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Economia Quântica. Quando a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser infraestrutura económica (Parte II)

Economia Quântica. Quando a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser infraestrutura económica (Parte II)

Na primeira parte deste ensaio procurei responder a uma pergunta essencial: que economia emerge quando a tecnologia começa a alterar as próprias relações entre trabalho, produção, inteligência, escala, escassez e valor?
Compreender essas novas relações é apenas metade do problema. A outra metade consiste em perceber o que as torna possíveis.
Durante grande parte da história económica, as revoluções tecnológicas foram associadas a uma tecnologia dominante. A máquina a vapor transformou a produção industrial. A eletricidade transformou fábricas e cidades. O computador iniciou a digitalização. A internet criou uma infraestrutura global de comunicação e transação.
Aquilo que agora está a acontecer é diferente.
Não existe uma única tecnologia responsável pela transformação. Existe uma convergência tecnológica, onde cada capacidade amplifica as restantes.
A Inteligência Artificial aumenta a capacidade de interpretar, criar e decidir. A robótica transporta progressivamente essa inteligência para o mundo físico. A cloud e a conectividade tornam estas capacidades acessíveis praticamente em qualquer lugar. A biotecnologia aplica computação e inteligência à própria vida. Os materiais avançados permitem construir sistemas antes impossíveis. E as tecnologias quânticas começam a expandir as fronteiras daquilo que conseguimos calcular, medir e proteger.
Isoladamente, cada uma destas áreas já seria transformadora.
Em conjunto, produzem um efeito multiplicador de carácter exponencial.
É precisamente esta convergência que está no centro da Economia Quântica. Não porque todas as empresas venham a utilizar computadores quânticos, mas porque a interação entre diferentes infraestruturas tecnológicas começa a alterar a velocidade e a própria natureza da criação de valor.
A Inteligência Artificial é hoje a manifestação mais visível. Durante décadas, o software executou essencialmente instruções humanas. A IA começa a analisar informações, gerar soluções, recomendar decisões e executar tarefas cognitivas.
A cloud tornou essa inteligência distribuível. Uma empresa já não necessita de possuir toda a capacidade computacional que utiliza. Da mesma forma, começa a poder consumir inteligência como serviço, aumentá-la quando necessário e reduzi-la quando deixa de fazer sentido.
A robótica acrescenta a dimensão física. Quando um agente de IA interpreta uma necessidade, decide uma ação e comunica essa decisão a um sistema robótico capaz de a executar, a fronteira tradicional entre software e trabalho começa a desaparecer.
Mas existe uma quarta camada: o quantum.
A computação quântica não será simplesmente um computador mais rápido nem substituirá a computação clássica. O seu valor estará em classes específicas de problemas cuja complexidade desafia os sistemas atuais: otimização, simulação molecular, descoberta de materiais, determinados modelos financeiros ou criptografia.
A cloud transformou a forma como consumimos computação. A Inteligência Artificial está a transformar a forma como consumimos inteligência.
O quantum poderá transformar aquilo que conseguimos calcular
E fá-lo-á provavelmente através de arquiteturas híbridas. Sistemas clássicos continuarão responsáveis pelos dados, pela integração e pelos processos operacionais, enquanto processadores quânticos poderão atuar como aceleradores especializados em determinados problemas.
Mas o quantum não é apenas computação. Sensores quânticos poderão introduzir novos níveis de precisão na saúde, energia, navegação ou geologia. As comunicações quânticas poderão criar novas formas de proteção de informação.
A futura infraestrutura económica poderá, portanto, ser simultaneamente mais inteligente, calcular melhor, medir com maior precisão e comunicar de forma diferente.
O verdadeiro valor surge quando estas capacidades convergem.
Na descoberta de um medicamento, por exemplo, a IA pode identificar padrões em grandes volumes de informação biomédica; a computação quântica poderá ajudar a simular determinadas interações moleculares; a biotecnologia transforma conhecimento em terapias; e a automação acelera a experimentação e a produção.
O valor não resulta de uma tecnologia isolada.
Resulta do sistema.
