Alimentação tem o quarto maior peso no cabaz de consumo da última década
Os produtos alimentares e as bebidas não alcoólicas são a categoria com maior peso no cabaz que o Eurostat usou para calcular a inflação em Portugal este ano, representando 20,74% do total. É o quarto valor mais elevado da última década, superado apenas pelos pesos registados em 2021, 2022 e 2025, e está cerca de 1 ponto percentual acima do peso registado há uma década (19,6% em 2017), de acordo com as contas do Jornal Económico.
É também o sétimo mais elevado da União Europeia. Sem surpresas, o peso da alimentação tende a ser maior em países de menores rendimentos: dos seis Estados-membros que surgem à frente de Portugal, apenas a Lituânia tem um PIB per capita maior, depois de ajustadas as diferenças de poder de compra.
A habitação não lidera este cabaz de consumo, porque abrange apenas despesas monetárias: não são incluídas as prestações do crédito à habitação, nem se atribui aos proprietários uma renda hipotética pela utilização da casa própria (as chamadas rendas imputadas). Como cerca de 71% da população vive em casa própria, o peso relativo da habitação fica diluído no cabaz. Quando se considera também o consumo não monetário, que inclui as rendas imputadas, a categoria da habitação já passa para o primeiro lugar, como mostra o Inquérito às Despesas das Famílias do INE: representava 39,3% da despesa total média. O problema é que estes dados se referem a 2022/23, um período já distante.
A habitação, água, eletricidade, gás e outros gastos com a casa representam, por isso, apenas 8,25% do cabaz de consumo. Portugal é o terceiro país com o peso mais baixo na UE e, em relação a 2017, há uma descida de 1,1 pontos percentuais. A queda explica-se, em grande medida, pela redução do peso conjunto da eletricidade, gás e outros gastos, de 4,2% para 2,9%. As rendas pagas, que correspondem a cerca de metade desta categoria, tiveram um acréscimo de 0,5 pontos percentuais numa década, para 4,2%.
Esta categoria fica atrás não só da alimentação e bebidas não alcoólicas, como também dos restaurantes e alojamento (16,7%) e dos transportes (14,9%). No caso da restauração e do alojamento, em que se incluem as despesas de turistas estrangeiros, registam o segundo peso mais elevado da década e têm o maior aumento percentual entre as 13 categorias consideradas pelo gabinete de estatística europeu (3,8 p.p).
Quatro categorias ao nível mais baixo da década
Entre todas as categorias, quatro estão com o peso mais baixo dos últimos 10 anos em Portugal: equipamento doméstico e manutenção da habitação (4,96%), bebidas alcoólicas, tabaco e narcóticos (3,22%), informação e comunicação (2,75%) e seguros e serviços financeiros (2,44%), que incluem as comissões bancárias referidas acima.
A perda de peso não significa, necessariamente, que as famílias tenham reduzido estas despesas, podendo resultar de uma evolução mais lenta dos preços ou de um crescimento mais acentuado de outras componentes do cabaz.
No entanto, Natália Nunes, coordenadora do gabinete de proteção financeira da Deco, acredita que foi resultado do corte de despesas consideradas secundárias. “Mesmo só recuando seis anos, nós vimos que têm sido anos terríveis para as famílias do ponto de vista financeiro. Porque tivemos primeiro a questão da pandemia, depois tivemos a subida da inflação, das taxas de juros e, portanto, foram períodos em que as famílias eliminaram praticamente tudo o que podiam eliminar”, afirma ao Jornal Económico. “Os equipamentos domésticos ou as comunicações foram setores em que as famílias cortaram para conseguirem suportar o custo da alimentação e da habitação”.
Cada categoria, porém, conta a sua própria história e uma análise mais fina dá algumas pistas. Na categoria de bebidas alcoólicas, tabaco e narcóticos, que tem o terceiro peso mais baixo de toda a União Europeia em 2026, a perda de peso do tabaco explica boa parte da evolução: caiu de 2,2% para 1,8%. Já a cerveja, comparativamente barata em Portugal e com o peso mais baixo da UE no cabaz de consumo, recuou de 0,5% para 0,3% na última década. O peso do vinho, por outro lado, aumentou de 0,9% para 1% (7.º maior na comparação entre os 27).
Na categoria de informação e comunicação, Portugal tem o segundo peso mais baixo da União Europeia. Não é novidade, mas a tendência foi acentuada por quatro quedas consecutivas nos últimos anos. Os serviços de telecomunicações em ‘bundle’ (de 1,3% em 2017 para 1% em 2026) e os serviços de comunicações móveis (de 1,2% para 1,1%) ajudam a explicar a evolução. “Há mais concorrência nos últimos anos”, nota Natália Nunes. “E mesmo em termos de internet, foi criada a tarifa social”.
Comissões bancárias têm o peso mais baixo no cabaz de consumo desde 2009
Também as comissões bancárias pagas pelas famílias estão a perder peso no cabaz de consumo do país. Em 2026, segundo a estimativa do Eurostat, representam cerca de 1% da despesa, menos 0,7 pontos percentuais do que há uma década, de acordo com as contas do Jornal Económico.
