“Reflexo. 30 Anos, 30 Projetos”: Um ateliê que desenha o futuro
A arte é um agente provocador e inspirador da arquitetura da Saraiva+Associados (S+A). Está por todo o ateliê. Suspensa do teto, pendurada em diversas salas, encostada a uma parede. Das serenas Quatro Estações, bustos clássicos representando as 4 estações do ano, à provocadora obra de João Louro, que desconstrói a primeira bomba atómica. “Little Boy” aterrou naquele que é o maior ateliê de arquitetura português como “mais uma onda de turbulência conceptual”. Porquê? Porque para Miguel Saraiva, fundador e CEO da S+A, importa estimular o exercício constante de alteração de paradigmas que “estrutura o nosso estar na arquitetura, no território e no mundo.” E porque ambas, arte e arquitetura, “têm em comum uma caraterística, que é a de trazerem qualidade à vida de todos.”
Mas não só. Se a arquitetura é uma disciplina de “síntese e colaboração”, como diz o próprio, o coletivo que fez da S+A aquilo que é hoje não podia deixar de estar presente na exposição que se mostra a quem passa, a vizinhos, bairro, cidade. Porque é na rua que a arquitetura ganha o seu verdadeiro sentido. E também na partilha, na capacidade de gerar comunidade. Eis a génese da exposição “Reflexo. 30 Anos, 30 Projetos”, com curadoria de Ana Magalhães. Nela se plasma a multidisciplinaridade de projetos e o pensamento da S+A sobre os locais onde se insere, dentro e fora de Portugal. E se observam pistas subtis sobre o futuro.
A exposição “Reflexo” é um corolário de 30 anos de ateliê, mas também nos dá um vislumbre sobre o que se segue. Tendo presente o que disse recentemente ao Jornal Económico, “que há muito que a S+A deixou de ser um projeto de um homem só”, qual o olhar do fundador sobre o futuro?
O futuro da S+A constrói-se sobre a maturidade do seu passado. Celebrar 30 anos não é olhar para uma meta alcançada, mas sim para uma fundação sólida que nos permite projetar os próximos 30. A passagem de “projeto de um homem só” para uma instituição coletiva é a transformação mais orgânica e necessária de um ateliê com a nossa dimensão. Nestes 30 anos, passaram pela S+A mais de 600 arquitetos.
O meu olhar sobre o futuro é o de quem tem a responsabilidade de garantir a continuidade de uma identidade sem a aprisionar à minha imagem. Vejo um ateliê cada vez mais plural, internacional e autónomo, onde a visão do fundador serve como bússola cultural e estratégica, mas onde a energia criativa e executiva é partilhada por equipas altamente capacitadas. O futuro passa por consolidar a S+A não como a marca de um arquiteto, mas como uma escola e uma referência global de arquitetura.
As frases que acompanham a exposição dão palco a diversos arquitetos que integram ou integraram o ateliê. Transmite a ideia de que é possível equilibrar pensamento individual e coletivo. Como se conjuga essa prática no dia a dia do ateliê?
A arquitetura é, por natureza, uma disciplina de síntese e colaboração. No dia a dia da S+A, o pensamento individual é o motor da ideia inicial, da inquietação criativa. O coletivo é a estrutura que molda, testa, enriquece e concretiza essa ideia. Na prática, promovemos uma cultura de debate aberto nas mesas de trabalho. Cada projeto beneficia do cruzamento de visões, desde o olhar experiente dos diretores até à perspetiva arrojada dos jovens arquitetos. Dar palco a quem faz e fez parte da casa na exposição “Reflexo” é o reconhecimento explícito de que o ADN da S+A é feito dessa soma de sensibilidades. O equilíbrio consegue-se dando liberdade de reflexão a cada elemento, mantendo, contudo, uma exigência rigorosa de alinhamento com a escala, a função e a linguagem do ateliê.
A transmissão de conhecimento e formação de jovens arquitetos evidencia a vitalidade de um ateliê que é, tão-só, o maior de Portugal e com ampla expressão internacional. Como transmite a sua paixão pela arquitetura, a forma como pensa a cidade – Lisboa e outras que acolhem projetos da S+A – e elucida sobre os desafios da profissão?
Transmitir paixão é liderar pelo exemplo e pelo envolvimento direto nos processos. Aos mais jovens, tento passar a ideia de que a arquitetura não é apenas desenhar edifícios, não é compilar informações de terceiros, é desenhar a vida que acontece dentro e ao redor deles.
Pensar a cidade, seja a nossa Lisboa, com a sua luz, topografia e património sensível, seja qualquer outra metrópole internacional onde atuamos — exige uma profunda leitura do contexto. A cidade é um organismo vivo. Não acreditamos numa arquitetura descontextualizada, que se cola de forma indiferenciada em qualquer lugar. Pensar a cidade é responder à escala humana, à sustentabilidade urbana e à capacidade de gerar comunidade.
Quanto aos desafios da profissão, passo uma mensagem de pragmatismo crítico: enfrentamos burocracias complexas, prazos exigentes e uma urgência climática inescapável. A melhor forma de formar os jovens é capacitá-los para transformar estas restrições aparentes em oportunidades de inovação e rigor técnico. E temos, ainda, um desafio extra, que é ultrapassar a dificuldade em definir o papel do arquiteto na sociedade. Esta tem sido e vai continuar a ser uma das minhas e das nossas prioridades.
A inovação e capacidade de antecipar o futuro passa pela utilização da inteligência artificial como ferramenta? De que forma?
A inteligência artificial (IA) é uma ferramenta incontornável e um catalisador extraordinário de mudança, mas não substitui a sensibilidade humana. Na S+A, olhamos para a inovação tecnológica como um meio para otimizar processos, na análise preditiva de dados urbanos, na simulação de eficiência energética, no teste rápido de volumetrias e na gestão da complexidade dos projetos.
A IA permite libertar tempo aos arquitetos para aquilo que é verdadeiramente insubstituível, a criatividade, a intuição, o pensamento crítico, a poesia do espaço e a compreensão das necessidades emocionais e sociais dos utilizadores. A antecipação do futuro passa por adotar a IA sem medo, integrando-a nos fluxos de trabalho para acelerar a precisão e a eficiência, garantindo sempre que o comando conceptual e ético permanece inteiramente nas mãos do arquiteto.
Existem impossíveis na arquitetura?
Do ponto de vista técnico e formal, a arquitetura tem provado ao longo dos séculos que os “impossíveis” de uma época são as convenções da seguinte. Com a engenharia moderna e os novos materiais, quase tudo se consegue construir.
No entanto, existem “impossíveis” de outra ordem, é impossível fazer boa arquitetura sem empatia humana, sem respeito pelo lugar ou sem responsabilidade social. O verdadeiro impossível surge quando se tenta desassociar a estética da função e do bem-estar de quem vai habitar o espaço. Para a S+A, o impossível não está no desafio estrutural mais audaz, mas sim em aceitar desenhar algo que não acrescente valor à cidade e às pessoas.
“Reflexo. 30 Anos, 30 Projetos”, Saraiva+Associados | até 20 NOV. Espaço exterior ao ateliê, Av. Infante Santo, 69 A-C, Lisboa
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