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A energia subiu 14,3% na zona euro e vai aparecer duas vezes no orçamento das famílias portuguesas

A energia subiu 14,3% na zona euro e vai aparecer duas vezes no orçamento das famílias portuguesas

Há uma sobreposição no calendário deste mês que raramente se consegue observar com esta nitidez. O preço grossista da eletricidade passou de 121 euros por megawatt-hora em agosto para perto de 154 euros em setembro. A componente energética da inflação da zona euro saltou de 10,3% para 14,3% no mesmo período. E o Banco Central Europeu subiu os juros 25 pontos base invocando exatamente essa pressão. O mesmo choque percorreu, em poucas semanas, todo o percurso entre o mercado grossista e a política monetária.
O ponto que interessa às famílias portuguesas é o que acontece no fim desse percurso. A subida da energia chega ao orçamento doméstico por duas portas diferentes e em dois momentos diferentes. Entra primeiro pela fatura da luz, de forma direta e imediata para quem tem tarifa indexada. E volta a entrar, semanas depois, pela prestação do crédito à habitação, por via da subida da EURIBOR que a decisão do BCE acompanha. É a mesma causa a produzir dois efeitos em rubricas que as famílias tratam como independentes.
Os dados do ComparaJá permitem medir as duas pontas. Na energia, uma família com dois filhos, consumo de 400 quilowatt-hora por mês e potência contratada de 6,9 kVA, paga 104,14 euros mensais na tarifa indexada, contra 74,14 euros na oferta fixa mais económica do mercado e 77,14 euros no mercado regulado. No crédito, um empréstimo de 150 mil euros a 30 anos com spread de 1% passa a custar cerca de 711 euros por mês na revisão de setembro com indexante a 12 meses, mais sete euros do que no mês anterior.
Somadas, as duas subidas parecem modestas. Separadas pelo critério que realmente importa, deixam de o ser. A subida da prestação é involuntária: resulta de um indexante público, aplica-se por contrato e não depende de nenhuma decisão do titular. A diferença na fatura da luz é inteiramente voluntária, no sentido em que existe uma alternativa contratual disponível, sem custo de mudança e sem interrupção de serviço. Uma família exposta às duas está a absorver sete euros que não pode evitar e trinta que pode.
A proporção é o que torna a leitura interessante. A margem de manobra doméstica na fatura da energia é, neste momento, mais de quatro vezes superior ao impacto mensal da decisão de política monetária no mesmo agregado. Uma família que resolva o contrato de eletricidade neutraliza várias revisões de prestação antes de a primeira lhe chegar. O detalhe por perfil de consumo está publicado na análise de mercado de energia do ComparaJá, e a distância entre escalões é significativa: num casal sem filhos a diferença anual entre a oferta mais barata e a mais cara ronda os 213 euros, numa família numerosa aproxima-se dos 980.
Segundo André Nunes, Energy Team Leader do ComparaJá, a coincidência temporal tem um efeito perverso na forma como as famílias reagem. «Quando duas despesas sobem ao mesmo tempo, as pessoas tendem a concluir que está tudo a ficar mais caro e que não há nada a fazer», afirma. «Neste caso há, e é na fatura que tem alternativa. O problema é que a sensação de impotência criada pela prestação contamina a decisão sobre a luz, que é a decisão que ainda depende delas.»
Há ainda um elemento de calendário que agrava o desencontro. O consumo doméstico de eletricidade sobe a partir de outubro, portanto a diferença entre tarifários vai aplicar-se sobre volumes maiores precisamente nos meses em que as revisões de prestação também se acumulam. Quem tratar do contrato de energia em setembro entra no inverno com uma das duas variáveis travada.
O que este mês mostra, no fundo, é que a separação habitual entre despesas de consumo e despesas de financiamento deixou de ser útil para analisar orçamentos familiares. Quando a inflação é energética e a resposta é monetária, a energia e o crédito passam a ser a mesma história contada em dois extratos diferentes.