É o valor mais baixo desde 2009, quando o peso disparou de 0,98% para 1,82%. Depois de uma estabilização, ainda subiria para 2,2% em 2013, já durante o período da troika, e em 2017 saiu da casa dos 2%, caindo quase todos os anos desde então. Portugal chegou a liderar esta tabela a nível europeu em 2013 e 2014, e em 2017 ainda era o 3.º com maior peso. Hoje, ocupa, ainda assim, a 8.ª posição.
A perda de peso não significa, no entanto, que as famílias paguem menos comissões. Pode resultar de um crescimento mais acentuado das restantes despesas que compõem o cabaz.
Para Natália Nunes, “os consumidores estão um bocadinho mais criteriosos e existe alguma concorrência”. Por exemplo, nas contas à ordem, “onde vemos que existem muitas comissões, alguns bancos isentam de pagamento”, acrescenta ao Jornal Económico.
Por outro lado, “os serviços mínimos bancários tiveram um grande crescimento nos últimos tempos”, nota ainda. O número destas contas ‘low cost’ deu um salto de 76% desde 2021. E só no ano passado subiu 8%, para cerca de 265 mil. Das 28,5 mil contas criadas em 2025, 18,8 mil resultaram da conversão de uma conta já existente.
A responsável da Deco salienta ainda outras diferenças na última década: em vários casos, deixou de haver comissões sobre o cartão de débito, “que até há uns anos implicavam o pagamento da anuidade, por exemplo”, embora também ressalve que “as despesas de manutenção das contas têm vindo a aumentar”.
Já o economista João Duque centra a análise na evolução da banca. “Houve vários anos em que a margem financeira era muito má e foram as comissões que salvaram”, sublinha o professor do ISEG. A taxa de depósito do BCE esteve negativa entre 2014 e 2022 e os bancos perdiam dinheiro “quando aplicavam o dinheiro no Banco Central, que lhes cobrava uma taxa de juros negativa”.
“Tinham, depois de pagar o pessoal, as infraestruturas e todos os custos, que são brutais. Como é que tapavam o buraco?”, questiona João Duque. “Nessa altura, viviam de comissões. Não tinham hipótese. A alternativa era os bancos terem imenso prejuízo”. E nem assim evitaram resultados líquidos negativos em vários anos. Em 2016, os sete maiores bancos ainda somavam cerca de dois mil milhões de euros em prejuízos. Depois, com o tempo, a margem financeira subiu e as comissões deixaram de ter a mesma importância, nota João Duque.
Jogos de azar pesam 1,4%
Por outro lado, a categoria de lazer, desporto e cultura registou um aumento de 0,2 pontos percentuais na última década, apesar de várias componentes importantes estarem a cair. A explicação não está nos serviços culturais (de 0,9% para 0,3%), nem nos jornais, livros e artigos de papelaria (de 1,4% para 0,6%), mas nos jogos de azar. O Eurostat contabiliza esta despesa pela primeira vez, o que mascara a perda de peso das restantes componentes da categoria. Os jogos de azar representam, na estreia, 1,4% das despesas de consumo, colocando Portugal em 11.º lugar na tabela da UE.
É uma despesa que preocupa a Deco. “Está a levar muitas famílias a entrar em situação de sobreendividamento. Temos, inclusivamente, já muitas pessoas diagnosticadas com a doença. Não conseguem parar. Está a levar a situações de ruptura do orçamento”, avisa Natália Nunes. “É a constatação da realidade que já tínhamos detetado e, por outro lado, poderá ser aqui também uma evidência de que é necessário tomar medidas a este nível”, defende a responsável. “É verdade que já foram tomadas algumas medidas, como a possibilidade de autoexclusão dos jogadores, mas há aqui todo um trabalho ainda a ser feito”.
Nota final para a saúde, cujo peso aumentou de 5,6% para 6,4% desde 2017. Portugal apresenta o sétimo peso mais elevado da União Europeia, uma posição explicada, em grande medida, pelas despesas com serviços dentários, que passaram de 1,5% para 2,6% do cabaz no mesmo período. Em nenhum outro Estado-membro os serviços dentários têm tanto peso. “A justificação poderá ser na falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde”, indica Natália Nunes, apesar de realçar que “tem sido feita alguma coisa, nomeadamente com o cheque dentista”.
O consumo das famílias em dificuldades
No cabaz da Deco, focado nas famílias em dificuldade e não no consumo do país, a Deco salienta que “40% do rendimento está a ser absorvido pela habitação (prestação da casa e rendas) e por tudo o que é inerente à habitação: água, eletricidade e gás”.
Até há pouco tempo, diz ainda, “as famílias que pediam ajuda à Deco tinham sobretudo crédito à habitação”. Mas “em 2025 e 2026, muitas delas já têm renda”. Seja como for, “hoje o problema é mesmo o peso da habitação, seja própria ou arrendada”.
A segunda maior despesa é a alimentação, na casa dos 30%. A restauração não se coloca, uma vez que “estamos a falar de famílias com dificuldades”, que “acabam por não referir sequer este valor” nas conversas com a Deco, “assim como lazer e vestuário”.
Depois, o transporte vale 8,5% do total, a saúde 5%, os cuidados pessoais, a proteção social e outros 3,5%, os seguros 3% e a educação outros 3%.
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