Mercado de ações em alta mesmo com subida nas yields das obrigações
O mercado de ações tem reagido em alta à subida das obrigações soberanas quando estas têm batido máximos. A semana passada iniciou-se com o índice bolsista norte-americano Nasdaq a atingir um novo máximo um feito posteriormente alcançado também pelo S&P 500, que reúne a 500 maiores empresas dos Estados Unidos.
Apesar das diferenças entre os mercados bolsistas dos Estados Unidos e de Portugal, que vão desde as suas dimensões até aos setores que os dominam, esta onda positiva que contagia os índices norte-americanos acaba por gerar um ‘efeito de arrasto’ na bolsa portuguesa na medida em que melhora o sentimento de risco dos investidores, assinalaram os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE). Entre os índices norte-americanos é o Nasdaq que tem estado em mais evidência ao gerar um retorno positivo desde o início do ano de 17%, seguindo-se o S&P 500 com 13,2% e o Dow Jones com 5,8%. Já o índice português (PSI) já gerou uma rentabilidade de 10,8%, dados retirados por altura de fecho deste artigo. Estes retornos surgem numa altura em que as obrigações soberanas, em vários países, também atingem máximos. No caso das obrigações norte-americanas a 30 anos atingiram o nível mais alto desde 2007. As obrigações francesas a 10 anos estiveram no nível mais elevado desde 2009 e a 30 anos desde 2008. No caso das japonesas a 10 anos atingiram um máximo desde 1996 e as da Alemanha a 10 anos chegaram a estaram no nível mais alto em 15 anos.
Máximos nos Estados Unidos são sinal “muito relevante” nos mercados globais
O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, considera, ao JE, que os máximos atingidos pelo Nasdaq no decorrer desta semana, quando as yields soberanas continuam elevadas, é um sinal “muito relevante” para os mercados globais. “Tradicionalmente, yields [juro pago por deter algo] mais elevadas penalizam as ações de crescimento, sobretudo as tecnológicas, por aumentarem a taxa de desconto dos fluxos de caixa futuros. No entanto, o comportamento recente do Nasdaq sugere que os investidores estão, para já, a atribuir maior importância à robustez dos lucros, à adoção de inteligência artificial e à resiliência da economia dos Estados Unidos (EUA) do que ao impacto negativo das yields”, assinala.
O analista da XTB, João Cruz, salienta, ao JE, que os máximos atingidos pelo Nasdaq numa conjuntura em que as obrigações soberanas também se encontram em subida “demonstra a força inegável e a resiliência” do setor tecnológico, “impulsionado fundamentalmente pela megatendência” da inteligência artificial. “Os investidores estão dispostos a assumir risco na tecnologia norte-americana, mesmo com o mercado de dívida a oferecer alternativas de rendimento atrativas”, acrescenta.
O especialista de mercado na Freedom24, João Lampreia, diz, ao JE, que os máximos que estão a ser alcançados nas bolsas norte-americanas resultam do desempenho do setor tecnológico, que “continua a beneficiar do otimismo generalizado” em redor da IA e tem “conseguido ofuscar” os receios dos investidores em torno da subida generalizada das taxas de juro.
Impacto na bolsa portuguesa
Esta performance por parte do índice tecnológico norte-americano acaba por ter uma leitura “mais indireta” do que “imediata”, diz o head of trading do Banco Carregosa. O PSI [índice bolsista português] apresenta uma composição “muito distinta” do Nasdaq, estando “fortemente exposto” a setores como a banca, energia, utilities e telecomunicações. “Ainda assim, a subida do Nasdaq contribui para melhorar o sentimento de risco global, favorecendo fluxos para ações em geral e reduzindo o receio de uma desaceleração económica abrupta. Esta melhoria do sentimento ajuda a explicar porque o PSI acumula uma valorização superior a 14% em 2026, em linha com algumas das melhores praças europeias”, acrescenta.
Apesar deste contexto alerta que a subida das yields nas obrigações soberanas devem continuar a ser um fator que o investidor português “deve monitorizar atentamente”. O head of trading do Banco Carregosa salienta que a yield portuguesa a 10 anos encontra-se nos 3,9% [valor a 9 de outubro], com um spread face à Alemanha de 50 pontos base (pb), “permanecendo relativamente controlado” quando comparado com França (137 pb) ou Itália (108 pb). “Isto sugere que os investidores continuam a encarar a dívida portuguesa como um risco soberano relativamente estável dentro da periferia europeia. Consequentemente, o aumento das yields não tem sido acompanhado por um alargamento significativo do prémio de risco português, o que reduz a pressão sobre as ações nacionais”, explica.
A composição do PSI é outro fator que ajuda a explicar esta “resistência”. Setores como a banca “tendem a beneficiar” de taxas de juro “estruturalmente mais elevadas através de maiores margens financeiras”. O BCP acumula uma valorização de mais de 24% este ano [dados retirados durante a sessão de 9 de outubro], enquanto a Galp sobe mais de 51%, suportada por fatores específicos do setor energético, refere o analista do Banco Carregosa. Por outro lado empresas mais sensíveis à evolução das taxas de juro, como utilities e renováveis, “têm apresentado desempenhos mais moderados, refletindo o impacto de um custo de capital mais elevado”.
