Exclusivo com Ilídio Vieira Té: “Não haverá presidentes ocultos”
Entrou na política através do Partido da Renovação Social (PRS), começando pela Juventude, passando pela estrutura dos Quadros e chegando a ocupar posições de direção. Olhando para trás, alguma vez ambicionou liderar o PRS? E o que representou para si esse percurso dentro do partido?
Entrei na política não com a preocupação de ocupar uma determinada posição, mas com a convicção de que a política deve ser um instrumento de transformação da sociedade. O PRS foi a minha escola política. Foi ali que aprendi a ouvir, a trabalhar em equipa, a respeitar estruturas e a perceber que a legitimidade política se constrói pela proximidade com as pessoas e pelo serviço prestado ao país.
Naturalmente, qualquer militante que assume responsabilidades e progride dentro de uma organização política pode, em determinado momento, ser visto como potencial dirigente. Mas nunca fiz da liderança do PRS uma obsessão pessoal. Sempre considerei mais importante estar preparado para assumir responsabilidades quando elas surgissem. O que guardo desse percurso é sobretudo uma escola de vida, de disciplina política e de conhecimento profundo da realidade guineense.
O seu percurso político e institucional conheceu uma ascensão particularmente rápida. Como qualifica este percurso e o que considera ter sido determinante para chegar hoje a esta posição?
Não o considero propriamente um percurso rápido. Talvez tenha sido intenso. Cada responsabilidade que assumi trouxe consigo problemas muito concretos e a obrigação de apresentar resultados. Quando se trabalha no Tesouro, nas Finanças ou na chefia do Governo, deixa de haver espaço para discursos abstratos. Existem salários para pagar, receitas para mobilizar, dívida para gerir, compromissos internacionais para honrar e serviços públicos que precisam de funcionar. Se alguma coisa foi determinante no meu percurso, diria que foi uma combinação de preparação, capacidade de trabalho, disciplina e sentido de responsabilidade. Não considero o cargo de Primeiro-Ministro uma recompensa. Considero-o uma responsabilidade extraordinariamente pesada perante o povo guineense.
De que forma a sua formação em Direito Público e em Direitos Humanos e Desenvolvimento Humano influencia a sua visão sobre o exercício do poder?
Influenciou profundamente. O Direito Público ensina-nos que o poder não pertence a quem o exerce. O poder pertence ao Estado e deve ser exercido dentro da lei, com limites, responsabilidade e mecanismos de fiscalização.
Os Direitos Humanos e o Desenvolvimento Humano ensinaram-me igualmente que uma economia não pode ser avaliada apenas pelo crescimento do PIB ou pelo equilíbrio das contas públicas. Desenvolvimento significa uma criança poder frequentar uma boa escola, uma mulher conseguir assistência médica adequada, um jovem encontrar emprego, uma família ter eletricidade e água, e um cidadão poder relacionar-se com o Estado sem depender de favores. Por isso, para mim, estabilidade macroeconómica e justiça social não são objetivos contraditórios. São duas dimensões do mesmo processo de desenvolvimento.
Em novembro de 2025, na sequência da rutura da ordem constitucional, aceitou assumir a chefia do Governo. O que o levou a aceitar administrar o país num contexto tão complexo?
Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida política. Sabia perfeitamente em que circunstâncias estava a assumir responsabilidades. Mas também sabia que, independentemente da crise política existente, o Estado não podia parar. Os hospitais tinham de continuar a funcionar. Os professores, médicos, funcionários públicos e forças de segurança tinham de receber os seus salários. O país tinha compromissos financeiros internacionais. Era necessário preservar a relação com os parceiros externos e, sobretudo, impedir que uma crise política se transformasse numa crise económica e social muito mais grave. Aceitei, portanto, não para eternizar uma situação de exceção, mas para contribuir para que o Estado continuasse de pé e para criar condições que permitissem ao país regressar à normalidade institucional através das eleições. A transição só tem sentido se conduzir ao retorno da plena legitimidade democrática.
O seu percurso político ficou, durante algum tempo, associado à proximidade com o ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló, sendo apontado como uma das figuras da sua confiança. Na sequência da mudança política de novembro de 2025, que marcou uma nova fase no país, como ficou essa relação?
