CDP saúda mais verbas, mas inflação preocupa o desenvolvimento desportivo
A Confederação do Desporto de Portugal (CDP) saudou hoje o aumento da verba prevista para o setor na proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2027, mas alertou que pode não significar mais financiamento para o desenvolvimento desportivo.
“Saudamos o sinal político, mas não podemos confundir sinal com impacto real. O que importa é saber se existem melhores condições para as federações desenvolverem as modalidades, apoiarem os clubes, organizarem competições e garantirem oportunidades de prática desportiva. Sem um financiamento adequado e previsível, o crescimento anunciado pode não se traduzir numa melhoria efetiva das condições no terreno”, destacou Daniel Monteiro, citado em comunicado.
Na nota, o CDP mostra-se preocupado com “os números disponíveis”, evidenciando que as transferências correntes, “onde se incluem, entre outros, os principais apoios do IPDJ [Instituto Português do Desporto e Juventude] à atividade das federações desportivas, passam de 93,8 para 94,1 milhões de euros (ME)”.
Este aumento de cerca de 0,3% “fica bastante abaixo da inflação de 2,9% prevista pelo Governo”, podendo traduzir-se “numa perda de poder de compra do apoio direto às federações”, nota o organismo, que considera que este cenário é “particularmente preocupante perante as dificuldades do sistema desportivo em reter atletas ao longo da sua formação”.
O Desporto vai receber 76 ME do OE para 2027, mais 29,5% face à verba atribuída em 2026, segundo a proposta entregue na quinta-feira pelo Governo na Assembleia da República.
“Estamos a perder demasiados jovens pelo caminho. Temos de ir além do reforço sucessivo dos apoios à preparação olímpica e paralímpica, em que se concentram recursos num universo restrito, na ordem dos 150 a 200 atletas, que já beneficia de condições de preparação diferenciadas”, defendeu o presidente do CDP.
Para Daniel Monteiro, o alto rendimento começa muito antes das seleções nacionais, nomeadamente nos clubes, nas federações e nas condições proporcionadas aos atletas ao longo de todo o percurso desportivo.
“Preferimos fazer este alerta agora, antes que se consolide a ideia de que o aumento da dotação resolve, por si só, os problemas do Desporto português. Não basta anunciar mais verbas: é preciso garantir que chegam ao terreno e sustentam um desenvolvimento regular e estruturado das modalidades”, acrescentou.
De acordo com o presidente da CDP, isso exige “reforçar a capacidade das federações para alargar e diversificar os quadros competitivos – nacionais, regionais e locais – nos diferentes escalões etários, assegurar que existe espaço competitivo para todos os atletas desde a formação até aos seniores, independentemente do nível desportivo, e dar às seleções nacionais condições para competir internacionalmente”.
No comunicado, o organismo recorda que tem vindo a apresentar propostas concretas nesse sentido, sendo a mais relevante a criação de um Fundo de Desenvolvimento Desportivo, financiado por uma parcela das receitas do Imposto Especial sobre o Jogo Online, sem aumentar o imposto nem exigir uma dotação adicional do Orçamento do Estado.
O CDP reitera que este fundo permitiria canalizar diretamente para as federações cerca de 12 a 15 ME por ano, “cuja distribuição obedeceria a critérios claros, transparentes e exigentes, definidos pelo IPDJ”.
“Apelamos ao Governo e aos grupos parlamentares para que avaliem esta proposta e assumam um compromisso concreto com o desenvolvimento sustentável do desporto português”, conclui Daniel Monteiro.
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