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Plano dos EUA para garantir minerais críticos ameaça fazer disparar os preços

Plano dos EUA para garantir minerais críticos ameaça fazer disparar os preços

Há uma ironia no centro da estratégia norte-americana para reduzir a dependência da China em minerais críticos: quanto mais depressa Washington tentar garantir matérias-primas para uma reserva estratégica, maior poderá ser a pressão sobre os preços pagos pelas empresas.
O alerta foi divulgado pelo “Financial Times”, que teve acesso a um relatório da Aerospace Industries Association (AIA). A associação, que representa empresas dos setores aeroespacial e de defesa dos Estados Unidos, considera que a administração norte-americana deve ter cautela na implementação do Project Vault, precisamente porque as compras do Governo podem acabar por competir com a indústria por minerais cuja oferta já é limitada.
A preocupação surge quando os Estados Unidos tentam acelerar a construção de uma cadeia de abastecimento alternativa à chinesa. A questão já não é apenas saber onde estão os minerais. É saber quem os consegue extrair, processar e transformar em componentes utilizáveis — e quanto terá de pagar por eles.
O Estado como novo comprador
O Project Vault foi criado para responder a uma vulnerabilidade que Washington considera estratégica: a dependência dos fornecedores estrangeiros de minerais indispensáveis à indústria, à tecnologia e à defesa.
O programa deverá mobilizar cerca de 12 mil milhões de dólares (10,4 mil milhões de euros). O Export-Import Bank of the United States (EXIM) prevê disponibilizar até 10 mil milhões de dólares (8,7 mil milhões de euros), enquanto o restante financiamento deverá vir de investidores privados.
A intenção é acumular matérias-primas estratégicas em território norte-americano para que possam ser libertadas em períodos de escassez ou de perturbação das cadeias internacionais de abastecimento.
A estratégia faz sentido do ponto de vista da segurança económica. Se uma crise internacional interromper o fornecimento de um mineral utilizado na produção de equipamento militar, semicondutores ou componentes industriais, uma reserva permite ganhar tempo.
Mas há um problema: para encher essa reserva, alguém terá de comprar os minerais.
E é justamente essa procura adicional que preocupa a indústria, segundo o FT. Se o Governo norte-americano comprar grandes volumes de materiais que também são procurados pelos fabricantes, pode contribuir para aumentar a competição e, consequentemente, os preços.
A dependência que Washington quer quebrar
O pano de fundo é a posição dominante da China em várias cadeias de minerais críticos. Pequim não controla apenas uma parte importante da extração de determinados materiais. Tem também uma posição particularmente forte nas fases de processamento e transformação, que são muitas vezes mais difíceis de substituir do que a própria exploração mineira.
Nos últimos anos, a China impôs restrições às exportações de vários minerais e produtos derivados, levando Washington e os seus aliados a procurar fornecedores alternativos.
O “Financial Times” chama a atenção para o tungsténio e para as terras raras utilizadas na produção de ímanes. São materiais com aplicações civis, mas também essenciais para a indústria de defesa.
A corrida para garantir fornecimento já está a acontecer.  A procura está, portanto, a chegar antes da oferta.
Mil milhões de dólares para começar
O Project Vault já começou a atrair grandes operadores internacionais de matérias-primas. Segundo o Center for Strategic and International Studies (CSIS), a Glencore e a Mercuria comprometeram-se conjuntamente com mil milhões de dólares (870 milhões de euros) para adquirir e armazenar minerais críticos através da VaultCo, a entidade criada para concretizar o programa.
A participação destas empresas é importante porque acrescenta ao projeto conhecimento e capacidade de negociação num mercado dominado por grandes operadores internacionais. O objetivo é que a reserva funcione como uma almofada em caso de choque. Se uma matéria-prima deixar de estar disponível no mercado, as empresas norte-americanas poderão recorrer aos materiais armazenados.
Mas uma reserva suficientemente grande para fazer diferença numa crise também precisa de ser suficientemente grande para ter impacto no mercado quando está a ser constituída. É esse equilíbrio que Washington terá agora de encontrar.
O défice começa muito antes da mina
