Stresse custa 13,3 mil milhões de euros por ano às empresas portuguesas
Há um momento em que o cansaço deixa de ser apenas cansaço. A pessoa chega ao trabalho, senta-se à secretária, abre o computador, responde a emails, participa numa reunião. Está lá. Cumpre o horário. Mas demora mais tempo a fazer o que antes fazia depressa, perde a concentração, adia decisões, relê várias vezes a mesma página. No fim do dia, esteve oito horas no trabalho, mas não conseguiu dar o mesmo que daria noutras circunstâncias.
É este lado menos visível do problema que ajuda a explicar uma fatura que já chegou aos 13,3 mil milhões de euros por ano para as empresas portuguesas. O valor corresponde à perda de produtividade associada ao stress e aos problemas de saúde psicológica no trabalho e consta do novo relatório Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal, da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
A conta impressiona pela dimensão: são cerca de 36 milhões de euros por dia, ou 1,5 milhões de euros por hora, todos os dias do ano. Num único ano, a perda estimada equivale a cerca de uma vez e meia o investimento atualmente previsto para construir o novo Aeroporto de Lisboa Luís de Camões. Mas talvez o número mais revelador esteja noutro lugar.
O trabalhador que não falta
Em 2024, estima-se que cada trabalhador tenha perdido, em média, 13,5 dias de trabalho por ano devido ao stresse e a problemas de saúde psicológica. Até aqui, a conta é relativamente fácil de imaginar: são dias em que a pessoa não está no trabalho. Depois há os outros.
Aos 13,5 dias de absentismo juntam-se até 27 dias de presentismo. São dias em que o trabalhador está presente, mas trabalha com a produtividade afectada por problemas de saúde. No total, podem ser até 40,5 dias por trabalhador, num único ano, em que o stresse e os problemas de saúde psicológica afectam a capacidade de trabalhar.
Em 2020, eram estimados 6,2 dias de absentismo e 12,4 dias de presentismo. A diferença mostra a velocidade a que o problema cresceu. Dos 13,3 mil milhões de euros de perdas estimados para 2024, cerca de 4,4 mil milhões resultam do absentismo. Os restantes 8,9 mil milhões vêm do presentismo. Ou seja, aproximadamente dois terços da factura são gerados por pessoas que continuam a trabalhar.
É uma realidade menos visível e, talvez por isso, mais difícil de enfrentar. Uma ausência vê-se. Um trabalhador sentado diante do computador não.
Uma fatura que mais do que quadruplicou
A evolução dos últimos anos também é difícil de ignorar. Em 2020, a perda de produtividade estimada era de 3,2 mil milhões de euros. Em 2022, tinha subido para 5,3 mil milhões. Em 2024, chegou aos 13,3 mil milhões. Em quatro anos, o valor mais do que quadruplicou.
A fatura representa atualmente cerca de 2,1% de todo o volume de negócios anual das empresas portuguesas não financeiras. Corresponde também a aproximadamente 13,5% de toda a despesa anual destas empresas com salários e outros encargos sociais. Nas PME, o peso é ainda maior: cerca de 16,5%.
São também as pequenas e médias empresas que suportam a maior parcela da fatura. Do total estimado de 13,3 mil milhões de euros, cerca de 10,2 mil milhões dizem respeito às PME, contra aproximadamente 3,1 mil milhões nas grandes empresas. E a conta pode ser maior.
A estimativa da OPP abrange apenas empresas não financeiras, exclui a Administração Pública e considera apenas os custos indirectos associados ao absentismo e ao presentismo. Ficam, portanto, de fora outras consequências económicas e organizacionais dos problemas de saúde psicológica.
Quase 4 mil milhões que poderiam não ser perdidos
A boa notícia é que esta não é necessariamente uma fatura inevitável. Segundo o relatório, se medidas de promoção da saúde psicológica, prevenção e identificação precoce dos problemas conseguirem reduzir as perdas em pelo menos 30%, seria possível evitar perto de 4 mil milhões de euros por ano.
Há ainda outra conta. A evidência reunida no relatório cita estudos que apontam para cinco euros de retorno por cada euro investido em saúde psicológica. Em algumas intervenções, o retorno estimado ultrapassa os nove euros por cada euro investido. É por isso que, para a bastonária da OPP, Sofia Ramalho, a discussão já não pode ficar confinada à ideia de bem-estar no trabalho.
“Estes números mostram que não podemos continuar a tratar o stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho como um custo inevitável de trabalhar.” E acrescenta: “Estamos perante perdas humanas, organizacionais e económicas de uma dimensão que o país não pode ignorar. Sabemos que uma parte significativa destas perdas pode ser prevenida.”
Para Sofia Ramalho, a questão é também uma decisão de gestão: “Investir intencionalmente em locais de trabalho física e psicologicamente saudáveis, e promotores de bem-estar, é investir nas pessoas, mas é também uma decisão de gestão, de produtividade e de sustentabilidade.”
No fim, talvez os 13,3 mil milhões de euros sejam mais do que uma grandeza económica. São feitos de dias: 13,5 dias em que alguém não conseguiu ir trabalhar. Até 27 em que foi, mas não conseguiu estar verdadeiramente presente. Até 40,5 dias por trabalhador. E é precisamente aí que uma estatística deixa de ser apenas uma estatística: quando se percebe que, por trás dela, há alguém sentado diante de um computador, a tentar trabalhar, embora já não consiga fazê-lo como antes.
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