Nunca tive necessidade de negar aquilo que faz parte do meu percurso político. Trabalhei com o Presidente Úmaro Sissoco Embaló, integrei governos durante a sua Presidência, exerci a responsabilidade de Ministro das Finanças e participei ativamente num projeto político no qual, naquele momento, acreditava. Existiu confiança política e institucional entre nós e não considero sério tentar reescrever hoje essa parte da história apenas porque as circunstâncias políticas mudaram. Mas uma coisa é reconhecer o passado; outra, completamente diferente, é permanecer politicamente subordinado ao passado. Os acontecimentos de novembro de 2025 abriram uma nova realidade institucional na Guiné-Bissau. Quando aceitei assumir a chefia do Governo de Transição, passei a exercer uma responsabilidade perante o Estado, as instituições da transição e, acima de tudo, perante o povo guineense. Essa responsabilidade não pode estar subordinada a qualquer antigo Presidente, partido, grupo político ou relação pessoal.
Que vínculo mantém hoje com o antigo Presidente e que significado político atribui a essa relação no atual contexto?
Com o Presidente Umaro Sissoco Embaló mantenho o respeito que deve existir entre pessoas que trabalharam juntas e partilharam responsabilidades de Estado. Isso não significa tutela política, dependência ou obrigação de concordância.
Na política é importante sabermos distinguir amizade, respeito e memória de percurso da autonomia necessária para tomar decisões.
Hoje, as minhas decisões enquanto Primeiro-Ministro são determinadas por aquilo que considero ser o interesse da Guiné-Bissau e pelas obrigações que assumi perante o país. A experiência que tive ao lado do antigo Presidente faz parte da minha história. Mas o futuro político de Ilídio Vieira Té não pode ser uma extensão do passado político de outra pessoa. Cada dirigente deve responder pelas suas escolhas, pelo seu projeto e pelos seus atos.
Tinha consciência de que estava a entrar num dos períodos mais delicados da história política recente da Guiné-Bissau? Qual foi o maior risco que identificou?
Tinha plena consciência. O maior risco era que uma situação inicialmente concebida como excecional pudesse transformar-se numa normalidade política. Uma transição deve ter objetivos, calendário e fim. Quando uma transição perde o horizonte eleitoral, começa a perder igualmente a sua legitimidade perante os cidadãos.Havia também o risco económico: fuga do investimento, redução do apoio internacional, dificuldade de financiamento do Estado e quebra da confiança dos agentes económicos. Por isso, desde o primeiro momento, uma das prioridades foi preservar simultaneamente a estabilidade institucional, económica e social e manter o país orientado para o calendário eleitoral.
Hoje, qual considera ser a maior adversidade que enfrenta?
Provavelmente a combinação entre a fragilidade das instituições e a enorme expectativa da população. O cidadão não quer saber se um problema resulta de uma limitação administrativa acumulada ao longo de vinte anos. Ele quer uma solução hoje e tem legitimidade para exigir resultados. Temos, portanto, de governar um Estado com limitações financeiras e institucionais enquanto tentamos responder a necessidades sociais enormes. A dificuldade é precisamente essa: reformar, investir e produzir resultados ao mesmo tempo.
A acumulação da chefia do Governo com a pasta das Finanças permite maior coordenação ou representa uma concentração excessiva de responsabilidades?
É uma acumulação excecional num período igualmente excecional. Do ponto de vista da coordenação, permite acompanhar diretamente a execução das decisões do Governo e assegurar maior coerência entre aquilo que os ministérios pretendem fazer e aquilo que o Estado pode efetivamente financiar. Mas tenho perfeita consciência de que não pode significar ausência de controlo institucional.
O Ministério das Finanças tem estruturas próprias, existem mecanismos administrativos de fiscalização e toda a ação governativa deve permanecer sujeita à legalidade e às instituições de controlo. A concentração funcional nunca pode significar concentração arbitrária do poder.
Qual é, neste momento, o verdadeiro estado da economia guineense?
A economia está hoje mais organizada e apresenta sinais importantes de resiliência, mas seria irresponsável afirmar que os problemas estruturais desapareceram. Temos conseguido reforçar a disciplina orçamental, melhorar a gestão da tesouraria, controlar melhor determinadas despesas e recuperar credibilidade junto dos nossos parceiros económicos e financeiros.
