Desarmados no meio da barbárie
É impossível esconder ou escamotear o clima de purga que impera em França neste momento. Observamos, praticamente em directo e sem edições, a um cenário aterrador de espancamentos e intimidações, de utilização generalizada de projécteis incendiários, de destruição de espaços públicos, sobretudo estabelecimentos escolares, e de agressões a centenas de agentes policiais e bombeiros. Mas por mais chocante que seja a natureza do terror a que assistimos, a indiferença parece persistir entre muitos europeus que ainda confiam que a normalidade é sempre reposta sem dificuldade e que todas as semanas são semanas de trabalho e de lazer sem ameaças à tranquilidade e conforto individuais.
Esta passividade explica-se, em parte, pelo excesso de confiança adquirido em décadas de paz, pois a paz prolongada produz uma espécie de desarmamento psicológico. Porém, além desse natural esquecimento do perigo, a passividade resulta mais da exposição dos europeus a um intensivo trabalho de doutrinação em várias frentes culturais e institucionais, pelo qual interiorizaram: que a força da Europa é o acolhimento de toda a diversidade; que devemos anular-nos em favor daquilo que é estrangeiro, vendo culturas exteriores através das suas virtudes ou do estatuto de vítima; e, por fim, que as instituições democráticas e o Estado Social iriam segurar continuamente em paz uma pluralidade étnica e cultural potencialmente explosiva.
A verdade é que a frágil tranquilidade cai por terra sempre que os benefícios sociais recuam, sempre que as reivindicações não são correspondidas e sempre que as novas maiorias demográficas se sentem confortáveis para fazer demonstrações de força. Onde surgem tais manifestações, ficam expostas as muitas fragilidades dos Estados europeus, seja em falta de meios, seja em falta de coesão e de vigor. Uma falta de vigor que resulta, em larga medida, da repetição incansável da ideia de que todos os povos teriam legitimidade para preservar a sua identidade, excepto os europeus, aos quais seria pedido que aceitassem a diluição da sua própria identidade.
Mas aqueles que não se encontram neste estado de entorpecimento moral conseguem olhar para o terror em França e destacar dois factos. Primeiro, o grau de agressividade patente nos tumultos é absolutamente desproporcionado face a qualquer suposta reivindicação por melhores condições nas escolas. Portanto, só os mais ingénuos se deixarão ludibriar por jornalistas de imaginação fértil, digamos assim, para não lhes atribuir intenções menos honrosas.
Segundo, mesmo em casos em que a violência seja motivada por reivindicações legítimas, não podemos tolerar este nível de violência indiscriminada contra pessoas e bens. Todos aqueles que desvalorizam a gravidade destes métodos bárbaros estão a pactuar com quem se une para bloquear, incendiar, ameaçar, agredir ou destruir, em suma, semear o caos. E assim se vai instalando impune a nova coreografia em que a violência de alguns é tolerada (assimetria moral) e os agredidos são esquecidos – veja-se, por exemplo, como os agentes policiais são os primeiros a sofrer o embate de uma investida massiva que fará colapsar várias estruturas dos Estados europeus.
Estamos desarmados perante quem agride, quem justifica as agressões com leveza e quem recua na repressão necessária, ou seja, estamos desarmados perante uma combinação politicamente explosiva.
A extrema-esquerda dispõe hoje de uma espécie de tropa de choque política, beneficiando, de um lado, da sua forte implantação em sectores do meio estudantil, onde consegue transformar rapidamente reivindicações em mobilização; do outro lado, aproveita a capacidade de encontrar eco junto de segmentos das populações de segunda e terceira geração de imigração, especialmente quando existem ressentimentos sociais, identitários ou territoriais susceptíveis de ser politizados. Estas duas forças fornecem combustível humano e político a quem prospera com a instabilidade e dela procura retirar legitimidade para soluções cada vez mais extremas.
O problema é agravado pela resposta dos partidos centristas, que oscilam entre a impreparação e o receio de enfrentar uma massa social potencialmente hostil, preferindo uma gestão branda, episódica e quase silenciosa de tensões que exigiriam autoridade, clareza e limites. Os mesmos do costume ficam expostos ao fogo cruzado, encurralados nos transportes, invadidos nas suas lojas e brutalmente agredidos, enquanto aqueles que governam conseguem atravessar incólumes as situações-limite. É precisamente essa assimetria de exposição ao perigo que torna tão grave a complacência perante a violência.
Não é admissível que quem tem o dever de restabelecer a ordem, trate com tanta imprudência aquilo que, para outros, significa medo, insegurança e perda de controlo sobre a sua própria vida. Lamentavelmente, aquilo que vemos, em França como em Ceuta, é que o silêncio das autoridades e dos meios de comunicação é usado como forma de gestão psicológica do caos, no sentido de desacreditar os factos e de quebrar a força dos cidadãos que despertam de um longo sono. Porém, a ferramenta dos silêncios tácticos está a fracassar em toda a linha, já que são cada vez mais numerosos os que se recusam a conviver com a coreografia da violência e do medo como novo normal em solo europeu.
Share this content:


Publicar comentário