Turistas americanos crescem no Norte e já lideram no Douro. “Ligações aéreas são um fator de sucesso”, diz Luís Pedro Martins
Em Julho, registaram-se menos 19,3 mil dormidas de residentes nos Estados Unidos face ao período homólogo em Portugal. A Grande Lisboa contribuiu de forma mais expressiva para este decréscimo (-16,9 mil dormidas; -6,0%), seguida pelo Algarve (-6,3 mil dormidas; -6,7%). Contudo existiu uma exceção à regra. A região Norte foi a única em Portugal Continental que registou um aumento de dormidas de turistas norte-americanos nesse mês, com mais 10,7 mil de dormidas do mercado norte-americano, um crescimento homólogo de 9,3%, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Em declarações ao Jornal Económico, Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TNPNP) explica que os números da região em relação ao mercado americano, devem-se a três fatores, sendo as ligações ao aeroporto Francisco Sá Carneiro “um fator crítico de sucesso”. “Sem elas era impossível termos estes números, nomeadamente no mercado de longa distância”.
Em relação à América do Norte, considera que foi muito importante a entrada em operação de companhias como a Air Canada, bem como os voos da TAP para os Estados Unidos, Newark, mas também uma ligação para Boston, que este ano deixou de ser um voo regular para ser anual. “Não é só a semestral, é agora uma rota diária”, diz, realçando que pela primeira vez a Delta Airlines voar do aeroporto JFK em Nova Iorque, para o Porto.
“Posso anunciar que em 2027 passamos a ter outra companhia americana, a American Airlines, a fazer a ligação Filadélfia – Porto e também a perspetiva de podermos vir a ter mais uma rota da TAP, entre Washington e o Porto”, salienta Luís Pedro Martins.
E se na região do Porto e Norte os americanos ainda ficam atrás dos turistas espanhóis, na zona do Douro, já são o número um. “É impressionante. Estamos a falar de um mercado de longa distância. Não chegam aqui com a mesma rapidez que o turista espanhol, francês ou inglês. Se este crescimento continuar, poderá acontecer algo incrível que é os americanos serem o número um da região”, refere o presidente da TNPNP.
Para este resultado contribuem os outros dois fatores. “No caso do Douro uma região muito rica em património cultural e natural e com um enoturismo de excelência”, sublinha. Já o outro fator prende-se com “as fortes ações de promoção externa” não só nos Estados Unidos e onde o Porto e Norte faz questão de levar consigo empresas e grupos privados da região.
“Sem elas não conseguimos concretizar os negócios. Temos estado por todo o lado. Washington, Nova Iorque, Chicago, Boston, Los Angeles, San Diego. O mesmo no Canadá que é um mercado que está a crescer bastante e fizemos as duas costas. Por um lado, em Montreal e Toronto, mas também Vancouver, Edmonton”, afirma.
Aeroporto de Lisboa? “Nem daqui a uma década. Tendência é para piorar”
A tempestade Kristin e os incêndios foram algumas das situações trágicas que atingiram o país entre 2025 e o presente ano. Tragédias que para o presidente do TNPNP têm sempre impacto, mas que apesar das imagens não ajudarem à imagem do país lá fora, “são cenários onde não podemos fazer nada”.
O caso muda de figura quando o tema é o funcionamento do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, com muitas notícias a circularem em canais televisivos dos Estados Unidos e em horário nobre. “Claro que isto prejudica. Um turista que vem de Nova Iorque não quer fazer uma viagem que demora 04h30 a 05h00 e depois passar o mesmo tempo dentro de um aeroporto”, realça. salientando que a “tendência é para piorar”.
“Porque de certeza absoluta que não vamos ter aeroporto [em Lisboa] nem daqui a uma década. Isto não é culpa de quem está neste momento a liderar o processo, é culpa de muitas gerações, de quem liderou. E as companhias aéreas também não gostam de prestar um mau serviço aos seus clientes, como é evidente”. sublinha.
Algo que contrasta com o crescimento das ligações aéreas do aeroporto Francisco Sá Carneiro, que tem sido exponencial ao longo das últimas três décadas. “Este aeroporto teve em 2025 um movimento de 17 milhões de passageiros está a crescer 7% em 2026. Há 30 anos o recorde eram 400 mil movimentos. Neste momento temos cerca de 130 rotas e mais de 30 companhias a operar”, diz Luís Pedro Martins.
Para além de um “aeroporto que funciona bem”, destaca a relação entre o Turismo do Porto e Norte, a ANA e o Turismo de Portugal na captação de rotas. “Esta região soube preparar-se em termos de infraestruturas, com um trabalho que está a ser feito desde há cinco anos de promoção externa e que agora está a trazer resultados”, dando como exemplo os 17 voos semanais para o hub de Istambul, só da Turkish Airlines.
“Investir fortemente na Ásia-Pacífico”
Com mercados que já estão a “tornar-se maduros e consolidados na região”, como os americanos, brasileiros, canadianos e também os mercados de proximidade como o espanhol, francês, alemão, Reino Unido, italiano, polaco, o Turismo do Porto e Norte, aponta agora baterias para o outro lado do mundo.
“Queremos passar a investir fortemente no mercado da Ásia-Pacífico, onde temos estado a apostar desde há cerca de dois anos, no Japão, Coreia do Sul, China. Temos também ações mais recentes no México e Argentina, são mercados muito importantes que nós valorizamos. A minha ideia é sempre o destino tornar-se o menos dependente possível de um, dois ou três mercados. Queremos ser sustentáveis e ter de facto uma paleta muito grande de mercados. E acho que é isso também que nos vai permitindo continuar a crescer”, explica.
“Porto e Norte não tem uma visão egoísta”
Em julho a região atingiu os 130,2 milhões de euros em proveitos totais, um aumento de 5,2% e com 1,08 milhões de dormidas de não residentes (+5.3%). Este valor é mais expressivo se olharmos aos dados desde o início do ano, que revelam proveitos totais de 659,5 milhões de euros, numa subida hómologa de 5,9% e com 5,4 milhões de dormidas de não residentes (+5.3%).
Luís Pedro Martins acredita que no final do ano a região do Porto e Norte vai poder dizer que continuou a ter números recorde no número de hóspedes, dormidas, mas acima de tudo, naquilo que mais interessa, os proveitos.
“Estamos a concretizar algo que era uma ambição, que é uma melhor distribuição de turistas por toda a região. O nosso objetivo é ter turistas em toda a região durante os 365 dias do ano. O Douro já está ganho e estamos agora a conseguir fazer o mesmo movimento em relação ao Minho e Trás-os-Montes”.
Uma estratégia que assume ser bastante importante porque, por um lado, nunca levará a situações de pressão turística naqueles que eram os centros turísticos mais conhecidos do território, ao mesmo tempo que dá a oportunidade a que toda a região beneficie desse crescimento.
“Eu sou dos que defendem que quanto maior for a relação e a complementaridade do trabalho entre as regiões, melhor serão os resultados. Se eu vender a um turista polaco ou até brasileiro, que venha pelo turismo religioso e disser que podem fazer Fátima, Braga e Santiago de Compostela, eu estou a aumentar o apetite pelo país. O Porto e Norte não tem uma visão egoísta. Antes pelo contrário, tem uma visão de que quanto mais juntas as regiões, mais complementares somos e maior interesse ganhamos”, conclui.
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