A carregar agora

Nadim Habib: “Sabemos mudar o suficiente para não ter de mudar nada”

Nadim Habib: “Sabemos mudar o suficiente para não ter de mudar nada”

Portugal tem um talento especial para mudar sem que nada mude verdadeiramente. É, pelo menos, a convicção de Nadim Habib, professor da Nova SBE, que considera que o país precisa de trocar as pequenas medidas de circunstância por uma estratégia de longo prazo. Caso contrário, arrisca-se a continuar a trabalhar mais, a gastar mais e a complicar mais, sem conseguir sair do mesmo lugar. “Nós sabemos mudar o suficiente para não ter de mudar nada”, resume.
A reflexão surgiu na conferência promovida pelo Jornal Económico e pela EY, dedicada ao Orçamento do Estado, mas podia aplicar-se a praticamente todos os setores da economia portuguesa. Para o economista, o problema começa precisamente na forma como o país discute as contas públicas: em vez de definir primeiro onde quer chegar, procura no orçamento pistas sobre a estratégia que deveria ter sido estabelecida antes.
“Eu gostava que um dia vocês organizassem um debate sobre a estratégia do Estado. Para depois vermos se o orçamento reflete  ou não esta estratégia”, defendeu. É que discutir se se deve baixar o IVA da gasolina pode ser importante, mas não substitui a pergunta essencial: que economia queremos construir e como vamos lá chegar?
O risco, avisou, é passar os anos a minimizar danos, em vez de preparar o futuro. Portugal, como boa parte da Europa, parece ter-se habituado a fazer pequenas alterações para evitar as grandes transformações. O resultado é um sistema cada vez mais complexo, que exige mais investimento, mais trabalho e mais energia apenas para continuar a funcionar como antes.
“Para mudar, para melhorar, é preciso simplificar”, afirmou. Mas simplificar exige, antes de mais, saber o que se quer mudar. Construir mais casas, atribuir subsídios ou alterar impostos são medidas que podem responder a problemas imediatos. Não chegam, porém, para definir que modelo de habitação, de economia ou de Estado será necessário daqui a dez anos.
Na saúde, mais horas extraordinárias não fazem uma reforma
O Serviço Nacional de Saúde é, para Nadim Habib, um exemplo particularmente elucidativo da dificuldade em transformar modelos antigos para responder a necessidades novas. A evolução científica permitiu converter doenças que antes eram fatais em doenças crónicas. Hoje, é possível viver décadas com diabetes, hipertensão ou algumas doenças oncológicas. É uma enorme conquista da medicina, mas também implica mais acompanhamento e mais intervenções ao longo da vida.
Segundo o professor, quando uma doença aguda passa a ser crónica, as necessidades de contacto com o sistema de saúde podem multiplicar-se várias vezes. Continuar a organizar os cuidados de saúde como se a realidade fosse a mesma de há décadas significa, portanto, exigir cada vez mais recursos a um modelo que não foi concebido para essa procura.
A resposta portuguesa, ironizou, tem sido inventar soluções que adiam a transformação. Primeiro, as horas extraordinárias. Depois, mais medidas para recuperar listas de espera. A seguir, cirurgias ao domingo. Cada iniciativa permite ganhar algum tempo, mas não resolve necessariamente o problema de fundo. “Assim, eu posso mudar o suficiente para não ter de mudar durante três anos”, observou, numa crítica à sucessão de remendos que se tornam parte da própria gestão do sistema.
Habib foi ainda mais longe ao recordar a polémica em torno dos “rendimentos extra” de alguns médicos. Na sua perspetiva, é contraditório criar condições para que determinadas situações aconteçam e, mais tarde, tratar os profissionais como se fossem os únicos responsáveis pelo resultado. E acrescentou, com ironia, que agora parece bastar contratar um juiz para perseguir a corrupção, como se essa fosse a explicação para todas as falhas.
O problema, insistiu, é estrutural. “O modelo de entrega de saúde foi desenhado para uma população que não existe, para uma ciência que não existe e para um orçamento que não existe.” A frase resume a sua crítica: não basta pedir mais esforço aos profissionais quando as necessidades mudaram e o sistema continua a funcionar segundo regras antigas.
As PME têm de crescer, não apenas sobreviver
Nas pequenas e médias empresas, o diagnóstico não é muito diferente. Para Habib, uma empresa deve ser construída para crescer, gerar riqueza, aumentar salários e criar carreiras. Caso contrário, corre o risco de ser apenas um emprego por conta própria, com todas as responsabilidades de uma empresa e poucas das vantagens de um negócio capaz de ganhar escala.
Em Portugal e na Europa, argumentou, os incentivos fiscais e a forma como os negócios são organizados podem favorecer a criação de empresas destinadas sobretudo a optimizar custos, em vez de desenvolver modelos com capacidade para crescer.
Por isso, se entrasse amanhã numa PME, a primeira pergunta que faria seria direta: como é que a empresa pretende triplicar as receitas em cinco anos e duplicar os salários em três?
