A carregar agora

As Noites Brancas e o neobarroco português

As Noites Brancas e o neobarroco português

Precisamos de tantas festas assim?
“Noites Brancas” é o livro que mais aproxima Fiódor Dostoiévski (Rússia, 1821-1881) do romantismo, e que foi publicado em 1848, antes de sua prisão. A personagem central é o Sonhador, que numa das noites brancas da capital São Petersburgo apaixona-se pela jovem Nástienka. As noites brancas são as do início do verão que se observam em latitudes como as de São Petersburgo e em que quase não escurece. São noites que não se distinguem dos dias e que, os dois personagens, passam em parte acordados, a conversar. Não sei se a literatura russa e se Dostoiévski inspiraram os grandes públicos que recuperam o nome, mas o fenómeno natural, seguramente, terá sido mote inspirador.
Em 2002, por iniciativa da Câmara Municipal de Paris, é criada Nuit Blanche de Paris. O conceito era relativamente radical para a política cultural municipal da época: transformar Paris, durante uma noite inteira, num grande espaço de criação contemporânea, gratuito e acessível a todos. Museus, centros culturais e edifícios públicos permaneciam abertos durante a noite, mas o projeto procurava sobretudo levar a arte para fora das instituições habituais, ocupando ruas, praças, igrejas, estações, jardins, edifícios administrativos e outros lugares inesperados. Atualmente, a Nuit Blanche de Paris realiza-se no primeiro fim de semana de junho e é, do ponto de vista das políticas culturais públicas, um alicerce de apoio à criação contemporânea local e jovem.
Um dos antecedentes importantes foi a Lange Nacht der Museen, iniciada em Berlim em 1997. Contudo, Paris desenvolveu um modelo diferente: não se tratava simplesmente de manter os museus abertos até mais tarde, mas de encomendar e apresentar arte contemporânea em toda a cidade.
O sucesso foi enorme e o modelo parisiense rapidamente se internacionalizou. Em 2007 foi criada inclusivamente uma rede europeia de cidades com Nuits Blanches.
A primeira Noite Branca realizada em Portugal foi a de Loulé, em 2007. É importante, contudo, distinguir a Noite Branca de Loulé do modelo original da Nuit Blanche de Paris. Em Loulé, a iniciativa nasceu promovida pela Câmara e foi concebida sobretudo como um grande acontecimento urbano de despedida do verão algarvio, realizado no último sábado de agosto. E é aqui que a interpretação portuguesa se barroquiza e ganha, se quisermos, originalidade: em Loulé todos se vestiram de branco. Ou seja, se a mensagem parisiense era de uma “noite em branco”, em Loulé, “a cidade torna-se branca”.
A Noite Branca de Braga, que decorre entre os dias 4 e 6 de setembro de 2026 na sua 12ª edição, só surge em 2012, integrada na programação de Braga – Capital Europeia da Juventude 2012, e declara explicitamente a Nuit Blanche de Paris como inspiração. Se o modelo inicial tinha a boa intenção de a Noite Branca de Braga ser, de facto, uma noite em branco e por excelência de apoio à criação contemporânea, cedo se transformou numa outra coisa, roubando a ideia das vestes brancas a Loulé e obedecendo ao padrão identitário do desejo de tudo ser barroco, neste caso, neobarroco.
Atualmente serão quase duas dezenas as “Noites Brancas” que se organizam em todo o país, sorvendo uma parte muito substancial dos orçamentos municipais disponíveis para a cultura e tendo, cada vez menos, interesse em apoiar, de facto, a criação artística na sua génese. As “Noites Brancas” são grandes festas, portais de entretenimento e plataformas de transformação dos centros históricos em tascais gigantes. Em Paris, por exemplo, é totalmente proibido, sequer, vender bebidas alcoólicas em espaço público, o que me parece, cada vez mais, uma medida de saúde pública essencial.
Precisamos mesmo de tantas festas assim, todas parecidas e que em pouco ou nada se relacionam com a diversidade identitária e patrimonial de cada lugar e muito menos são formas de apoiar a criação contemporânea? Será esta a melhor forma de canalizar os investimentos públicos?

Share this content:

Publicar comentário