Euribor a 12 meses saltou para 3,7% e as revisões de outubro vão custar entre 25 e 80 euros por mês
A EURIBOR a 12 meses fixou-se em 3,7% a 15 de setembro, depois de ter estado nos 3,4% uma semana antes e nos 3,6% na sexta-feira anterior. Foi a maior subida diária desde 24 de março, e a de seis meses acompanhou com um avanço de 0,116 pontos percentuais no mesmo dia. Para os contratos de crédito à habitação cuja revisão cai em outubro, isto traduz-se em aumentos de prestação entre 25 e 80 euros por mês, conforme o indexante e o spread contratados.
A ordem de grandeza merece ser sublinhada porque contrasta violentamente com o mês anterior. As revisões de setembro, calculadas sobre a média de agosto, acrescentaram cerca de sete euros à prestação de um empréstimo de 150 mil euros a 30 anos com um spread de 1%. As de outubro, calculadas sobre a média de setembro, vão acrescentar dez vezes mais. Não houve nenhuma mudança na dívida, no prazo ou no contrato destas famílias. Mudou apenas o mês em que a conta é feita.
O que explica um salto desta dimensão não é a decisão que o Banco Central Europeu já tomou, mas as que o mercado acredita que vem tomar. A subida de 25 pontos base anunciada a 10 de setembro, que colocou a taxa de depósitos em 2,5%, já estava largamente incorporada nos preços. O que se moveu depois foi a expetativa: os mercados passaram a descontar dois aumentos adicionais, nas reuniões de 29 de outubro e de 17 de dezembro, o que levaria a taxa de depósitos a 3% antes do fim do ano.
É esta a distinção que costuma perder-se na leitura pública das taxas de juro. A EURIBOR não é um reflexo da política monetária executada, é um preço de mercado que incorpora a política monetária esperada. Quando um banco central sobe juros e sinaliza que pode continuar, a segunda parte da mensagem produz mais efeito no indexante do que a primeira. As famílias portuguesas com crédito indexado estão, na prática, a pagar hoje por decisões que ainda não foram tomadas.
A exposição do mercado nacional a este mecanismo é quase total. Dos contratos de crédito à habitação intermediados pelo ComparaJá em agosto, só 4,6% foram assinados a taxa fixa. Os restantes acompanham a EURIBOR, de forma imediata nos contratos de taxa variável e a partir do fim do período inicial nos de taxa mista, que representam 83,3% das contratações. E a distribuição de prazos concentra o impacto no curto: 71,3% dos contratos ficaram indexados ao prazo de seis meses, contra 28,7% no de 12.
Essa concentração tem uma consequência prática desconfortável. Quem tem indexante a seis meses e foi revisto em setembro será revisto outra vez em março, e voltará a apanhar o nível atual se ele se mantiver. Quem tem indexante a 12 meses e for revisto em outubro fica com a taxa de setembro de 2026 até outubro de 2027, independentemente do que aconteça entretanto, incluindo uma eventual descida. O desfasamento protege num sentido e prende no outro.
Há um dado do mesmo mês que agrava a leitura agregada. O rácio médio entre montante financiado e valor do imóvel nas operações de agosto subiu para 80,6%, o valor mais alto do ano, o que significa que os contratos mais recentes têm capital em dívida proporcionalmente maior e maior sensibilidade a cada variação de indexante. O mercado entrou nesta aceleração mais alavancado do que estava na anterior.
Para quem acompanha o setor, o indicador a vigiar nas próximas semanas não é a EURIBOR em si, é a distância entre a EURIBOR e a taxa diretora. Se o diferencial continuar a alargar-se, o mercado está a descontar mais subidas do que o BCE pretende fazer, e uma parte deste movimento reverte assim que a comunicação do banco central o desmentir. Se o diferencial estabilizar com a taxa de depósitos a caminho dos 3%, então o nível de setembro não é um excesso momentâneo: é o novo ponto de partida para as revisões de 2027.
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