Mas continuamos com uma base fiscal reduzida, dívida pública elevada, grande informalidade económica, baixa produtividade e forte exposição às oscilações da campanha da castanha de caju. Portanto, a minha leitura é simples: progredimos na estabilidade, mas ainda temos muito trabalho a fazer na transformação estrutural da economia. Estabilizar é uma condição necessária. Desenvolver é o verdadeiro objetivo.
Quais são os três grandes problemas económicos que condicionam o desenvolvimento da Guiné-Bissau?
Colocaria três questões no centro. Primeiro, a reduzida diversificação da economia e a consequente dependência de um número muito limitado de produtos de exportação. Segundo, a fragilidade da capacidade produtiva nacional, incluindo as dificuldades de financiamento das empresas, a baixa transformação industrial e as limitações do capital humano. Terceiro, a capacidade institucional do Estado: administração fiscal, justiça económica, segurança jurídica, eficiência administrativa e execução dos investimentos. Resolver esses três problemas permitiria alterar profundamente a trajetória económica do país.
É possível construir uma economia sustentável mantendo a dependência da castanha de caju?
Não devemos abandonar o caju. Devemos deixar de depender exclusivamente dele. O problema não é termos caju. O problema é exportarmos demasiada riqueza em estado bruto e importarmos depois produtos transformados. Temos de subir na cadeia de valor: transformação local, embalagem, certificação, comercialização internacional e desenvolvimento de indústrias associadas. Ao mesmo tempo, precisamos desenvolver arroz, horticultura, frutas tropicais, pecuária, pescas, turismo e outras atividades. Diversificação não significa destruir aquilo que temos. Significa multiplicar as nossas fontes de riqueza.
Que sectores têm maior potencial para transformar a economia nos próximos dez anos?
Eu não escolheria apenas um porque estas áreas são complementares. A agricultura e a agroindústria são fundamentais porque envolvem uma parte significativa da nossa população. As pescas e a economia azul representam uma enorme riqueza ainda insuficientemente aproveitada. O turismo, particularmente o turismo ecológico e o potencial extraordinário do Arquipélago dos Bijagós, pode tornar-se uma importante fonte de receitas e emprego. A energia e as infraestruturas são condições para que os outros setores possam desenvolver-se.
E a economia digital permitirá à Guiné-Bissau ultrapassar determinadas limitações históricas, modernizar a Administração Pública, reduzir custos de contexto e criar oportunidades para uma geração jovem. A transformação económica resultará da ligação entre estes setores.
O que precisa de mudar para que investidores nacionais e estrangeiros tenham confiança para investir no país?
O investidor procura essencialmente previsibilidade. Precisa saber quais são as regras, quanto tempo demora uma licença, como funciona a fiscalidade, se um contrato será respeitado e se pode recorrer a um tribunal quando surgir um conflito. Por isso precisamos continuar a simplificar procedimentos administrativos, digitalizar serviços, modernizar as Alfândegas, fortalecer a justiça económica, melhorar o acesso à energia, desenvolver infraestruturas e tornar o sistema tributário mais previsível. Mas existe ainda uma dimensão essencial: temos de proteger tanto o investidor estrangeiro como o empresário nacional. Não haverá desenvolvimento sustentável sem um setor privado guineense forte.
Como transformar crescimento económico em melhoria efetiva das condições de vida?
Essa é talvez a questão económica mais importante. Um país pode apresentar bons indicadores macroeconómicos e continuar a ter famílias pobres. Se isso acontecer, o desenvolvimento não chegou às pessoas. Por isso procuramos direcionar recursos para infraestruturas, educação, saúde, energia, água, agricultura e apoio à atividade produtiva. Precisamos igualmente de transformar investimento público em emprego e criar condições para que pequenas e médias empresas cresçam. O nosso objetivo não pode ser simplesmente aumentar o PIB. Tem de ser aumentar o rendimento das famílias e melhorar a qualidade dos serviços que recebem do Estado.
Qual é hoje a sua maior preocupação enquanto responsável pelas Finanças?
