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Apostas online: gigantes mundiais perdem 38,51 mil milhões em valor de mercado com aperto regulatório

Apostas online: gigantes mundiais perdem 38,51 mil milhões em valor de mercado com aperto regulatório

As cinco principais empresas do setor de apostas online cotadas em Bolsa no mundo perderam cerca de 38,51 mil milhões de euros em valor de mercado no último ano. A análise considerou três conglomerados de bets e duas fornecedoras de odds —os multiplicadores usados nas apostas desportivas—, todos atuantes em território brasileiro.
Segundo relatórios de bancos de investimento, o recuo nas ações é consequência de cortes de projeção de receita, aumento de impostos em estados americanos e no Reino Unido, além de reveses regulatórios na Índia e mais recentemente no Brasil, com as seguidas ameaças de extinção do setor pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O petista vai anunciar nesta sexta-feira (25) a proibição total das apostas online. De acordo com o superintendente de conteúdo financeiro da plataforma Investing.com, Thomas Monteiro, o movimento brasileiro junta-se a um cerco global no setor, com imposição de impostos de 40% sobre a receita no Reino Unido, regras mais duras na União Europeia e veto total na Índia anunciado em 2025. “Tudo isso forçou os investidores a procurar um novo preço para essas ações”.
Para Eric Brasil, diretor da consultoria LCA, as bets, antes dessa atual queda, vinham de forte expansão devido à natureza disruptiva do negócio, que apresentou novos produtos aos consumidores. “Uma vez que esses jogos eram desconhecidos do grande público, foi natural que tivessem uma explosão de consumo, assim como foi com Netflix ou Amazon no passado”.
Entre os conglomerados de bets, a maior desvalorização foi da Flutter, dona da marca brasileira Betnacional, da britânica Betfair e da líder americana Fanduel, cujo preço de mercado caiu 34 mil milhões de dólares (cerca de 29,83 mil milhões de euros) após quedas no nível de investimento e saída de acionistas relevantes.
Um deles foi o investidor americano Michael Burry, que inspirou o filme “A Queda de Wall Street” pelas suas posições vendidas contra os índices americanos de S&P 500 e Nasdaq quando irrompeu a quebra de Wall Street — o episódio rendeu-lhe uma fortuna estimada em 100 milhões de dólares, sem contar o lucro para os acionistas do seu fundo.
Na sua newsletter Cassandra Unchained, Burry anunciou a compra de participação na Flutter em julho, quando as ações da empresa estavam avaliadas em 107 dólares, e as vendeu em 11 de setembro, com cada papel avaliado em 99,46 dólares. Ele considerava que as ações estavam no mínimo e ficariam em alta rapidamente, o que não se confirmou.
Nesta quinta-feira (24), na véspera do anúncio do presidente Lula de medida que deve acabar com as plataformas de apostas no Brasil, o que inclui a Betnacional, as ações da Flutter baixaram mais 4,49% e, no encerramento do mercado, eram negociadas a 85,95 dólares, o patamar mais baixo já registado desde a entrada em bolsa da empresa em Nova Iorque. Os preços ainda continuavam a cair no pós-mercado.
Na segunda-feira (21), o banco de investimento Rothschild Redburn baixou o preço-alvo da ação da dona da Betnacional de 169 dólares para 119 dólares, citando reduções no Ebitda (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) do site americano FanDuel em 22%, o que representaria 7% de perda para os resultados de todo o conglomerado.
Em comunicado a investidores, a Flutter disse que o declínio no desempenho da FanDuel deveu-se a uma combinação de resultados desportivos desfavoráveis para a banca, aumento da carga tributária em estados como Illinois e Nova Jersey e forte concorrência no setor.
Em maio, a então CEO da marca americana, Amy Howe, também anunciou uma saída inesperada, o que teve repercussão negativa entre os acionistas.
Outra notícia negativa para a Flutter, ainda em agosto de 2025, foi a proibição de apostas online na Índia, onde a empresa operava com a marca Junglee Games. O governo de Narendra Modi justificou a medida pelo impacto no orçamento das famílias. Segundo o primeiro-ministro indiano, um terço da população (cerca de 450 milhões de pessoas) perdia dinheiro em plataformas virtuais.

