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Moçambique: investida em Niassa visa impacto económico e mediático, diz analista

Moçambique: investida em Niassa visa impacto económico e mediático, diz analista

O analista Peter Bofin considerou esta terça-feira, 8 de setembro, que o ataque insurgente que destruiu um acampamento turístico associado ao treinador luso-moçambicano Carlos Queiroz, na província de Niassa, norte de Moçambique, visou o reabastecimento logístico, impacto económico e propaganda internacional.
“Este tipo de ataque tem múltiplos objetivos. Em primeiro lugar, é uma forma de reabastecimento, alimentos, algumas armas e outro equipamento terão sido capturados. Pelo menos duas viaturas também foram levadas, apesar de posteriormente terem sido abandonadas”, explicou o analista sénior para a África Austral da organização Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) para a África Austral.
A análise surge após a incursão armada de quinta-feira à Coutada de Marangira, na Reserva Especial do Niassa, que provocou pelo menos um morto, a deslocação de 2.700 pessoas, além da destruição de infraestruturas turísticas e o rapto de 11 pessoas, segundo as autoridades moçambicanas.
De acordo com o especialista, o ataque teve igualmente como alvo um setor económico estratégico para a região, numa altura particularmente sensível para a atividade turística e cinegética.
“É um alvo económico significativo e atacá-lo enfraquece a perceção do controlo do Estado naquela parte do país. Para o setor do turismo de caça, acontece num momento particularmente desfavorável, em plena época de caça, que decorre entre julho e novembro em Niassa”, apontou.
O investigador acrescentou que operações deste tipo geram ainda elevada exposição mediática internacional, algo valorizado pelo grupo extremista: “Garante muita atenção internacional. Isso é particularmente valioso para o Estado Islâmico globalmente, que pode utilizar imagens recolhidas durante o ataque em futuros produtos de propaganda”, referiu.
Apesar da dimensão da incursão, Peter Bofin afastou a possibilidade de o episódio representar uma expansão sustentada da insurgência para Niassa.
“Este ataque é provavelmente uma ação isolada e não um sinal de que o Estado Islâmico em Moçambique esteja a estabelecer uma presença permanente na província”, afirmou.
Segundo o analista, embora o grupo disponha de redes de informação capazes de facilitar operações deste género, não possui os mecanismos de apoio logístico necessários para se instalar de forma duradoura na região.
“Não tem as redes de apoio necessárias para manter uma presença contínua, incluindo o fornecimento regular de abastecimentos. Além disso, as organizações de conservação e turismo dispõem de recursos significativos, incluindo pequenas aeronaves, helicópteros e equipas de fiscais, o que dificulta a movimentação dos insurgentes sem serem detetados”, explicou.
Bofin indicou ainda que o grupo responsável pelo ataque terá partido do distrito de Montepuez, na província de Cabo Delgado, rica em gás natural e alvo de uma insurgência armada desde 2017, acrescentando que as forças moçambicanas já tinham realizado operações consideradas bem-sucedidas naquela zona nas semanas anteriores.
“O grupo que atacou o acampamento atravessou Montepuez, onde foi intensamente perseguido pelo exército moçambicano. Chegou mesmo a ser impedido de entrar em Niassa por uma rota mais a norte”, disse.
Para o especialista, a operação demonstra, contudo, que os insurgentes continuam a conservar uma importante vantagem operacional nas zonas rurais do norte do país.
“A capacidade de um grupo de combatentes do Estado Islâmico em Moçambique de entrar em Niassa e realizar este ataque demonstra que a organização continua a ter uma vantagem em termos de mobilidade e manobra nas áreas rurais”, concluiu.
A província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada desde outubro de 2017, conflito que já provocou mais de 6.600 mortos e cerca de 1,2 milhão de deslocados. Desde 2025, têm sido registadas incursões esporádicas dos grupos armados nas províncias vizinhas de Niassa e Nampula.

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