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Desequilíbrio marca comércio entre Portugal e o Brasil

Desequilíbrio marca comércio entre Portugal e o Brasil

O comércio de bens entre Portugal e o Brasil continua a ser deficitário para o nosso país, um dado historicamente observável, mas que tem passado por um período de reequilíbrio constante desde 2022. O problema é que os dados mais recentes apontam para uma reversão deste movimento de reequilíbrio. De facto, os dados mais recentes – fornecidos pela agência AICEP ao JE, a partir dos número coligidos pelo Instituto Nacional de Estatística – indicam que, entre janeiro e julho deste ano, as empresas portuguesas exportaram para o Brasil mercadorias no valor de 688,7 milhões de euros – correspondendo a um aumento de 17,6% em relação ao mesmo período do ano passado, onde foram atingidos 585,8 milhões. Mas, no sentido contrário, as importações de bens do Brasil ascenderam aos 2,66 mil milhões de euros, mais 43,1% que no mesmo período do ano passado (1,86 mil milhões). A taxa de cobertura não vai além dos 25,9% – que é um pouco pior que a registada nos primeiros seis meses do ano passado, altura em que chegou aos 31,5%.
No histórico anual, a taxa de cobertura – que mede o diferencial entre importações e exportações em que 100% quer dizer que os movimentos nos dois sentidos são idênticos – tem vindo a aumentar desde 2022, ano em que atingiu um pico mínimo de 20,1%. Nos anos seguintes passou para os 24,4%, 30, 5% e 39,5% (em 2025), demonstrando a recuperação das exportações nacionais para a antiga colónia. Mas os dados dos primeiros seis meses do ano refletem, como se vê, a inversão da tendência, o que quer dizer que as exportações nacionais perderam dinamismo face às importações.
Ainda para os dados dos primeiros seis meses do ano, o INE constata que o Brasil passou para a sétima posição enquanto fornecedor de Portugal – conseguindo uma melhoria assinalável desde o nono lugar do ano passado – com uma quota de 3,8% do total das importações, mais um ponto percentual que no final do primeiro semestre do ano passado.
Como destino das exportações nacionais, o Brasil está apenas na 11ª posição (n final do primeiro semestre do ano, ainda assim um pouco melhor que a 13ª de há um ano), assegurando o escoamento de 1,4% dos bens nacionais para fora das nossas fronteiras (1,2% há um ano). Portugal é apenas o 41º fornecedor do Brasil, assegurando 0,45% das compras brasileiras no exterior.
 
Procura diminuta
Num país tradicionalmente ‘sitiado’ por barreiras alfandegárias, a apetência das empresas portuguesas para venderem a clientes brasileiros é, no mínimo, muito contida. No final de 2025, apenas 1.679 empresa nacionais mantinham fluxos de exportação para o Brasil, só 8% do total de empresas portuguesas que exportam. Eram apenas mais 16 que no ano anterior, 1.663, que por sua vez eram menos que as 1.669 empresas que enviaram bens para o Brasil em 2023. A este nível, Portugal está apenas na 14ª posição em termos de fornecedor.  Refira-se ainda que só 11 daquelas 1.679 empresas assegurava um fluxo anual de exportações acima dos 10 milhões de euros. A maioria, 1.241 empresas, não ultrapassa a barreira do milhão de euros.
Em termos de produtos, as exportações para o Brasil continuam a ser lideradas pela produção agrícola, com 474,7 milhões de euros no final de 2025, 44% do total – ainda não há dados disponíveis para o primeiro semestre – o que, ainda assim, representa uma queda da ordem dos 20,3% em relação ao ano anterior. Os veículos e outro material de transporte surgem em segundo lugar, com 221,8 milhões de euros, cerca de 20,9% do total – mas com um aumento de 19,4% face ao ano anterior. Ou seja, a agricultura está em queda e os veículos em alta. Em termos de importações, os combustíveis minerais lideram, com 1,69 mil milhões de euros (no final de 2025), cerca de 62,8% do total.
 
À espera do Mercosul
Não é consensual na Europa (e em Portugal) apesar de, aparentemente, o ser no Brasil: todos os operadores económicos estão à espera que o acordo entre a União Europeia e o Mercosul entre em vigor – na totalidade e não apenas em parte, como sucede neste momento e desde 1 de maio. A acreditar nos críticos, a União Europeia vai criar uma espécie de alto-estrada para os produtos do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e mais recentemente a Bolívia) na Europa, enquanto, do outro lado do Atlântico, a produção do bloco continuará a contar com uma sinuosa estrada de montanha.
O acordo elimina as tarifas aduaneiras para mais de 90% das exportações de ambos os blocos, mas impõe limites protetores. Para evitar a asfixia dos agricultores europeus, a importação de produtos agrícolas do Mercosul (como carne bovina, aves, açúcar e etanol) está sujeita a quotas. Está prevista a ativação de um regulamento de salvaguarda agrícola que permite à União suspender temporariamente as preferências tarifárias ou aplicar taxas se houver uma perturbação grave do mercado interno. Por outro lado, o Mercosul é obrigado a proteger legalmente mais de 340 produtos com denominação de origem europeia (entre eles o Vinho do Porto. E as empresas europeias passam a poder concorrer a concursos públicos governamentais nos países do Mercosul em igualdade de circunstâncias, além de haver uma maior flexibilidade no comércio de serviços (como transportes marítimos). Mas as dúvidas subsistem.

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