João Marcelino: “Num mundo cada vez mais incerto, que lugar queremos que Portugal ocupe?”
“O Jornal Económico faz 10 anos e queremos aproveitar esta oportunidade para olhar Portugal, para o país que éramos em 2016, para o país que somos hoje e, sobretudo, para aquele que poderemos ser em 2036”. As palavras são de João Marcelino, diretor do Jornal Económico, e um dos oradores de abertura da conferência que assinala os 10 anos do Jornal Económico e que acontece na Alfândega do Porto. Assim, João Marcelino enumerou as principais transformações ocorridas em Portugal ao longo da última década. “O aniversário é o pretexto, mas Portugal é o tema. E a verdade é que o Portugal de 2016 era bastante diferente do Portugal de hoje. Há números que ajudam a perceber a dimensão desta mudança. Em 2016, a dívida pública representava mais de 130% do PIB. No final de 2025, tinha descido para 89,2%. O salário mínimo era de 530 euros, hoje é de 920”, sublinha.
A análise alarga-se dos indicadores económicos para o mercado de trabalho e, sobretudo, para as profundas alterações demográficas que marcaram Portugal na última década, com o aumento da população, da imigração e do envelhecimento. “A taxa de emprego passou de cerca de 51% para mais de 57%. E há uma mudança demográfica extraordinária. Em 2016, éramos 10,3 milhões. No final do ano passado, éramos já 11,4 milhões, mais 1,1 milhões de residentes. Hoje, cerca de 1,6 milhões de residentes em Portugal têm nacionalidade estrangeira, 14% da população. E ao mesmo tempo, continuámos a envelhecer. Passámos de 151 idosos por cada 100 jovens, para quase 189. Somos, portanto, um país muito mais marcado pela imigração e continuamos a envelhecer. São apenas meia dúzia de números, não contam toda a história, mas ajudam a perceber quanto Portugal mudou”, acrescenta o diretor do Jornal Económico.
A intervenção recupera também os protagonistas políticos que marcavam Portugal e o mundo em 2016. “E depois há tudo aquilo que os números não conseguem contar. Em 2016, Marcelo Rebelo Sousa iniciava o seu primeiro mandato como Presidente da República. António Costa cumpria os primeiros meses como Primeiro-Ministro. Barack Obama estava na Casa Branca, Angela Merkel governava a Alemanha e Mário Draghi presidia ao Banco Central Europeu. Parece que foi ontem e ao mesmo tempo, olhando para estes nomes, parece que estamos num outro mundo”, lembra.
A pandemia, a guerra na Ucrânia, a crise energética e a inflação são acontecimentos inesperados que transformaram a economia e a vida quotidiana. “Porque, entretanto, aconteceu quase tudo. Em 2020, uma pandemia parou o país e o mundo, parou a economia. Fechámos empresas, ruas, aeroportos, fronteiras. Durante meses fizemos coisas que pouco tempo antes consideraríamos inimagináveis. Quando começámos a recuperar, a Rússia invadiu a Ucrânia, a guerra regressou em grande escala à Europa, a energia disparou, a inflação voltou às nossas vidas e os juros subiram a uma velocidade que uma geração inteira praticamente desconhecia. Entretanto, chegou o PRR, com milhares de milhões de euros e uma promessa que ainda teremos de avaliar. Não apenas recuperar a economia, mas sobretudo transformá-la”, afirma João Marcelino.
Neste contexto há novos desafios, desde a instabilidade nos combustíveis à revolução provocada pela inteligência artificial, colocando a questão central da conferência: será que as mudanças da última década alteraram estruturalmente o país? “E chegámos a 2026 cheios de problemas, como o relacionado com os combustíveis e, portanto, outra mudança que talvez venha a ser o mais importante de todas, a revolução da inteligência artificial. Mudaram, portanto, os números, mudaram os protagonistas, mudaram as circunstâncias. A pergunta fundamental está relacionada, hoje, com o saber se mudou também estruturalmente o País”, explica o diretor do Jornal Económico.
A escolha do Porto para a celebração dos 10 anos do Jornal Económico valoriza o peso económico e empresarial da região. “Falar da economia portuguesa no Porto é falar de uma parte essencial do país, daquilo que Portugal produz, exporta, investe e inova. É falar de indústria e de empresas, de universidades e conhecimento, de uma região com uma fortíssima vocação exportadora e uma relação histórica com o mundo. E há também qualquer coisa de simbólica em escolher o Porto para falar do futuro. Estamos numa cidade que fez da abertura ao mundo, da iniciativa e do trabalho, uma parte da sua identidade”, afirma João Marcelino.
O foco da conferência passa também pelo papel que o Norte pode desempenhar no desenvolvimento futuro do país. “Por isso quisemos que o Porto e o Norte não estivessem representados apenas no local, neste magnífico edifício que escolhemos para esta conferência. Estão também nas pessoas, nas instituições, nos temas que vamos ouvir e discutir ao longo deste dia. Outra das perguntas que faremos esta tarde, resume bem esta intenção. Como pode o Norte ajudar o Portugal?”, refere João Marcelino.
A segunda metade da conferência é apresentada como uma mudança de perspetiva: depois de analisar a última década, importa olhar para os próximos dez anos. “Se a primeira metade desta conferência nos obriga a olhar para trás, a segunda e mais extensa é talvez mais importante: para onde vamos? Se estes últimos 10 anos nos ensinaram alguma coisa, foi precisamente que fazer previsões a 10 anos é um exercício de enorme risco. Quem, em 2016, teria previsto uma pandemia, uma guerra desta dimensão na Europa, o atual conflito do Golfo que balança o preço dos combustíveis ou a velocidade a que a inteligência artificial entraria nas nossas vidas? E, no entanto, temos de pensar o futuro”, esclarece.
O olhar sobre o futuro concretiza-se numa série de questões estratégicas que Portugal terá de enfrentar na próxima década: produtividade, salários, financiamento, demografia, saúde, habitação, tecnologia, investimento, talento e posicionamento internacional. “Como será Portugal em 2036? Como conseguiremos aumentar a produtividade e os salários? Como financiamos o nosso futuro? Como responderemos ao envelhecimento da população? Como enfrentamos o problema da saúde e da habitação? Como aproveitamos a revolução tecnológica em vez de sermos apenas consumidores dela? Como atraímos investimento e conseguimos repetir talento? E, num mundo cada vez mais incerto, que lugar queremos que Portugal ocupe? O que gostaríamos é de chegar ao fim deste dia e perceber um pouco melhor o País que construímos nestes dez anos e, sobretudo, aquilo que teremos de fazer nos próximos 10”, conclui João Marcelino, diretor do Jornal Económico.
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