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A energia subiu 14,3% na zona euro e vai aparecer duas vezes no orçamento das famílias portuguesas

Há uma sobreposição no calendário deste mês que raramente se consegue observar com esta nitidez. O preço grossista da eletricidade passou de 121 euros por megawatt-hora em agosto para perto de 154 euros em setembro. A componente energética da inflação da zona euro saltou de 10,3% para 14,3% no mesmo período. E o Banco Central Europeu subiu os juros 25 pontos base invocando exatamente essa pressão. O mesmo choque percorreu, em poucas semanas, todo o percurso entre o mercado grossista e a política monetária.
O ponto que interessa às famílias portuguesas é o que acontece no fim desse percurso. A subida da energia chega ao orçamento doméstico por duas portas diferentes e em dois momentos diferentes. Entra primeiro pela fatura da luz, de forma direta e imediata para quem tem tarifa indexada. E volta a entrar, semanas depois, pela prestação do crédito à habitação, por via da subida da EURIBOR que a decisão do BCE acompanha. É a mesma causa a produzir dois efeitos em rubricas que as famílias tratam como independentes.
Os dados do ComparaJá permitem medir as duas pontas. Na energia, uma família com dois filhos, consumo de 400 quilowatt-hora por mês e potência contratada de 6,9 kVA, paga 104,14 euros mensais na tarifa indexada, contra 74,14 euros na oferta fixa mais económica do mercado e 77,14 euros no mercado regulado. No crédito, um empréstimo de 150 mil euros a 30 anos com spread de 1% passa a custar cerca de 711 euros por mês na revisão de setembro com indexante a 12 meses, mais sete euros do que no mês anterior.
Somadas, as duas subidas parecem modestas. Separadas pelo critério que realmente importa, deixam de o ser. A subida da prestação é involuntária: resulta de um indexante público, aplica-se por contrato e não depende de nenhuma decisão do titular. A diferença na fatura da luz é inteiramente voluntária, no sentido em que existe uma alternativa contratual disponível, sem custo de mudança e sem interrupção de serviço. Uma família exposta às duas está a absorver sete euros que não pode evitar e trinta que pode.
A proporção é o que torna a leitura interessante. A margem de manobra doméstica na fatura da energia é, neste momento, mais de quatro vezes superior ao impacto mensal da decisão de política monetária no mesmo agregado. Uma família que resolva o contrato de eletricidade neutraliza várias revisões de prestação antes de a primeira lhe chegar. O detalhe por perfil de consumo está publicado na análise de mercado de energia do ComparaJá, e a distância entre escalões é significativa: num casal sem filhos a diferença anual entre a oferta mais barata e a mais cara ronda os 213 euros, numa família numerosa aproxima-se dos 980.
Segundo André Nunes, Energy Team Leader do ComparaJá, a coincidência temporal tem um efeito perverso na forma como as famílias reagem. «Quando duas despesas sobem ao mesmo tempo, as pessoas tendem a concluir que está tudo a ficar mais caro e que não há nada a fazer», afirma. «Neste caso há, e é na fatura que tem alternativa. O problema é que a sensação de impotência criada pela prestação contamina a decisão sobre a luz, que é a decisão que ainda depende delas.»
Há ainda um elemento de calendário que agrava o desencontro. O consumo doméstico de eletricidade sobe a partir de outubro, portanto a diferença entre tarifários vai aplicar-se sobre volumes maiores precisamente nos meses em que as revisões de prestação também se acumulam. Quem tratar do contrato de energia em setembro entra no inverno com uma das duas variáveis travada.
O que este mês mostra, no fundo, é que a separação habitual entre despesas de consumo e despesas de financiamento deixou de ser útil para analisar orçamentos familiares. Quando a inflação é energética e a resposta é monetária, a energia e o crédito passam a ser a mesma história contada em dois extratos diferentes.

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