Todas as questões que referiu estão interligadas. Mas, se tivesse de escolher uma prioridade estrutural, escolheria a mobilização sustentável das receitas internas. Um Estado que depende excessivamente do financiamento externo tem uma capacidade reduzida de definir autonomamente as suas prioridades. Aumentar as receitas não significa simplesmente aumentar impostos. Significa ampliar a base tributária, reduzir a fraude e a evasão, combater privilégios injustificados, digitalizar a cobrança e tornar o sistema mais justo.
Quanto melhor mobilizarmos os nossos próprios recursos, maior será a nossa capacidade de financiar educação, saúde, infraestruturas e proteção social e, simultaneamente, controlar a dívida.
Está disposto a assumir medidas economicamente necessárias mesmo quando possam ter custos políticos?
Governar implica decidir. Se todas as decisões fossem populares, governar seria muito fácil. Mas existe igualmente uma diferença entre responsabilidade orçamental e austeridade cega. Não acredito que se devam equilibrar as contas públicas sacrificando os mais vulneráveis.
Quando uma reforma difícil é necessária, deve ser explicada, implementada gradualmente quando possível e acompanhada por mecanismos de proteção social. Prefiro pagar um preço político por uma decisão necessária e responsável do que deixar às gerações futuras uma fatura resultante da nossa falta de coragem.
Que política concreta pretende deixar como legado para os jovens guineenses?
Gostaria de contribuir para mudar uma ideia profundamente enraizada: a de que o principal horizonte profissional de um jovem é conseguir um emprego no Estado. Precisamos transformar a juventude em criadora de riqueza. Isso passa pela formação técnico-profissional ligada às necessidades reais da economia, pelo ensino tecnológico, pelo apoio ao empreendedorismo, pelo acesso ao crédito e por instrumentos de garantia para projetos empresariais viáveis. Precisamos preparar jovens para agricultura moderna, transformação alimentar, construção, turismo, energias renováveis, telecomunicações e economia digital. O maior programa de juventude que um Governo pode criar chama-se oportunidade.
É possível reformar a Administração Pública e responder simultaneamente às expectativas dos funcionários?
Não só é possível como é indispensável. Reformar o Estado não significa perseguir funcionários públicos ou reduzir arbitrariamente postos de trabalho. Significa saber quem trabalha, onde trabalha, com que função e com que resultados. Precisamos de cadastro rigoroso dos funcionários, digitalização dos processos, carreiras transparentes, formação contínua, avaliação, mobilidade e valorização do mérito. O funcionário público deve receber aquilo a que tem direito, mas o cidadão também tem direito a receber dele um serviço eficiente. É esse o novo contrato que precisamos construir.
Qual é o maior défice da Guiné-Bissau: dinheiro, recursos humanos ou instituições?
Diria que o maior défice é capacidade institucional. Podemos conseguir financiamento. Podemos formar quadros. Podemos receber apoio dos nossos parceiros. Mas, se não existirem instituições capazes de planear, executar, fiscalizar e garantir continuidade às políticas públicas, uma parte desses recursos será desperdiçada. Os países desenvolvem-se quando as instituições sobrevivem às mudanças de governos e às mudanças de dirigentes. É essa cultura institucional que precisamos consolidar.
Por que considera que o reforço das competências presidenciais é mais adequado à realidade política guineense?
A experiência guineense demonstrou repetidamente os problemas resultantes de uma arquitetura institucional em que a fronteira entre as competências do Presidente da República, do Governo e do Parlamento nem sempre era suficientemente clara. Muitas das nossas crises nasceram ou foram agravadas por conflitos de legitimidade e interpretação entre instituições. O objetivo deve ser clarificar responsabilidades. Se o Presidente dispõe de determinadas competências, deve igualmente responder politicamente pelo exercício dessas competências. O mesmo se aplica ao Governo e ao Parlamento. Uma Constituição eficaz não deve produzir vários centros concorrentes de poder executivo. Deve criar clareza institucional e responsabilização.
Onde coloca o equilíbrio entre autoridade presidencial e mecanismos de controlo democrático?