E esta convergência tem outra consequência económica: comprime o tempo entre a descoberta e a aplicação. O que anteriormente podia exigir décadas entre a investigação e a comercialização pode, em determinadas áreas, ocorrer em ciclos progressivamente mais curtos.
Mas a convergência também multiplica as dependências.
Um sistema de IA depende de dados, semicondutores, energia e cloud. Um sistema quântico depende de hardware especializado, de fotónica ou de criogenia, de software, de talento e de cadeias globais de fornecimento. Um sistema autónomo poderá depender simultaneamente de conectividade, IA, sensores e infraestrutura física.
A tecnologia deixa, assim, de ser apenas uma fonte de produtividade.
Passa a ser infraestrutura económica crítica
E infraestrutura significa poder.
Quem controla os semicondutores? A capacidade computacional? Os grandes modelos de IA? A energia necessária para os executar? Os standards? As cadeias de fornecimento?
Estas perguntas já não pertencem apenas aos departamentos tecnológicos. Pertencem aos Conselhos de Administração, aos governos e à geopolítica.
É por isso que os Estados Unidos, a China e a União Europeia tratam hoje os semicondutores, a IA e as tecnologias quânticas como questões de soberania.
Na Economia Quântica, a infraestrutura tecnológica e a soberania económica tornam-se progressivamente inseparáveis.
A segurança demonstra bem esta realidade. Um computador quântico suficientemente desenvolvido poderá comprometer parte da criptografia de chave pública que atualmente protege a economia digital. Dados roubados hoje poderão ser armazenados e, potencialmente, decifrados no futuro, o chamado “harvest now, decrypt later”.
Uma tecnologia futura cria, assim, um risco presente.
Isto significa que preparação quântica não é esperar pela maturidade tecnológica. É desenvolver hoje a capacidade de agir quando ela chegar: compreender riscos, identificar oportunidades, experimentar, criar competências e estabelecer alianças.
Esta lógica traduz-se em quatro dimensões: consciência, avaliação, adoção e alianças.
A ideia essencial é simples: prontidão não significa possuir a tecnologia. Significa ter a capacidade de decidir sobre ela.
É também por isso que a liderança muda.
Um CEO não necessita de compreender a física de um qubit, tal como não precisa de saber treinar um modelo de IA. Mas precisa de compreender suficientemente estas tecnologias para perceber onde podem alterar a economia do seu negócio, que capacidades devem permanecer internas, onde estão as dependências críticas e quais as decisões que já não podem ser delegadas exclusivamente à área tecnológica.
Quanto mais a tecnologia se transforma na infraestrutura que cria valor, mais se transforma numa decisão de gestão.
Existe, finalmente, uma dimensão de responsabilidade.
A mesma convergência que pode aumentar a produtividade, acelerar a descoberta e criar abundância também pode concentrar poder, aprofundar desigualdades e gerar novas dependências.
A tecnologia não resolverá esta tensão.
A governação terá de o fazer.
A Economia Quântica exige, por isso, não apenas inovação, mas também transformação responsável: perguntar não apenas o que é possível construir, mas também quem beneficia, quem assume o risco e que valores queremos integrar nesses sistemas.
Na primeira parte deste ensaio argumentei que algumas relações económicas historicamente estáveis começam a tornar-se menos lineares.
Nesta segunda, a causa torna-se mais clara.
Não existe uma tecnologia responsável por esta transformação. Existe uma infraestrutura convergente de inteligência, computação, robótica, conectividade, biotecnologia, materiais avançados e quantum que começa a ampliar, simultaneamente, aquilo que conseguimos analisar, decidir, produzir, medir e descobrir.
A Economia Quântica não chegará num determinado dia.
Está já a formar-se à medida que estas tecnologias convergem e alteram progressivamente a forma como o valor é criado, distribuído e capturado.
Talvez, por isso, a pergunta decisiva não seja qual destas tecnologias vencerá. A verdadeira vantagem estará em compreender e orquestrar a convergência antes dos outros.
Porque as organizações que liderarem esta nova economia não serão necessariamente aquelas que possuírem todas estas tecnologias.
Serão aquelas que souberem transformá-las em valor, governá-las e utilizá-las antes da própria mudança tecnológica redefinir as regras do seu negócio.
É essa a diferença entre assistir à Economia Quântica e liderá-la.

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