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Negócio do vinho está a azedar no mundo

Negócio do vinho está a azedar no mundo

Nem Baco, o deus romano do vinho, teria hoje vontade de brindar. O negócio do vinho atravessa uma das fases mais difíceis das últimas décadas, com o consumo mundial a cair para o nível mais baixo dos últimos 60 anos, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). O excesso de oferta, a mudança dos hábitos de consumo e a instabilidade económica e geopolítica estão a pressionar preços e margens numa fileira que, em vários países, já começou a arrancar vinha para reduzir a produção.
França está a arrancar vinha, enquanto Alemanha e Áustria avançam com medidas de ajustamento. Austrália e Estados Unidos também estão a reduzir a capacidade produtiva. O problema é claro: há vinho a mais para um mundo que está a beber menos. Portugal não escapa à tendência, embora esteja a mostrar maior resistência do que outros produtores europeus. A produção nacional recupera este ano e a qualidade da uva é boa com bons níveis de açúcar, acidez e maturação,
A questão é saber se haverá mercado para essa produção. Portugal está exposto à evolução da procura internacional, já que cerca de metade do vinho produzido segue para mercados externos. A pressão sobre o consumo, a acumulação de existências e a descida dos preços chegam, por isso, às vinhas e às contas dos produtores.
Perante a pressão sobre a fileira, o Governo anunciou uma linha de crédito de 110 milhões de euros destinada a apoiar os compradores de uva, permitindo-lhes financiar a aquisição da produção aos viticultores. Foi também criado um apoio extraordinário de 12 milhões de euros para os produtores do Douro que não encontrem quem lhes receba a uva. A estas medidas soma-se a portaria publicada esta semana, com cinco milhões de euros para apoiar a reestruturação das vinhas afetadas pelas tempestades do início do ano.
Para a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), porém, a resposta não pode ficar concentrada no Douro nem limitar-se a medidas conjunturais. A organização defende que os apoios sejam alargados a todas as regiões vitivinícolas, argumentando que a quebra do consumo, a acumulação de existências, os custos de produção e a pressão sobre os preços são problemas comuns a toda a fileira.
“A solidariedade com o Douro é inequívoca. Saudamos as medidas anunciadas pelo Governo. O que a CAP não aceita é que essa solidariedade se traduza num esquecimento dos produtores das outras regiões”, afirma Luís Mira, secretário-geral da CAP. A confederação defende uma resposta pública “justa, coerente e nacional” e reclama medidas estruturais que permitam enfrentar a crise além do apoio imediato à tesouraria.
A CAP coloca também o foco no vinho espanhol a granel. Não questiona a livre circulação de mercadorias nem as importações legais, mas exige fiscalização, controlo e rastreabilidade integral do vinho que entra em Portugal, bem como informação inequívoca sobre a sua origem. A organização considera que a entrada de vinho a preços inferiores aos custos de produção nacionais agrava a pressão sobre os produtores portugueses e pode gerar situações de concorrência desleal.
Segundo a CAP, o problema é agravado pelo diferencial de apoios aos fatores de produção entre os dois países, com os agricultores espanhóis a beneficiarem, segundo a organização, de apoios mais de 30 vezes superiores aos concedidos em Portugal para energia, combustíveis, fertilizantes e outros custos.
Francisco Toscano Rico, presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), reconhece a pressão das importações sobre o mercado nacional e a necessidade de reforçar o controlo, mas sublinha, que “nos últimos dois anos entraram em Portugal cerca de 100 milhões de litros menos do que a média registada entre 2019 e 2023, enquanto os dados disponíveis até junho apontam para o nível mais baixo dos últimos sete anos.”
A resposta do IVV para esta questão passa pela criação de uma rastreabilidade digital de todos os vinhos comercializados no país, uma ferramenta que deverá permitir acompanhar o percurso desde a uva produzida em Portugal ou o vinho que entra pelas fronteiras até ao seu destino final. O sistema está a ser desenvolvido por determinação do ministro da Agricultura e deverá ficar disponível ainda este ano, recorrendo a sistemas de informação, inteligência artificial e interoperabilidade de dados com a Autoridade Tributária. O objetivo é reforçar a capacidade de fiscalização e garantir uma concorrência “sã e leal” entre os operadores, permitindo saber o que entra no mercado e para onde segue.
Toscano Rico destaca ainda a criação do Observatório da Vinha e do Vinho, destinado a reunir informação mais detalhada sobre a produção, o mercado, as entradas e as exportações.
A intenção é substituir decisões baseadas no “achómetro” por políticas públicas sustentadas em dados atuais e fiáveis, mas também dar às empresas informação para definirem melhor as suas estratégias.
A internacionalização é outra frente. O regime de apoio à promoção dos vinhos portugueses foi reformulado, com a taxa de financiamento público a passar de 50% para 60% e uma simplificação dos procedimentos.
Foi ainda criado um regime simplificado para pequenos projectos, numa tentativa de permitir que mais produtores e empresas tenham acesso aos apoios à promoção externa.
Portugal avançou na transparência do mercado interno. As regras de rotulagem introduzidas em 2024 passaram a exigir que os vinhos resultantes da mistura de vinho português com vinho de outros países da UE indiquem as diferentes proveniências, com maior destaque para essa informação. Segundo Toscano Rico, um ano depois da entrada em vigor das regras, as vendas destes vinhos de mistura tinham caído cerca de 20%, enquanto as de vinho 100% português recuavam apenas 2,5%.

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