CR7: uma marca de prestígio não se trata como as outras
Na tarde de 30 de Setembro, um português de 41 anos deixou o Estádio Parken, em Copenhaga, numa carrinha da Federação, horas depois, estava nas manchetes de Madrid, Paris e Milão. Nenhum outro português, nenhuma empresa, nenhum governante consegue isto numa só noite. A Federação Portuguesa de Futebol parece tê-lo esquecido!
Olho para o episódio como advogada e agente oficial da propriedade industrial, e a conclusão é tão triste quanto simples: Portugal tem uma marca de prestígio e está a tratá-la como uma marca qualquer.
No direito das marcas, nem todas são iguais. A lei portuguesa e a europeia dão às marcas de prestígio uma protecção reforçada, mesmo fora da sua área de actividade, contra quem as queira aproveitar, diluir ou desprestigiar e a razão é simples: o prestígio leva décadas a construir e pode perder-se num instante.
Ronaldo sabe-o desde o início da carreira e é um exemplo, tem um portefólio extenso de marcas «CRISTIANO RONALDO» e «CR7» registadas em Portugal, na União Europeia e no mundo.
Qualquer português que viaje conhece a cena: dizemos de onde somos e nem sempre sabem onde fica Portugal. Mas basta dizer «o país de Cristiano Ronaldo» e a resposta chega logo: «Ah, the best one!» É por ele que sabem quem somos, e não o contrário.
Os números confirmam-no: perto de 680 milhões de seguidores só no Instagram, 979 golos oficiais, o único jogador a marcar em seis Mundiais. O IPAM avalia a marca em 850 milhões de euros e nenhum orçamento de promoção externa pagaria a exposição que um só homem deu ao país.
Durante mais de vinte anos, Ronaldo foi o principal argumento comercial da Selecção, que fechou 2024/25 com receitas recorde, acima de 131 milhões de euros, os patrocinadores não pagam golos, pagam atenção.
«Não tenho um jogador, tenho 23 jogadores», disse Jorge Jesus, do ponto de vista futebolístico, tem razão mas do ponto de vista do país, salvo melhor opinião, está enganado. O princípio da igualdade nunca exigiu tratar tudo da mesma maneira: tratar como igual o que é diferente também é desigualdade.
Também Ronaldo não foi exemplar ao abandonar um estágio na véspera de um jogo. Mas é próprio da sua marca: tem personalidade, sabe o que quer e sabe o que vale. Ninguém pede que jogue por decreto, fá-lo por amor ao desporto e àquilo que faz e a Portugal. Pede-se que a Federação o gira como o Direito manda gerir uma marca de prestígio, e um símbolo nacional não se gere ao microfone nem por comunicados, mas não me parece que a Federação e a atual Direcção esteja à altura de uma marca como Cristiano Ronaldo e CR7 e o resultado está à vista.
O caminho é conhecido, não transformar o episódio num castigo exemplar: punir a maior marca do país seria ganhar a discussão e perder o activo.
Sentar Federação, Governo, treinador e jogador à mesma mesa, longe dos microfones, e preparar uma despedida à altura de mais de vinte anos de Selecção, com tempo. Dar-lhe já um papel de embaixador do Mundial de 2030. E construir a marca da Selecção para o pós-Ronaldo. Era tudo isto e é o que a Federação e Pedro Proença tem de fazer e já, mas não sabe.
Portugal tem o hábito antigo de só dar valor ao que tem quando o perde, como fez com Eusébio. Com Ronaldo, ainda vai a tempo, ou não. Deixemos os egos de lado, assumam responsabilidades e demonstremos ao Mundo que somos todos juntos grandes, e estamos à altura de uma marca Mundial como Cristiano Ronaldo, o nosso CR7. Temos de agir, e já!
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