Volkswagen adia mais decisões difíceis
O Grupo Volkswagen, depois de anunciar esta quinta-feira uma reestruturação que poderá eliminar cerca de 100.000 empregos, reduzir para metade a gama de automóveis e deixar quatro fábricas alemãs com o futuro em aberto, ainda tem decisões pela frente, algumas mais difíceis.
O Future Plan 2030 que noticiámos a 3 de setembro, impressiona pela dimensão dos números: cerca de 50.000 postos de trabalho adicionais a eliminar, além de aproximadamente outros 50.000 já acordados; redução para metade do número de modelos nas gamas das diversas marcas do consórcio, o maior fabricante europeu de automóveis (e o número dois do mundo, superando-se só a Toyota!); diminuição de 75% da complexidade dos produtos; e quatro fábricas alemãs com o futuro por definir.
No entanto, a aprovação unânime do plano pelo Conselho de Supervisão da empresa não significa que todas estas decisões estejam tomadas. Uma análise mais detalhada do acordo confirma que algumas das medidas mais difíceis da estratégia foram adiadas para os próximos meses e anos. Oliver Blume, o administrador-delegado, conseguiu, assim, vencer o “braço de ferro” com todos os opositores do plano, incluindo dentro do Conselho, e obter luz verde para a implementação das principais metas inscritas no Future Plan 2030, depois de semanas de tensão entre os diferentes blocos de poder que participam na governação do fabricante.
Blume chegou mesmo a ameaçar contornar o Conselho de Supervisão e remeter a decisão para uma assembleia extraordinária de acionistas, aumentando a pressão para alcançar um acordo. Todavia, o CEO também teve de fazer cedências. Para já, a administração recuou nos possíveis encerramentos de fábricas, comprometendo-se primeiro a tentar tornar competitivas as unidades em causa (ou a encontrar utilizações alternativas).
O resultado é um compromisso: a administração conseguiu aprovar objetivos financeiros e industriais ambiciosos, mas algumas das decisões mais sensíveis necessárias para os concretizar ficaram para decidir mais tarde.
Quatro fábricas sem futuro definido
Como escrevemos anteriormente, Emden, Zwickau, Hannover e a fábrica da Audi em Neckarsulm são as quatro unidades alemãs cujo futuro está sob avaliação.
Sabe-se agora que nenhuma dispõe de uma atribuição de produto considerada competitivamente viável depois de terminarem os programas em curso, o que acontecerá de forma progressiva entre 2031 e 2034.
O problema é agravado pelo excesso de capacidade de produção existente na empresa e na Europa. As fábricas do Grupo Volkswagen podem fazer cerca de 500.000 automóveis por ano a mais do que a companhia necessita, o equivalente a cerca de 5,6% do objetivo de nove milhões de carros vendidos anualmente.
Até ao final de junho de 2027, o grupo tem de apresentar um plano para criar uma estrutura industrial europeia mais competitiva e sustentável, mas continua sem dizer se alguma das quatro fábricas pode fechar, ser vendida, reduzir a atividade, receber modelos de outras marcas ou ser reconvertida para outras atividades.
135.000 milhões ainda não estão aprovados
O programa de investimento também permanece em aberto, pelo menos parcialmente. O Future Plan 2030 prevê cerca de 135.000 milhões de euros para fábricas, equipamentos, investigação e desenvolvimento entre 2027 e 2031, mas este montante representa apenas uma verba provisória. Os projetos individuais terão de regressar ao Conselho de Supervisão para aprovação durante o próximo ciclo de planeamento.
O mesmo acontece com a reorganização da estrutura empresarial. O Conselho encarregou a administração de desenvolver um novo modelo destinado a aproveitar melhor as sinergias de compras e tecnológica, clarificar responsabilidades e acelerar as decisões. Ainda não está definido se a reorganização poderá implicar fusões de empresas ou marcas, maior centralização de funções ou alterações na distribuição de responsabilidades entre o grupo e cada uma das suas subsidiárias.
Triplicar o lucro sem vender mais carros
Em 2030, o Grupo Volkswagen pretende vender nove milhões de automóveis, alcançar uma margem operacional de 9% e obter um lucro operacional de 31.000 milhões de euros. Em 2025, já entregou nove milhões de veículos, mas conseguiu apenas 8,9 mil milhões de euros de lucro operacional, sobre receitas de aproximadamente 322.000 milhões. Ou seja, o consórcio ambiciona mais do que triplicar o lucro operacional sem aumentar o número de automóveis vendidos.
É para atingir esse objetivo que o Future Plan 2030 prevê a profunda redução de custos e complexidade que noticiámos ontem: a gama deverá diminuir cerca de 50% até 2035 e a complexidade dos produtos em 75%, o que permitirá aumentar as economias de escala e reduzir os custos de desenvolvimento e produção. O grupo pretende ainda eliminar duplicações entre marcas e funções, simplificar as estruturas de gestão e acelerar os processos de decisão.
Também será avaliada a carteira de participações e negócios, que deverá diminuir em um terço. E atividades consideradas não essenciais para o negócio automóvel poderão ser vendidas ou reorganizadas.
Menos 100.000 empregos, mas há muito por decidir
Também os cortes de emprego anunciados estão longe de constituir um processo fechado. Os cerca de 50.000 postos de trabalho adicionais que o Grupo Volkswagen considera necessário eliminar, além de outros 50.000 já acordados anteriormente, ainda terão de ser concretizados e, em muitos casos, negociados com os representantes dos trabalhadores.
A empresa não revelou onde serão realizados os novos cortes, quando acontecerão, se o plano for mesmo avante, e qual a extensão da distribuição geográfica (Alemanha, China e outras regiões). Também não esclareceu se os 50.000 postos representam reduções brutas ou a diminuição líquida do emprego depois de eventuais contratações em áreas que exigem investimentos, como baterias e “software”.
Os objetivos estão aprovados, mas muitas decisões mais difíceis foram adiadas.
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