Pedro Sánchez ‘rouba’ iniciativa política à direita
Ao cabo de três anos passados sobre as legislativas de julho de 2023 – ganhas pelo Partido Popular sem que este tivesse encontrado forma de formar um governo – o chefe do executivo espanhol, que passou os últimos dois anos e meio a recusar marcar eleições antecipadas, marcou… eleições antecipadas – para 29 de novembro.
Uma fuga para a frente segundo alguns analistas, um golpe de mestre para outros. Para todos os efeitos, o socialista Pedro Sánchez conseguiu ‘roubar’ a iniciativa política ao Partido Popular e à extrema-direita do Vox – parceiros de coligação em diversas regiões de Espanha – transmitindo aos espanhóis a ideia de que é ele, o chefe do governo, quem lidera a agenda nacional. Mais importante ainda, Pedro Sánchez segue para eleições com um foco central na questão da habitação. Se tivesse cedido às exigências da direita em marcar eleições antecipadas, o foco seria muito diferente: a corrupção, fenómeno que chegou o mais perto possível do chefe do governo: a cama de casal.
Sánchez vai assim apresentar-se aos espanhóis como alguém a quem não deixaram fazer uma reforma essencial para a população, a da habitação, ao invés de passar a campanha eleitoral a defender-se dos casos de corrupção – dos que já transitaram em julgado, que estão em investigação, dos que criaram a perceção de impunidade da cúpula socialista e do que mais entretanto se descobrir. O primeiro-ministro surgirá não como um líder que não soube escolher os ‘compagnons de route’ e descuidou as suas andanças pela orla do poder, mas como alguém a quem o parlamento maldosamente impediu de fazer uma reforma essencial ao país. E isso pode fazer toda a diferença.
Sondagens desfavoráveis
Mas o caminho afigura-se muito difícil para o socialista. As sondagens mais recentes, publicadas esta segunda-feira, 5 de outubro – logo após o anúncio de Pedro Sánchez – indicam uma vantagem clara para o bloco de direita. O PP lidera confortavelmente todos os estudos sobre intenções de voto, com uma média de 33% a 34% – o que, de qualquer modo, não conferiria ao seu líder, o galego Alberto Núñez Feijóo, uma maioria absoluta (de 176 deputados).
Mais preocupante ainda, o PSOE de Pedro Sánchez surge em segundo lugar, registando uma queda significativa para cerca de 26% (uma perda de cerca de cinco pontos percentuais face às legislativas de 2023).
O Vox é para já apontado como o grande beneficiário do atual descontentamento político, subindo para cerca de 18% a 18,4% das intenções de voto (contra os 12,3% obtidos em 2023).
A esquerda do Sumar e do Podemos, que continua a demonstrar um elevado gosto pela fragmentação – sendo isso talvez um síndrome ibérico! – está também em queda acentuada, com o Sumar a rondar os 5,6% e o Podemos fixado entre os 2,7% e os 3%.
A única combinação matemática viável para formar um novo executivo seria uma coligação entre o PP e o Vox. Juntas, as duas forças serão capazes, dizem as sondagens, de ultrapassar a barreira da maioria absoluta no parlamento espanhol (de 350 lugares). É uma novidade: em julho de 2023, o PP obteve 136 deputados e o Vox conseguiu 33 – ou seja, juntos somaram apenas 169 lugares, num quadro político em que Feijóo tudo fez para bloquear uma eventual coligação, o que acabou por afastar os dois partidos.
Neste particular, o timing das eleições antecipadas também favorece Pedro Sánchez: o mês de novembro é demasiado próximo para a oposição interna ao líder galego, ‘adormecida’ mas existente – e protagonizada por Isabel Díaz Ayuso (presidente da Comunidade de Madrid desde agosto de 2019) – tentar uma troca de presidentes. O tema é importante, porque Díaz Ayuso é desfavorável à ‘cerca sanitária’ que o PP mantém em torno do Vox. Se fosse a madrilena a liderar o partido, os analistas estão convencidos de que não seria difícil uma coligação entre ambos.
Porquê eleições antecipadas
Neste jogo de sombras, o que parece menos importante – ou menos importante que o timing político – é o motivo das eleições antecipadas. Mas há um: no dia 2 de outubro, o Parlamento espanhol chumbou dois decretos-lei propostos pelo governo, que continham medidas de emergência para mitigar a crise no acesso à habitação. O chumbo contou com o voto contra de partidos da oposição e também do partido Junts per Catalunya, liderado pelo ‘foragido’ Carles Puigdemont, que continua a estar legalmente impedido de entrar em Espanha, correndo o risco de, se o fizer, ser imediatamente detido.
Embora o governo de Pedro Sánchez tenha aprovado uma Lei de Amnistia em 2024 para perdoar os separatistas envolvidos no referendo ilegal de 2017, os juízes conservadores do Supremo Tribunal de Espanha recusaram-se a aplicá-la ao caso específico de Puigdemont: o tribunal argumenta que o crime de peculato (apropriação indevida de fundos públicos para organizar o referendo) resultou num benefício pessoal e, por isso, não está coberto pelo perdão. Curiosamente, em agosto de 2024, Puigdemont chegou a entrar clandestinamente em Espanha, fez um discurso público de 15 minutos em Barcelona perante milhares de apoiantes e, de forma que os analistas disseram ser surpreendente, conseguiu escapar e regressar à Bélgica antes que a polícia o conseguisse capturar.
Mas convém recordar que o Tribunal Constitucional de Espanha tem agendada uma decisão sobre o recurso da amnistia: se decidir que o crime de peculato deve ser obrigatoriamente abrangido pela lei de 2024, o mandado de captura cairá e Puigdemont ficará finalmente livre para regressar do exílio. A expectativa do Junts é que tudo isso decorra a tempo de o exilado fazer um regresso triunfal à Catalunha precisamente no arranque da campanha eleitoral para as legislativas antecipadas de 29 de novembro.
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