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GoPro perde mercado para duas rivais chinesas

GoPro perde mercado para duas rivais chinesas

A GoPro chegou a valer milhares de milhões de dólares e tornou-se sinónimo de câmaras de ação. Hoje, enfrenta uma crise profunda, enquanto duas empresas chinesas disputam a liderança mundial de um mercado que ajudaram a transformar. A DJI e a Insta360, ambas sediadas em Shenzhen, na China, representaram, em conjunto, 93% das câmaras inteligentes portáteis vendidas mundialmente no segundo trimestre de 2026, segundo dados da consultora IDC divulgados pela publicação especializada TechNode.
A DJI concentrou 73% do mercado e a Insta360 ficou com 20%, deixando apenas uma pequena parcela para os restantes fabricantes. Os números incluem câmaras de ação, equipamentos panorâmicos de 360 graus e câmaras com estabilização de imagem, utilizadas sobretudo por criadores de conteúdos, viajantes e praticantes de desportos. Foi o Financial Times que deu destaque à disputa entre as duas empresas, num artigo publicado a 10 de outubro, sublinhando como a perda de influência da GoPro abriu espaço à ascensão dos concorrentes chineses.
A dimensão da mudança é evidente quando se olha para a antiga líder do setor. Segundo o FT, a GoPro, que ainda em 2023 era a maior vendedora de câmaras de ação em receitas, segundo a consultora Frost & Sullivan, tinha apenas 3% do mercado mundial de câmaras inteligentes portáteis no segundo trimestre deste ano. A empresa, que popularizou as pequenas câmaras resistentes utilizadas em atividades desportivas e ao ar livre, não conseguiu acompanhar a velocidade de desenvolvimento dos produtos chineses.
Em setembro, a GoPro acordou vender uma participação de 90% à norte-americana Starman Optical, por 285 milhões de dólares, cerca de 245 milhões de euros. A operação, anunciada pela própria empresa e noticiada pela Reuters, pretende aliviar a pressão financeira sobre a fabricante, que acumulava cerca de 92 milhões de dólares de dívida. O negócio contrasta com a avaliação de quase 12 mil milhões de dólares que a empresa chegou a atingir em 2014, segundo o FT.
Uma rivalidade que já ultrapassa as câmaras
A DJI construiu a sua posição internacional sobretudo através dos drones, mas expandiu-se para as câmaras portáteis e para equipamentos de filmagem estabilizada. A Insta360 seguiu o percurso inverso: ganhou notoriedade com câmaras capazes de captar imagens em todas as direções e procura agora alargar a oferta a outros segmentos, incluindo os drones.
Esta aproximação está a transformar duas empresas que nasceram no mesmo polo tecnológico chinês em concorrentes diretas. De acordo com o Financial Times, ambas avançaram com processos judiciais nos Estados Unidos, acusando-se mutuamente de violação de patentes relacionadas com equipamentos de imagem.
A rivalidade também se manifesta na procura de novos mercados. A DJI tem investido em câmaras, acessórios e programas de edição e entrou recentemente no segmento dos aspiradores robotizados. A empresa procura, assim, diversificar as fontes de receita, numa altura em que enfrenta restrições regulatórias nos Estados Unidos relacionadas com os seus drones.
A Insta360, por seu lado, está a reforçar a presença comercial norte-americana. Segundo a publicação Rest of World, a empresa inaugurou em setembro a sua primeira loja emblemática em Nova Iorque, numa aposta dirigida a criadores de conteúdos, viajantes e consumidores interessados em equipamentos para filmar atividades quotidianas. A publicação salienta que a empresa poderá beneficiar das limitações impostas à entrada de novos produtos da DJI no mercado norte-americano.
Mais inovação, sem guerra de preços
A capacidade de lançar produtos com rapidez é uma das principais vantagens competitivas das duas fabricantes chinesas. O responsável de investigação da IDC citado pelo FT, Jacky Xue, atribui parte do declínio da GoPro à lentidão na atualização dos equipamentos, que permitiu à DJI e à Insta360 aproveitar novas oportunidades de mercado.
Apesar da concorrência intensa, as empresas não estão necessariamente a apostar em preços cada vez mais baixos. Segundo os dados da IDC citados pelo FT, o preço médio de uma câmara inteligente portátil manteve-se próximo dos 380 dólares desde 2024. Max Richter, vice-presidente da Insta360, afirmou ao jornal britânico que a empresa pretende conquistar a liderança através do lançamento rápido de novos produtos, em vez de entrar numa guerra de preços com a rival, que beneficia de uma maior escala.
A disputa entre a DJI e a Insta360 ilustra, assim, uma mudança mais ampla na indústria tecnológica: empresas chinesas estão a conquistar mercados internacionais através da combinação de capacidade de engenharia, desenvolvimento rápido de produtos e concorrência intensa no mercado interno.
Para a GoPro, o desafio é recuperar relevância num segmento que ajudou a desenvolver, mas onde já deixou de ditar as regras. Para as duas rivais chinesas, a questão é saber qual conseguirá transformar a atual liderança conjunta numa vantagem duradoura — sem deixar que a concorrência entre ambas comprometa a rentabilidade.

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