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Calor e seca deixam rios europeus com caudais mais baixos em mais de 30 anos

Calor e seca deixam rios europeus com caudais mais baixos em mais de 30 anos

Os grandes rios europeus chegaram ao fim do verão com tão pouca água que o impacto já não se mede apenas nas margens. Navegação, agricultura, produção de energia e abastecimento foram atingidos por uma combinação de calor extremo e seca que levou os caudais dos rios europeus ao nível mais baixo desde que existem registos comparáveis, em 1992.
Segundo o Copernicus Climate Change Service (C3S), que analisou os caudais de 12 dos principais rios europeus entre junho e agosto, este foi o verão com os caudais mais baixos desde o início dos registos do Sistema Europeu de Informação sobre Inundações (EFAS), em 1992.
As condições excecionalmente baixas atingiram rios como o Reno, Danúbio, Pó, Loire, Ródano e Sena. Em alguns pontos, o Reno, Danúbio, Loire, Pó, Vístula e Elba registaram os caudais mais baixos de que há registo. O Sena, Ródano, Oder, Dnieper, Glomma, Tamisa e Southern Bug também apresentaram níveis muito reduzidos.
 

Não são apenas rios com menos água. É uma questão que chega às fábricas, aos portos e às centrais elétricas. Quando o nível baixa demasiado, uma barcaça já não consegue transportar a carga habitual, afetando as cadeias de abastecimento. A agricultura precisa de mais água para a irrigação, a produção hidroelétrica fica condicionada e a falta de água pode dificultar o arrefecimento de centrais elétricas.
O calor ajudou a agravar o problema. A Europa Ocidental teve este ano o verão mais quente de que há registo, com uma temperatura média de 21,7 graus Celsius, 2,5 graus acima da média de 1991-2020. Durante 17 dias, pelo menos 60% da Europa Ocidental registou temperaturas superiores a 30 graus, contra 11 dias em 2003 e sete em 2025.
Em toda a Europa, 52% do território esteve exposto, no final do verão, a stress térmico “muito forte”, correspondente a temperaturas sentidas de pelo menos 38 graus. Na Europa Ocidental, foram registados 41 dias de stress térmico forte e 13 dias de stress térmico muito forte, ambos valores recorde.
 

O calor e a seca estão ligados. Temperaturas mais elevadas aumentam a evaporação e a perda de água do solo, contribuindo para reduzir os caudais dos rios. Mas Samantha Burgess, responsável estratégica pelo clima no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), deixa uma nota de cautela: o Copernicus ainda não realizou um estudo de atribuição específico para 2026 e, por isso, não é possível determinar quanto desta situação resulta diretamente das alterações climáticas.
Burgess salienta, contudo, que existe uma tendência que merece atenção: desde meados da década de 2010, os caudais de verão têm apresentado uma tendência para ficar abaixo da média, sobretudo na Europa Oriental. O sudeste europeu está também a aquecer mais rapidamente do que a média do continente.
O problema não ficou apenas nos rios. A combinação de calor e seca contribuiu para uma época de incêndios particularmente severa. Até 2 de setembro, a área ardida na União Europeia era quase o dobro da média de 2006-2025 para a mesma altura do ano, segundo o Copernicus.
O verão deixa, assim, uma imagem simples: os grandes rios europeus continuam a correr, mas com muito menos água. E essa água que falta começa a fazer-se sentir muito para além das margens — nos campos, nos portos, nas fábricas, nas cadeias de abastecimento e nas centrais elétricas.
“Calor recorde, condições secas generalizadas, caudais excecionalmente baixos e mares invulgarmente quentes” ocorreram em simultâneo em grandes áreas da Europa, resumiu Samantha Burgess no balanço do Copernicus. Para a responsável, as consequências ultrapassaram os próprios recordes de temperatura e atingiram a disponibilidade de água, a energia, os transportes, os ecossistemas e a saúde humana.

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