João Cruz assinala que a correlação direta entre o PSI e o Nasdaq é “estruturalmente baixa”, não só pela ausência de empresas tecnológicas de peso no país, mas sobretudo pela “disparidade” de dimensão face à respetiva economia. “Para termos uma ordem de grandeza, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos ronda atualmente os 32,5 biliões de dólares (escala europeia), ou 28,9 biliões de euros. Apenas o índice Nasdaq alcançou recentemente uma capitalização bolsista superior a 35 biliões de dólares (31,2 biliões de euros), ou seja, o índice tecnológico, por si só, vale hoje mais do que toda a produção real da economia norte-americana num ano”, descreve. “Em contraste absoluto, a economia portuguesa tem um PIB na ordem dos 346 mil milhões de dólares (ou 308,5 mil milhões de euros). Já o PSI, em 2025, aumentou a capitalização bolsista para 82,4 mil milhões de euros. Isto significa que o mercado de capitais português representa menos de 25% do nosso PIB nacional, refletindo uma economia tradicional, focada no valor, com menor maturidade financeira”, acrescenta.
Por este motivo, para o PSI, o impacto dos máximos do Nasdaq “serve apenas como um suporte indireto” ao sentimento positivo global (o chamado risk-on), mas “não gera um contágio direto de subidas”.
O analista da Freedom 24 assinala que o mercado europeu apresenta uma “realidade perfeitamente distinta” no que concerne ao superciclo do investimento em inteligência artificial (IA), e o mercado português oferece uma “dinâmica semelhante”, assinala. “Na realidade, tanto o PSI como o Stoxx 600 [índice europeu que reúne as 600 maiores empresas] apresentam quedas recentes superiores a cinco pontos percentuais (p.p.) desde os últimos máximos relativos, uma vez que acabam por refletir dinâmicas de crescimento mais minguantes em relação aos pares norte-americanos e, por outro lado, revelam uma vulnerabilidade adicional face ao choque energético vigente”, refere o analista.
João Lampreia acrescenta que os mercados acionistas europeus e, em particular, o português já “começaram a descontar” esse “crescente pessimismo” em relação à “trajetória crescente e inapelável” das taxas de juro nos Estados Unidos, mas acreditamos que os mercados acionistas europeus e norte-americano (sobretudo ex-Tech) “deverão retomar níveis de correlação positiva” no curto prazo.
Para o investidor nacional (português), o “principal racional” é que o mercado está a transmitir dois sinais aparentemente contraditórios, mas compatíveis entre si, diz o head of trading do Banco Carregosa: “Por um lado, as yields elevadas indiciam que os bancos centrais deverão manter uma postura cautelosa e que o custo do dinheiro continuará relativamente alto; por outro, os máximos do Nasdaq mostram que os investidores continuam a perspetivar robusto crescimento económico e muito benigna expansão dos resultados empresariais (calendário de resultados do terceiro trimestre inicia na próxima semana com os Estados Unidos)”. Para João Queiroz enquanto esta combinação persistir, o PSI “poderia continuar a beneficiar” do apetite global por risco, embora com uma liderança setorial diferente da observada nos Estados Unidos, mais centrada em bancos, energia e empresas de distribuição do que em tecnologia.
O analista da XTB considera que em termos de impacto para o investidor português, dos máximos do Nasdaq, o caso muda de figura. “O perfil do investidor nacional evoluiu significativamente e está cada vez mais globalizado. Nota-se que os investidores portugueses já não restringem as suas carteiras às empresas cotadas na Bolsa de Lisboa, mas são também atraídos pelos sucessivos recordes do mercado tecnológico à escala global”, explica. “Estes sinais de Wall Street atraem e incentivam o investidor nacional à diversificação internacional, seja através da exposição direta a ações ou via external traded funds, ou ETF, [que replicam a performance por exemplo de índices bolsistas], procurando capturar o crescimento que o nosso mercado doméstico, dadas as suas limitações estruturais de escala, não consegue oferecer”, acrescenta.
“Em síntese, os novos máximos do Nasdaq não significam necessariamente que o PSI seguirá o mesmo ritmo de valorização, mas constituem um sinal positivo para o mercado português”, salienta João Queiroz. “Mais importante do que o nível absoluto das yields será acompanhar se os spreads (ou diferenciais de yields) soberanos europeus permanecem controlados. Enquanto Portugal mantiver um diferencial relativamente contido face à Alemanha e o crescimento económico global continuar a suportar os lucros empresariais, o impacto líquido para o investidor português tende a ser favorável, apesar do contexto de elevadas taxas de juro”, sublinha.
Analista alerta que ações podem não ter muito mais upside se yields continuarem a subir
João Lampreia alerta que o mercado de ações pode sofrer caso se mantenha a tendência de subidas nas yields das obrigações. “A yield das obrigações a 10 anos nos Estados Unidos já ultrapassou os 5,30% e a yield a 30 anos superou já os 5,70%, o que consideramos serem níveis importantes que podem alterar as correlações vigentes entre os mercados de ações e obrigações. Com efeito, o patamar entre 5,25% e 5,50% para as taxas de juro nos Estados Unidos tende a marcar o regresso da correlação negativa tradicional que caracteriza estas duas classes de ativos, pelo que dificilmente o mercado de ações poderá ter muito mais upside no curto prazo, caso a subida das yields não inverta de rumo num futuro próximo – tendo em conta a deterioração dos prémios de risco e o agravamento das condições de financiamento da economia”, explica.
“Estamos em crer que, muito dificilmente, tanto a Reserva Federal norte-americana (Fed) como o Banco Central Europeu (BCE) poderão elevar as taxas de juro, no atual ciclo monetário restritivo, na magnitude que o mercado desconta, pelo que o sinal mais importante passa por perceber até quando e/ou quanto mais podem as taxas de juro de mercado nos Estados Unidos continuar a subir até que esse efeito leve, inevitavelmente, a um impacto mais negativo sobre toda a atividade económica”, afirma.
Nota: Os comentários dos analistas consultados pelo JE ocorreram numa altura em que só o Nasdaq tinha batido um máximo.
Share this content:



Publicar comentário