O revés regulatório desfalcou as receitas do conglomerado em 561 milhões de dólares em 2025 e mostrou pela primeira vez a exposição das ações de empresas de apostas a decisões drásticas de governos.
No Brasil, a marca da Flutter Betnacional é a principal patrocinadora de Cruzeiro, Sport Recife e Athletic Club, uma equipa mineira da segunda divisão.
Cotada na Bolsa de Londres, a dona da SportingBet (patrocinadora do Palmeiras e da Libertadores), Entain, perdeu 3,4 mil milhões de dólares em valor de mercado no último ano. No caso da empresa britânica pesaram quedas no seu grau de investimento por agências de classificação de risco e uma alta de impostos no Reino Unido.

A empresa reportou um prejuízo líquido de 681 milhões de libras no final de 2025. Esse valor foi reflexo de um impacto de aumentos de impostos no Estado britânico de 488 milhões de libras no balanço da empresa.
Também começou a valer no último mês de agosto um veto contra patrocínio master de bets para clubes de futebol na liga de futebol inglesa, a Premier League. O anúncio da medida foi em abril de 2023 e teve um período de transição de três anos. As plataformas de apostas ainda podem ocupar espaços menos relevantes, como as mangas dos uniformes.
A percepção de risco da Entain foi ampliada pela sua estrutura de capital. A dívida líquida ajustada da empresa em dezembro de 2025 chegou a 3,644 mil milhões de libras, um nível de alavancagem de 3,1 vezes o Ebitda, uma referência para a saúde financeira de companhias. Para lidar com a situação, os controladores diluíram a sua participação acionária.
A sueca Betsson, que atua no Brasil com uma marca homónima, teve perda de valor de mercado de 960 milhões de euros no último ano.
A desvalorização de aproximadamente 35% das ações da companhia na Bolsa de Estocolmo nos últimos 12 meses reflete a deterioração das margens de lucro operacionais, aumento de despesas e reveses em negócios voltados para outras empresas. No segundo trimestre de 2026, o lucro da companhia recuou 41% na comparação anual, fechando em 29,1 milhões de euros.
O balanço do primeiro trimestre de 2026 indicou um impacto negativo na arrecadação proveniente da região da Europa Central, Oriental e Ásia Central. A reação imediata do mercado derrubou os papéis em 14% à época.
Com o mau desempenho das bets no mundo, também caíram o valor dos papéis das fornecedores de odds, precificação das apostas esportivas com base em cálculos estatísticos e nos depósitos em cada rodada de jogo.
Genius Sports e Sportradar anunciaram prejuízos líquidos acima do esperado. Embora ambas as empresas tenham registado crescimento nas receitas em 2026, os gastos elevados com direitos de transmissão e integração de novas tecnologias comprometeram a rentabilidade de curto prazo das operações.
A Sportradar registou uma queda superior a 22% em abril de 2026 após a publicação de relatórios de investidores militantes (que divulgam notícias com o objetivo de impactar uma companhia listada em Bolsa) alegando que a empresa fornecia serviços para operadores de apostas não licenciados em países sancionados, como Rússia e Irão, o que resultou em processos judiciais movidos por acionistas.
No caso da Genius Sports, o recuo refletiu a divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre de 2026. A companhia reportou um prejuízo contábil de US$ 0,28 por ação, um valor superior à perda de US$ 0,08 projetada pelo mercado.
O balanço foi impactado pelo acúmulo de despesas financeiras e ajustes ligados à recente aquisição da Legend, uma plataforma de gestão de afiliados —pessoas que divulgam bets nas redes sociais em troca de comissões sobre o prejuízo das pessoas recrutadas.

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