério Público. Segundo a informação divulgada, já foram constituídos três arguidos, entre os quais o diretor da Carris, e a acusação deverá ser deduzida até ao final de 2026.
O que está a ser investigado pelo Ministério Público e quando haverá uma conclusão?A investigação criminal, independente da investigação técnica do GPIAAF, está a realizar perícias para determinar as causas do acidente e eventuais responsabilidades criminais. Os trabalhos incidem sobre o cabo de tração e a sua fixação ao veículo, os diferentes sistemas de travagem, as condições de aderência dos freios aos carris e às rodas, o sistema elétrico e a sua ligação aos sistemas de travagem e ao cabo de tração. O Ministério Público está também a analisar a organização da Carris e os processos de manutenção e de certificação de qualidade e segurança utilizados pela empresa. Segundo o gabinete de imprensa do Ministério Público, as perícias, consideradas de elevada complexidade técnica, deverão terminar em novembro de 2026. Depois seguirá a análise dos resultados e dos indícios recolhidos, estando previsto que o despacho final do inquérito possa ser proferido até ao final do primeiro trimestre de 2027, salvo algum imponderável.
A Câmara de Lisboa também investigou o acidente?Sim. Uma semana depois da tragédia, a Câmara Municipal de Lisboa criou uma equipa de missão para estudar um novo sistema tecnológico para o Elevador da Glória. A equipa integrou técnicos da Ordem dos Engenheiros, do LNEC e do Instituto Superior Técnico. O município diz ter desenvolvido também auditorias internas e externas na sequência do acidente.
O novo plano é apenas para o Elevador da Glória?
Não. A Carris revelou também a intenção de substituir integralmente o sistema do Elevador do Lavra, recorrendo igualmente a uma solução moderna e certificada. É importante distinguir esta intervenção do contrato de manutenção anterior: a MNTC tinha a seu cargo quatro equipamentos — Glória, Bica, Lavra e Santa Justa —, mas o novo plano de substituição apresentado na sequência da tragédia diz respeito à Glória e ao Lavra.
O que falta, afinal, esclarecer?
Um ano depois da tragédia, continuam em aberto três questões centrais: o que provocou exactamente o acidente, quem poderá ser responsabilizado e quanto irão custar, no final, as indemnizações às vítimas e às famílias. A investigação técnica ainda não terminou, os processos indemnizatórios estão longe de estar todos concluídos e a Carris prepara uma nova solução tecnológica para que o Elevador da Glória possa voltar a funcionar.

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