Nenhum sistema democrático pode funcionar apenas com autoridade. Autoridade sem controlo pode transformar-se em arbitrariedade; controlo sem capacidade de decisão pode transformar-se em paralisia. O equilíbrio exige instituições fortes: Parlamento, tribunais independentes, administração eleitoral credível, comunicação social livre, sociedade civil vigilante e eleições regulares. Uma Presidência forte não deve significar uma democracia fraca. Pelo contrário: quanto maiores forem as competências atribuídas a uma instituição, maior deve ser a responsabilidade no exercício dessas competências.
O problema da Guiné-Bissau está na Constituição ou na cultura política?
Muito mais na cultura política. Nenhuma Constituição consegue impedir a instabilidade se aqueles que exercem o poder não respeitarem as suas regras. Podemos escrever a melhor Constituição do mundo. Se continuarmos a transformar adversários em inimigos, instituições em instrumentos partidários e divergências políticas em crises de Estado, continuaremos a ter problemas.
A nova Constituição pode melhorar a arquitetura institucional. Mas a verdadeira reforma terá de acontecer no comportamento dos atores políticos. A democracia também é uma cultura.
A redução dos deputados e a alteração das circunscrições produzirão uma nova cultura política?
Por si só, não. Nenhuma engenharia eleitoral substitui uma mudança de comportamento. Podemos reduzir deputados, reorganizar círculos eleitorais e reformar instituições, mas precisamos igualmente de melhorar a democracia interna dos partidos, a qualidade da representação política, a participação das mulheres e dos jovens e a prestação de contas dos eleitos. Mudar as regras pode criar melhores condições. Mudar as práticas é o que transforma efetivamente a política.
Qual é a essência do Partido Popular Guineense e que problema pretende resolver?
O PPG nasce de uma reflexão sobre aquilo que a Guiné-Bissau precisa para entrar numa nova etapa. Não pretendemos criar simplesmente mais uma sigla. Queremos construir um espaço político baseado na competência, responsabilidade, proximidade com os cidadãos, justiça social, modernização económica e patriotismo. A política guineense precisa deixar de ser permanentemente organizada em torno de conflitos entre pessoas. O debate deve passar a ser sobre educação, agricultura, emprego, saúde, energia, estradas, transformação digital e capacidade do Estado. É para essa mudança de paradigma que o PPG pretende contribuir.
Com dezenas de partidos existentes, o que distingue o PPG?
Um partido não se distingue apenas pelo nome ou pela cor da sua bandeira. Será distinguido pela sua organização, pelo comportamento dos seus dirigentes e pelas soluções que apresentar. Queremos construir um partido aberto à sociedade, aos jovens, às mulheres, aos quadros, aos agricultores, aos trabalhadores, aos empresários e à diáspora. Não pretendemos ser um partido de ressentimento nem um partido construído contra alguém. Pretendemos ser um partido orientado para um projeto de país.
Como responde à acusação de poder utilizar o cargo de Primeiro-Ministro para construir uma estrutura partidária?
Essa preocupação é legítima e deve ser respondida com regras claras. O Estado é do povo guineense. Não pertence ao Primeiro-Ministro, ao Governo nem ao PPG. Os recursos públicos, os funcionários, os veículos do Estado e os atos oficiais não podem ser transformados em instrumentos partidários. Enquanto exercer funções de Primeiro-Ministro, manterei uma separação rigorosa entre responsabilidades governamentais e atividade partidária. E estou disponível para ser escrutinado por isso. Quem pretende construir um novo projeto político deve começar por demonstrar uma nova ética política.
O PPG pretende ser uma alternativa aos partidos tradicionais ou uma plataforma de diferentes sensibilidades?
As duas coisas não são incompatíveis. Pretendemos constituir uma alternativa na forma de fazer política e, ao mesmo tempo, criar uma plataforma capaz de acolher guineenses provenientes de diferentes experiências políticas. Não perguntaremos a alguém apenas de que partido veio. Perguntaremos sobretudo que país quer ajudar a construir. Naturalmente, existem princípios e valores fundamentais que terão de ser partilhados. Mas a Guiné-Bissau precisa hoje de agregar competências e não de multiplicar divisões.
Que diferenças existem entre o jovem político que entrou no PRS e o dirigente que hoje apresenta um novo projeto?
