Sorrisos e negociações entre dois inimigos obrigados a entender-se
O presidente norte-americano, Donald Trump (e a mulher, Melania), recebeu o seu homólogo chinês, Xi Jinping (e a mulher, Peng Liyuan), ao fundo das escadas do avião que os transportou até aos Estados Unidos, em cima de uma passadeira vermelha que momentos antes tinha sido ali colocada de forma tão milimétrica como se disso dependesse o sucesso visita. O mundo encheu-se de satisfação pela deferência – não dando importância ao facto de, há mais de 67 anos, exatamente ali, na Base Aérea de Andrews, em Maryland, o presidente Dwight D. Eisenhower ter dispensado a mesma mordomia protocolar a Nikita Khrushchev, o seu homólogo soviético. Deferência para com os grandes amigos ou para com os grandes inimigos? Opte-se prudentemente pela segunda hipótese, dado que, desde a sua primeira passagem pela Casa Branca, Trump ter tido a preocupação de deixar claro que o Império do Meio é o mais sério e sistemático adversário dos Estados Unidos.
O que já foi conseguido
Mas não estamos em 1959: quando Trump e Xi Jinping se apertaram as mãos esta quarta-feira, sabiam que algum trabalho já tinha sido feito no sentido de encontrarem ao menos um breve armistício no combate entre as duas maiores economias do mundo. O mais tangível do que tinha sido previamente conseguido foi a extensão da trégua tarifária por mais dois meses, adiando o prazo de caducidade de novembro para 10 de janeiro de 2027. O acordo foi fechado em Washington pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e pelo vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng. Ao mesmo tempo, os dois ‘subalternos’ conseguiram avançar nas negociações, de maior escala, da iniciativa ‘Board of Trade’, abrindo portas a entendimentos técnicos para o estabelecimento de listas de bens que vão beneficiar de tarifas alfandegárias mais baixas. Do lado chinês, o alívio foca-se em bens de consumo de baixa tecnologia; do lado norte-americano, priorizam-se produtos energéticos, agrícolas e dispositivos médicos. Por outro lado, e segundo a imprensa norte-americana, as duas nações conseguiram um alinhamento na área das exportações agrícolas, no sentido de mitigar barreiras sanitárias e alfandegárias de modo a operacionalizar os compromissos de compra firmados em maio (quando Trump visitou a China), como a facilitação da entrada de carne bovina e aves norte-americanas nos portos chineses.
Talvez mais importante, na área da tecnologia e segurança, os dois países atingiram uma base de entendimento para a criação de um ‘Mecanismo de Alerta em Inteligência Artificial, que prevê uma “linha direta” de comunicação dedicada a partilhar urgências sobre incidentes de pirataria informática e ciberataques relacionados com IA que possam afetar a segurança nacional de ambos os países. Tudo à mão de um simples telefonema que poderá mudar o futuro do mundo se às maquinetas lhes der para terem vida própria. Não era por acaso que, no jantar de gala de quinta-feira, terão marcado presença Elon Musk (Tesla/SpaceX), Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google/Alphabet), Jeff Bezos (Amazon), Jensen Huang (Nvidia), Michael Dell (Dell Technologies) e Tim Cook (antigo CEO da Apple), acotovelando-se entre as dezenas de personalidades de topo da indústria financeira.
O que ainda não foi conseguido
Apesar de todas estas euforias, passadeiras vermelhas, sorrisos e apertos de mãos, os analistas temem que o segundo encontro entre os dois homens mais poderosos do mundo (no entender dos institucionais) em apenas meio ano, resulte na evidência de que é impossível que a China e os Estados Unidos fiquem unidas por um tratado macroeconómico de largo espectro – que pudesse sinalizar um entendimento abrangente. Isso não vai acontecer, como também não vai acontecer o fim da guerra entre blocos, o ocidental por um lado e o chinês por outro – que continuarão a odiar-se mutuamente, a dinamitar-se mutuamente, como aprenderam com a Guerra Fria.
De qualquer modo, há um conjunto de matérias onde se esperam alguns avanços. Estão neste campo o combate ao narcotráfico (principalmente no que tem a ver com o fentanil) e um mais geral controlo de venda substâncias químicas. A China deu um sinal claro nesse sentido ao anunciar restrições e exigir autorizações para a exportação de produtos químicos sensíveis para a América do Norte (EUA e Canadá).
As compras em grande escala também estão na calha, obedecendo a um plano estruturado avaliado em cerca de 30 mil milhões de dólares, onde a China se compromete a expandir maciçamente a importação de bens agrícolas norte-americanos, especialmente soja, trará grande alívio ao setor agrícola dos Estados Unidos, esperam os analistas. É possível que haja novidades no segmento do petróleo – com a China a estender a sua avidez à produção norte-americana, principalmente numa altura em que o Estreito de Ormuz está mais ou menos intransitável e os oleodutos sauditas são pouco seguros.
E ainda faltam os Minerais Críticos – entre eles as Terras Raras – de que a economia dos Estados Unidos precisa com algum desespero e que a China, sentada em cima da abundância natural que lhe calhou em sorte, com certeza tratará de usar como uma espécie de chave-de-fendas universal. Já o fez antes, recorde-se: quando Trump acenou com o aumento de tarifas às importações chinesas (por uma razão qualquer que é sempre o menos importante), bastou a Pequim apertar um pouco as licenças de exportações de minerais críticos para que Washington se apressasse a revogar a medida. O objetivo do entendimento em cima da mesa é garantir um fluxo previsível e estável destes componentes, que são vitais para as indústrias norte-americanas de semicondutores, defesa e transição tecnológica. Mas Trump sabe que os deuses não foram especialmente simpáticos com o território norte-americano, pelo que a matéria será sempre uma espécie de moeda de troca que a China tratará de usar em seu benefício.
Um fluxo desequilibrado
O fluxo de comércio de bens entre os países rondou os 414 mil milhões de dólares em 2025, refletindo um encolhimento acentuado face aos anos anteriores devido à escalada nas disputas tarifárias – com diminuições acima dos 30%. Mas o desequilíbrio é ainda dominante: as importações norte-americanas de bens totalizaram 308 mil milhões de dólares, ao mesmo tempo que as exportações não foram além dos 106 mil milhões, quase um terço. Neste contexto, a balança comercial manteve um défice (para os Estados Unidos) de 202 mil milhões de dólares – que é, apesar de tudo, bem menor que o registado em 2022, ano que ascendeu aos 382 mil milhões. As atuais reuniões técnicas entre Scott Bessent e He Lifeng em Washington servem precisamente para tentar gerir as tarifas médias sobre este fluxo (que rondam os 20% a 36%), procurando equilibrar este défice comercial.
Merece também destaque o facto de a exposição da China à dívida pública dos Estados Unidos vir a recuar sistematicamente nos anos mais recentes. Pequim tem vindo a reduzir essa exposição (aos títulos do Tesouro), atingindo o valor mais baixo dos últimos 18 anos: os dados mais recentes do Departamento do Tesouro dos EUA revelam que a carteira de dívida norte-americana detida por Pequim caiu para 618 mil milhões de dólares, cerca de metade dos 1,3 biliões detidos em 2013. A China já foi o maior credor externo de Washington, mas é agora o terceiro, atrás do Japão e do Reino Unido. Um bom sinal para Trump? Nem por isso: no limite, Pequim demonstra apostar na ‘desdolarização’ da economia global, algo de que o presidente dos Estados Unidos não quer nem ouvir falar.
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