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A criatividade enquanto antídoto para a acomodação

A criatividade enquanto antídoto para a acomodação

A 67.ª edição da ModaLisboa está em full speed. O Pátio da Galé, palco por excelência daquela que é a montra do design de moda em Portugal, recebe o primeiro desfile da marca Adolfo Domínguez às 18h00 de dia 9 de outubro, mas a sua relação com o nosso país já leva décadas. Há 32 anos abriu a sua primeira loja no estrangeiro e escolheu Lisboa para iniciar a sua internacionalização. Uma relação de proximidade, sim, mas também de afeto, que se tem traduzido em vendas expressivas, posicionando Portugal como segundo maior mercado da marca na União Europeia, depois de Espanha, e terceiro à escala internacional, onde o México lidera.
E se tudo começou há 50 anos, em Ourense, na Galiza, com um pequeno negócio de alfaiataria e confeção de camisas, o rumo assumido por Adolfo Domínguez apontou ao design de moda de autor. O jovem que estudou em Paris e ali viveu o Maio de 68, no regresso a casa tomou as rédeas da empresa familiar e deu-lhe asas. Entrou na bolsa espanhola, resistiu a um incêndio na sua principal fábrica, passou por uma oferta hostil surpresa da Cortefiel para adquirir 100% da Adolfo Domínguez (AD) e teve de recuar na expansão da marca em finais da década de 2000. Mas o homem que liderou a AD a tudo resistiu. A beleza foi sempre o seu lema. As peças que desenhou tinham inerente o poder de sedução. Pela elegância, pela estética minimalista, pela qualidade dos tecidos.
Uma nova era
Em 2017, a sua filha mais velha, Adriana Domínguez, assume a liderança. Uma nova era se inicia com a fusão das diferentes linhas numa única coleção. A Adolfo Domínguez volta a ser rentável e torna-se um caso de sucesso na recuperação de empresas. Adriana não fez uma revolução. Decidiu regressar à essência da marca. Imprimiu o seu estilo na presidência executiva. Inovou. Trouxe um olhar diferente e a sua experiência de vida. Com um percurso que é tudo menos óbvio. Aos 8 anos estava em Londres para ganhar mundo e competências linguísticas. Estudou representação no Lee Strasberg Theatre Institute, em Nova Iorque, e é membro do The Actors Studio. Mais tarde, fez Ciências Empresariais Internacionais pelo ICADE e CESEM (França) e um mestrado em Pensamento na Escuela Contemporánea de Humanidades de Madrid.
Devora livros. Aliás, “não conseguiria viver sem ler”, confessa durante a conversa com o JE, acabada de chegar de Paris, onde, além de apresentar a CROMA, a coleção que traz a Lisboa, também lançou o documentário “El eco de otras voces”, homenagem ao pai e ao seu percurso como estilista de moda. E começamos por aí, pela identidade da AD, muito autoral, para perceber como Adriana Domínguez define o seu estilo de liderança.
“Diria que não mudei como pessoa nos últimos nove anos, mas acho que mudei um pouco a forma como trabalho. Acredito no trabalho colaborativo. A inteligência de grupo é algo que prezo muito. Por isso, podemos dizer que esse é o meu estilo de liderança, mas também acho que tem algo a ver com o cérebro feminino. A comissão diretora da marca é composta essencialmente por mulheres, 85%. Existe uma sintonia”, explica Adriana Domínguez.
Acima de tudo, é uma pessoa que gosta de “resolver problemas ativamente numa sala.” Diz-nos que as reuniões de trabalho são pouco hierárquicas e que há muito brainstorming. “Qual é o problema? O que é preciso resolver? Temos 30 minutos! Vamos, ideias, ideias, ideias. Gosto muito de improvisação e também gosto muito de criatividade”, diz, sorridente. Uma vertente a que dá extrema importância e que já se traduziu em diversas iniciativas que hoje marcam o modus operandi da AD. Uma delas é o laboratório criativo Ágora.
Estagnar não é opção
“Para uma empresa que completa 50 anos, não há nada mais perigoso do que estagnar e fazer versões da mesma coisa. Na moda, isso não funciona. O Ágora é o antídoto da acomodação. É o que nos impede de ir ver o que todos fazem e quais são as tendências para fazer meras versões. Isso é fast fashion, não é assim que trabalhamos. A identidade importa.” E, claro, a criatividade, onde volta a colocar a tónica. “O laboratório permite que os designers sejam artistas. E tenham liberdade para criar.” Faz toda a diferença, afiança Adriana. Assim como o design intemporal e a durabilidade das peças de roupa. Isto, porque não há um perfil único de cliente Adolfo Domínguez. “Mas, no geral, diria que para 95% dos nossos clientes a sustentabilidade é um aspeto positivo. Outro totalmente diferente é se estão dispostas a pagar por isso.”
É verdade que a questão reputacional é relevante, diz, “mas a informação que temos é que os nossos clientes pagam pelo design e pela qualidade. É isso que valorizam.” Por isso a empresa se empenhou em obter a certificação B Corp. Mais do que um selo, representa um compromisso com um modelo de negócio mais justo, ético e sustentável.
E há mudanças a registar ao nível da procura? “Algo mudou nos últimos 10 anos. Especialmente no que respeita às mulheres jovens, que compram roupas de homem. Seja uma camisa ou um blazer, porque acham que fica muito trendy numa mulher. Mas, o mais interessante, é que também temos muitos homens que compram peças da coleção de mulher. E isso é um fenómeno muito recente, dos últimos 4 ou 5 anos.” Entre os jovens, refere, “as redes sociais tornaram a moda mais porosa a outras culturas. E isso é muito interessante de observar. As peças mais difíceis são as mais caras e são os clientes mais jovens quem as compra, porque valorizam a diferença. Daí que as peças mais criativas sejam as mais procuradas.”
Continuar a crescer é um objetivo. Mas não a qualquer custo. Com equilíbrio. Onde gostaria de ver a empresa daqui a 10 anos? – questionamos. “É muito difícil planear os próximos 10 anos, porque estamos a viver uma nova revolução industrial. A inteligência artificial (IA) ainda só está no início. Por isso, é fundamental que a empresa se adapte. Nos processos, temos um batalhão de pessoas focadas na IA, somos muito ativos. Tudo o que podemos fazer internamente estamos a fazer. E vamos continuar a fazer”, garante. Já é uma ferramenta imprescindível na AD, mas a isto Adriana Domínguez contrapõe a criação artística. “Acredito que as pessoas se vestem para se expressar.” Sem esquecer que “a beleza é plasticidade.” E que os valores partilhados importam. E muito. “Os clientes querem fazer parte de uma comunidade. Temos de ser o que dizemos ser. Temos de cruzar autenticidade e integridade com a história da empresa. Mas também com os processos e os materiais que usamos, pois só assim os clientes irão caminhar juntos com a marca. E embora não saiba hoje o que vai mudar – e muitas coisas irão mudar – sei que a importância de ter peças de roupa que duram 20 anos e que continuam a ser as nossas preferidas é a verdadeira essência da Adolfo Domínguez.”

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