Os valores fundamentais continuam os mesmos. O que mudou foi a experiência. Hoje conheço melhor as limitações do Estado, a complexidade das relações internacionais, a importância da estabilidade macroeconómica e o enorme impacto que uma decisão governamental pode ter sobre milhares de famílias. A experiência também nos ensina que é muito mais fácil criticar do que governar. O jovem que entrou no PRS queria mudar o país. O dirigente que sou hoje continua a querer mudar o país, mas compreende muito melhor a responsabilidade, o método e as instituições necessárias para o fazer.
Ilídio Vieira Té está a preparar-se para ser candidato à Presidência da República?
A criação do PPG não deve ser reduzida à candidatura de uma pessoa. Um partido sério tem de ser maior do que o seu fundador ou dirigente.
Não escondo a minha disponibilidade permanente para servir a Guiné-Bissau onde considerar que posso ser útil. Mas uma candidatura presidencial é uma decisão demasiado importante para ser tratada como ambição pessoal ou anunciada através de especulações.
Quando existir uma decisão formal, será tomada de forma transparente, no quadro das instituições partidárias e das leis da República.
Neste momento, a minha primeira responsabilidade chama-se Governo da Guiné-Bissau e conclusão responsável da transição.
Se a resposta for sim, quando tomou essa decisão?
Não existe, portanto, uma cronologia de candidatura que eu possa apresentar. O PPG nasceu de uma análise sobre o futuro político do país e não como instrumento destinado exclusivamente a sustentar uma candidatura presidencial. As decisões eleitorais serão tomadas no momento próprio. Primeiro construímos uma visão e uma organização. Depois discutiremos democraticamente quem deve representar esse projeto nas diferentes eleições.
Como pretende impedir que o exercício das funções de Estado seja confundido com uma pré-campanha?
Com disciplina institucional. Quando estiver a atuar como Primeiro-Ministro, representarei todos os guineenses, incluindo aqueles que nunca votarão no meu partido. Um governante não pode condicionar um investimento público, uma nomeação administrativa, um programa social ou uma decisão do Estado à filiação partidária de um cidadão. A melhor maneira de combater essa suspeita é pela transparência dos atos. O Governo deve governar. O partido deve fazer política através das suas próprias estruturas e dos seus próprios recursos.
Que eleições espera que a Guiné-Bissau tenha em dezembro?
Espero eleições pacíficas, competitivas, inclusivas, transparentes e credíveis. Depois de tudo aquilo que o país viveu, as eleições de dezembro não serão apenas uma escolha entre candidatos e partidos. Serão também um teste à maturidade das nossas instituições e à capacidade dos guineenses de resolverem as suas diferenças através do voto. A transição deve terminar numa urna e não numa nova crise. Esse deve ser um compromisso de todos.
O que terá de acontecer para que o escrutínio seja considerado livre, transparente e credível?
Precisamos de uma administração eleitoral tecnicamente preparada e independente, de um processo transparente, de igualdade de tratamento dos concorrentes, liberdade de campanha, acesso equilibrado aos meios de comunicação e neutralidade das instituições do Estado. Precisamos igualmente de observação nacional e internacional e de mecanismos eficazes para resolver eventuais contenciosos eleitorais. Mas existe ainda outra condição: os atores políticos devem estar preparados para respeitar as regras e aceitar os resultados quando estes forem legal e transparentemente estabelecidos. A credibilidade de uma eleição não depende apenas da CNE. Depende de todos nós.
Que perfil deve ter o próximo Presidente da República?
As novas competências tornam ainda mais importante o perfil do próximo Presidente.
Deve ser alguém com grande sentido de Estado, capacidade de diálogo, serenidade, cultura constitucional e compreensão das questões económicas e sociais. Quanto maior for o poder constitucional, maior deve ser a capacidade de autocontenção. A Guiné-Bissau não precisa de um Presidente para uma parte do país. Precisa de um Presidente da República, capaz de governar com aqueles que o apoiaram e de respeitar aqueles que votaram contra ele. O Presidente deve ser o primeiro garante da unidade nacional.
Estamos perante uma verdadeira mudança do xadrez político ou apenas nova configuração das mesmas forças?
