Venda maciça de obrigações na zona euro não reflete deterioração de crédito generalizada, diz Morningstar DBRS
A forte subida das rendibilidades das obrigações soberanas da zona euro registada em setembro reflete uma mudança nas dinâmicas de mercado e forças globais, e não uma deterioração generalizada nos fundamentos de crédito dos países da região, segundo uma nota emitida esta terça-feira pela agência de classificação de risco Morningstar DBRS.
A vaga de vendas de dívida pública europeia levou a taxa de juro das Bunds alemãs a 10 anos a subir 22 pontos base entre 1 de setembro e 1 de outubro, atingindo os 3,56%. No mesmo período, a rendibilidade do título francês equivalente escalou mais de 70 pontos base para os 4,92%, enquanto países como Espanha e Portugal viram aumentos de cerca de 35 pontos base, e Bélgica, Itália e Grécia registaram subidas na ordem dos 55 pontos base.
Segundo a DBRS, este movimento generalizado de reavaliação de ativos é impulsionado em grande parte por fatores internacionais, incluindo o aumento das taxas de juro reais neutras a nível mundial e a persistência de incertezas geopolíticas e inflacionistas, associadas à volatilidade dos preços da energia, que exigem um prémio de risco mais elevado por parte dos investidores. Além disso, a forte emissão global de dívida por parte de governos e empresas, nomeadamente para financiar investimentos em infraestruturas e inteligência artificial, intensificou a concorrência pelo capital no mercado de rendimento fixo.
A evolução do mercado norte-americano também exerceu pressão sobre os títulos europeus, com o rendimento das obrigações do Tesouro dos EUA a 10 anos a subir 44 pontos base para os 5,23% no final de setembro.
No plano europeu, o alargamento do diferencial de rendibilidade (spread) em relação à Alemanha manifestou-se com maior intensidade em países com posições orçamentais mais frágeis, elevados níveis de endividamento e incerteza política. O caso mais emblemático é o da França, onde o spread face às obrigações alemãs mais do que duplicou desde junho, impulsionado pelas dificuldades em promover a consolidação orçamental e pela perspetiva de fragmentação política nas próximas eleições.
Outro fator determinante para o aumento da volatilidade é a mudança estrutural na base de investidores. Com a redução do balanço do Banco Central Europeu (BCE) no âmbito do aperto quantitativo (Quantitative Tightening), o mercado passou a ser dominado por investidores privados não bancários, como fundos de cobertura (hedge funds) e gestoras de ativos, que são consideravelmente mais sensíveis ao preço e a riscos fiscais ou políticos.
Apesar do aumento dos custos de financiamento, a agência sublinha que não existem sinais de stresse de liquidez ou dificuldades de acesso aos mercados por parte dos emissores soberanos da Zona Euro. A DBRS acrescenta que uma subida rápida nas taxas de juro não constitui, por si só, um fator imediato para a revisão em baixa das cotações de crédito, a menos que os custos mais elevados persistam e venham a deteriorar materialmente a sustentabilidade da dívida a longo prazo.
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