A dificuldade norte-americana não se resolve simplesmente abrindo novas minas. Depois da extração, os minerais precisam de ser separados, refinados e transformados. Em alguns casos, têm ainda de passar por processos industriais especializados antes de poderem ser utilizados na produção de componentes.
É nesta área que a dependência dos Estados Unidos continua particularmente elevada. Uma análise da “Reuters”, publicada em julho, mostrou que a capacidade norte-americana está muito aquém das necessidades em alguns materiais. No caso dos ímanes de terras raras, a procura nos Estados Unidos rondava 48 mil toneladas em 2025, enquanto a produção doméstica era de apenas 300 toneladas. Mesmo que a capacidade chegue a cerca de cinco mil toneladas até ao final deste ano, continuará muito abaixo da procura.
A “Reuters” refere ainda que os Estados Unidos não produzem tungsténio desde 2015 e não produzem tântalo desde 1959. São exemplos de como a reconstrução de uma cadeia de abastecimento pode demorar muito mais tempo do que uma decisão política.
2027 é o prazo que está a apertar
A pressão aumenta porque Washington já definiu datas para reduzir a utilização de determinados componentes chineses na indústria de defesa.
Segundo o “Financial Times”, a AIA considera que as empresas ainda não estarão preparadas para cumprir integralmente as novas restrições que deverão entrar em vigor em 1 de janeiro de 2027, nomeadamente no que diz respeito a determinados ímanes de terras raras.
A consequência poderá ser uma nova vaga de pedidos de isenção por parte dos fabricantes.
O problema é que a substituição de um fornecedor não se faz apenas através de um contrato. No sector da defesa, novos materiais e componentes precisam de ser testados e aprovados antes de poderem ser utilizados em equipamentos militares.
A indústria teme, por isso, que a transição seja demasiado rápida para a capacidade atualmente instalada.
A “Reuters” chegou a uma conclusão semelhante numa investigação publicada em julho. Depois de consultar 16 executivos, investidores, analistas e responsáveis políticos, a agência concluiu que os Estados Unidos dificilmente conseguiriam eliminar rapidamente a dependência dos materiais chineses.
A alternativa está a ser construída, mas leva tempo
Washington está a tentar resolver o problema através de investimento público e privado em vários pontos da cadeia. Um exemplo é a Hertha Metals, empresa norte-americana que está a construir no Texas uma unidade para produzir ferro de elevada pureza utilizado no fabrico de ímanes de terras raras.
Segundo o “Financial Times”, a instalação deverá ter capacidade para produzir 10 mil toneladas por ano. A empresa prevê iniciar a produção de ferro para aço em 2027 e de material com qualidade adequada à produção de ímanes em 2028.
O Pentágono investiu 65 milhões de dólares (56,5 milhões de euros) no projeto, integrado numa ronda de financiamento de 133,65 milhões de dólares (116,2 milhões de euros). O investimento mostra que Washington está a tentar reconstruir a cadeia a partir de vários pontos, e não apenas através da abertura de minas.
Mas também evidencia o problema: uma fábrica que ainda está a ser construída hoje só terá capacidade relevante daqui a vários anos.
Entre a segurança e o preço
É neste intervalo de tempo que reside o maior risco para o Project Vault. Os Estados Unidos precisam de garantir matérias-primas para se protegerem de futuras crises. Ao mesmo tempo, precisam de assegurar que as empresas têm acesso aos minerais de que necessitam para continuar a produzir hoje.
Se o Governo comprar demasiado, pode pressionar os preços. Se comprar pouco, a reserva poderá não ser suficiente para cumprir o objetivo para que foi criada. E se as novas regras forem aplicadas demasiado depressa, a indústria poderá não ter fornecedores alternativos suficientes para substituir a China.
A questão deixou, por isso, de ser apenas geopolítica. Os minerais críticos estão a tornar-se uma questão de preço, de capacidade industrial e de poder de negociação.
Washington quer deixar de depender de Pequim. Para isso, está disposto a gastar milhares de milhões de dólares. Mas a construção de uma alternativa à China não se faz apenas com dinheiro: exige minas, fábricas, tecnologia, trabalhadores e tempo.
Até lá, a reserva criada para proteger a indústria norte-americana pode ter um efeito paradoxal: aumentar a procura pelos minerais que os Estados Unidos ainda não conseguem produzir em quantidade suficiente — e ajudar a torná-los mais caros.

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