Isso dependerá muito mais das práticas do que das siglas. Trocar nomes de partidos e manter os mesmos comportamentos não é mudança política. A verdadeira renovação acontecerá quando discutirmos projetos em vez de pessoas; quando os jovens e as mulheres tiverem maior espaço de decisão; quando mérito e competência pesarem mais do que relações pessoais; e quando a política deixar de ser vista como o principal caminho para o enriquecimento ou o acesso ao Estado. O PPG quer participar nessa transformação. Mas nenhuma força política conseguirá fazê-la sozinha.
Ilídio Vieira Té quer ser lembrado como o Primeiro-Ministro da transição ou como o político que ajudou a inaugurar um novo ciclo?
Sabe, a minha Guiné-Bissau necessita de respirar diariamente paz e estabilidade. Assim sendo, gostaria que essas duas coisas não fossem contraditórias.
Se conseguirmos concluir esta transição com paz, estabilidade, contas públicas mais organizadas, instituições funcionais e eleições credíveis, já teremos prestado um importante serviço à Guiné-Bissau.
Mas naturalmente ambiciono mais para o meu país. Gostaria de fazer parte de uma geração que consiga finalmente transformar estabilidade política em desenvolvimento económico e desenvolvimento económico em dignidade para os cidadãos.
Não quero que a Guiné-Bissau seja eternamente apresentada ao mundo através das suas crises. Quero um país conhecido pelas suas oportunidades, pela sua juventude, pela sua cultura, pelos seus recursos e pela capacidade do seu povo.
Se um dia tiver de resumir aquilo que procurei fazer na vida pública, gostaria que fosse numa frase muito simples: ajudar a Guiné-Bissau a passar da gestão permanente das crises para a construção permanente do futuro.
Há quem diga, nos bastidores, que Úmaro Sissoco Embaló está por detrás da criação do Partido Popular Guineense (PPG). É apenas especulação política ou existe uma parte dessa história que ainda não é conhecida publicamente? Devemos esperar Úmaro Sissoco Embaló no PPG ou, em alternativa, poderemos assistir à integração do PPG em alguma das plataformas políticas que apoiam o ex-Presidente?
Compreendo que essa especulação exista, precisamente porque houve uma relação política conhecida entre mim e o antigo Presidente Úmaro Sissoco Embaló. Mas proximidade política passada não significa propriedade política presente.
O Partido Popular Guineense não foi criado para servir de instrumento a ninguém nem para funcionar como extensão, substituto ou plataforma de qualquer .O PPG nasce de uma reflexão que eu próprio, juntamente com muitos outros guineenses, venho fazendo sobre a necessidade de renovar a forma de organizar e exercer a política na Guiné-Bissau.
Não faria sentido defender uma nova cultura política e começar precisamente por criar um partido cuja verdadeira direção estivesse escondida do conhecimento dos cidadãos. Um partido que pretende merecer a confiança dos guineenses deve dizer claramente quem são os seus dirigentes, quais são as suas ideias, quem toma as decisões e perante quem responde. No PPG não haverá presidentes ocultos nem centros de decisão paralelos.
Quanto ao antigo Presidente Úmaro Sissoco Embaló, não me cabe decidir hoje qual será o seu futuro político. Essa decisão pertence-lhe.
O PPG é um partido aberto aos cidadãos que se identifiquem com os seus princípios, respeitem os seus Estatutos e aceitem democraticamente as decisões dos seus órgãos. Isso vale para qualquer cidadão, independentemente da posição que tenha ocupado anteriormente. Mas abertura não significa subordinação. Também não estamos a criar o PPG com o objetivo previamente definido de o integrar numa plataforma política destinada a apoiar esta ou aquela personalidade. O PPG deve construir a sua própria identidade, apresentar o seu programa ao país e estabelecer alianças, quando necessárias, com base em princípios, programas e interesses nacionais — e não em fidelidades pessoais. A política guineense já sofreu demasiado com a personalização excessiva do poder. Se queremos inaugurar um novo ciclo, devemos começar precisamente por demonstrar que os partidos não pertencem a pessoas; pertencem aos seus militantes e devem servir o país. Portanto, não existe qualquer “história secreta” que transforme o PPG num projeto de compromissos.
O PPG assumirá as suas decisões publicamente e responderá politicamente por elas. Eu respondo pelo PPG. Úmaro Sissoco Embaló responderá pelas opções políticas que entender tomar. E será o povo guineense, através do voto, a decidir o futuro de todos nós.
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