Regresso ao trabalho e o “perfume” das férias
A retoma da actividade pós-férias pode aportar algumas dificuldades! Faz parte do anedotário das organizações, a melancolia do regresso, os comentários sobre a saudade e as recordações do que se viveu durante a pausa estival, e as dificuldades em voltar a engrenar no ritmo do dia-a-dia.
O desconforto do regresso gera por vezes, alguma culpabilidade pelas reacções emocionais espoletadas e também, alguma incompreensão sobre a dificuldade de retomar o business as usual.
Sendo uma conquista civilizacional muito recente, as férias[1] constituem uma descontinuidade programada nas rotinas instaladas, tanto na hora de partir como na hora de regressar ao trabalho. De um ponto de vista neurofisiológico, tendemos a funcionar melhor com previsibilidade, hábitos e processos.
Nas férias alteram-se hábitos de sono, de alimentação, de actividade física, de obrigações e expectativas. Para pessoas muitas orientadas para o desempenho, essa mudança poderá gerar desconforto, inquietação ou dificuldade em relaxar. É relativamente comum alguém sentir que “não consegue desligar” nos primeiros dias.
No regresso ao trabalho acontece o inverso. Depois de um período de menor exigência e maior autonomia, voltam os horários rígidos, as responsabilidades, as deslocações, a pressão das tarefas e dos entregáveis. A readaptação poderá exigir alguns dias de ajustamento (o nosso cérebro funciona de forma analógica e não binária) com dificuldades de concentração e alguma labilidade emocional.
As rotinas reduzem a necessidade de decisão. Uma parte significativa da vida quotidiana é automatizada e os hábitos funcionam como atalhos cognitivos.
Durante as férias, esses padrões poderão desaparecer temporariamente. Podemos decidir todos os dias quando acordar, onde ir, quando comer, o que fazer, etc.
Isso poderá ser extremamente agradável, mas poderá significar também, mais novidade e mais decisões, em suma, mais esforço. Não raramente, há quem se queixe das férias pelo cansaço produzido!
Em síntese, o “problema” decorre mais da transição trabalho-férias-trabalho do que de qualquer uma das situações per se. Importará assim analisar o que fazer para tornar o regresso ao trabalho menos abrupto, mais aceitável e funcional. Algumas sugestões:
Preparar o regresso ao trabalho – evitar chegar de viagem de férias na véspera da retoma da actividade. O nosso cérebro necessita de tempo para se ajustar à mudança de contexto. É aconselhável um modus vivendi suave e descontraído, 1 ou 2 dias antes do recomeço.
Aceitar que o desempenho da 1ª semana pós-férias poderá ser menos eficaz do que habitualmente. As férias não produziram quaisquer “perdas” cognitivas, apenas colocaram mente e corpo num registo funcional diferente.
Evitar uma agenda “cheia” no 1º dia de actividade. O regresso ao trabalho deverá ser visto como se de um desporto se tratasse: o rendimento em campo requer um bom aquecimento e essa deverá ser uma das funções da 1ª semana – reactivar circuitos neuronais e retomar práticas e processos.
Para gestores e não-gestores, 2 heurísticas relevantes:
a) “O que é que as férias revelaram sobre a forma como estou/estamos a trabalhar?”
b) “Este modus operandi continua a fazer sentido ou está na hora de fazer algumas mudanças?”.
Manter o “perfume” das férias nas práticas de autocuidado e na separação entre tempo de trabalho e tempo de lazer. Monitorizar (e reduzir) o tempo gasto nas redes sociais e na consulta das notificações no telemóvel.
Há ainda quem viva no que designo de apneia existencial, para quem o trabalho faz jus ao seu étimo (tripalium[2]). Existir e saborear a vida acontece apenas, nas férias, nos feriados e fins-de-semana. O resto do tempo é aguentar, sofrer em surdina no trabalho e contar o tempo que falta até à próxima pausa. Esta atitude e comportamentos associados têm implicações psicossociais relevantes, em primeiro lugar para a saúde física e psicológica destes indivíduos, com efeito de contágio nos pares e subordinados.
Nunca vemos a realidade como ela é, mas como somos e estamos em cada momento. Esta perspectiva e significado atribuído ao trabalho como penitência, poderá ter um efeito corrosivo no engagement de pessoas e equipas e será alvo de uma reflexão mais detalhada num próximo artigo.
[1] O direito a férias pagas foi uma conquista social do séc. XX, nomeadamente, a partir dos anos 30. Em Portugal, a Constituição de 1976 consagrou o direito a férias periódicas pagas. Anteriormente, tirar férias significaria, na prática, ficar sem qualquer rendimento durante esse período!
[2] Instrumento de tortura utilizado na Roma Antiga composto por 3 varas de madeira.
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