Não se trata de uma meta que todas as empresas possam cumprir nas mesmas condições, mas de uma maneira de obrigar os gestores a pensar para lá da sobrevivência quotidiana. Se não existir uma ideia clara de crescimento, o empresário pode passar a vida a trabalhar cada vez mais horas, sem conseguir aumentar a dimensão do negócio.“Se assim for, esse empresário vai correr como nem um maluco para ficar no mesmo sítio”, brincou. Depois, quando a empresa precisar de ajuda, o problema será apresentado como uma falha do Estado, embora possa ter começado num modelo de negócio sem capacidade para crescer.
Para o professor, a dinâmica de crescimento é essencial porque cria riqueza, emprego e oportunidades profissionais. O desafio passa, por isso, por criar condições para que as empresas com bons modelos de negócio cresçam e para que as que não conseguem competir não sobrevivam indefinidamente à custa de apoios.
Habib defendeu também mercados de trabalho mais dinâmicos, nos quais os trabalhadores tenham maior liberdade para mudar de emprego e as empresas possam competir pelo talento. Se as competências escasseiam, os salários deveriam refletir essa realidade. Mas, para que isso aconteça, é necessário que o mercado funcione melhor.
Comprar tecnologia é mais fácil do que mudar a maneira de trabalhar
Se há uma área em que a falta de transformação pode tornar-se particularmente dispendiosa, é a tecnologia. Nadim Habib não acredita que a simples introdução de novas ferramentas seja suficiente para aumentar a produtividade. O problema é que muitas organizações compram tecnologia para fazer exatamente as mesmas coisas que já faziam, acrescentando tarefas, informação e custos ao processo.
O exemplo que deu sobre a sua própria experiência académica ajuda a perceber a ideia. Quando a faculdade passou a disponibilizar correio electrónico a todos os alunos, o professor começou a receber cada vez mais mensagens. Com cerca de dois mil alunos por ano, a caixa de entrada depressa se transformou numa fonte de trabalho adicional.
Entre as mensagens, havia perguntas tão simples como saber se haveria aula naquela semana. Habib começou a gastar cerca de duas horas por semana a responder a e-mails. Quando lhe pediram para dar mais uma cadeira, a resposta foi que não tinha tempo.
A tecnologia que deveria facilitar o trabalho tinha acabado por consumir parte da capacidade disponível. Em vez de libertar tempo, criara uma nova tarefa e contribuíra para a sensação de que eram necessários mais recursos.
A solução foi alterar as regras. O professor passou a dizer aos alunos que podiam enviar e-mails, mas que, se não recebessem resposta no prazo de 24 horas, provavelmente não deveriam ter enviado aquela mensagem.
A inteligência artificial pode, na sua perspetiva, reproduzir o mesmo problema em maior escala. Se escrever um relatório passar a ser mais fácil, isso não significa que as empresas vão produzir menos relatórios. Podem simplesmente começar a produzir documentos mais longos e em maior quantidade. “Em vez de enviar um relatório de uma página, vão enviar um de 80”, ironizou.
A questão, explicou, é perceber para que serve a informação. Se o objetivo é facilitar a tomada de decisões, produzir mais documentos sem melhorar essas decisões não representa um ganho de produtividade. É apenas mais trabalho, agora feito com ferramentas mais modernas.
É aqui que Habib distingue gestão de liderança. “Gestão é uma questão de optimizar o existente. Liderança é conseguir transformar o modelo para gerar mais valor.”
Na sua leitura, a Europa tem uma deficiência de liderança precisamente porque continua a tentar optimizar estruturas que precisam de ser repensadas. A tecnologia pode ajudar, mas só se vier acompanhada de uma transformação da forma como as organizações trabalham.
A produtividade não se mede pelo cansaço
O professor deixou também um aviso sobre uma das palavras mais repetidas no debate económico: produtividade. O conceito é frequentemente confundido com trabalhar mais, quando o essencial é produzir mais valor com os recursos disponíveis.
Uma das formas de avaliar a produtividade de uma empresa é olhar para a receita gerada por hora de trabalho e relacioná-la com o custo da mão-de-obra por hora. No entanto, contou Habib, há empresas que lhe dizem ter um problema de produtividade sem conseguirem indicar qual é o seu valor. “Às vezes as empresas dizem-me: ‘Nadim, nós temos um problema de produtividade’. Qual é o valor? Eles não sabem”, relatou.
Sem medir, é difícil perceber onde está o problema e o que deve ser alterado. E sem mudar os modelos de negócio, a tecnologia e a organização do trabalho, torna-se improvável que os ganhos de eficiência se traduzam numa melhoria sustentada dos salários e das condições de vida.
O economista chamou ainda a atenção para a evolução da produtividade na Europa, que considera preocupante. Na sua análise, o crescimento da produtividade abrandou significativamente ao longo das últimas décadas, apesar de as empresas disporem de melhores tecnologias e os trabalhadores terem, em geral, mais qualificações.
Na entrevista, Habib referiu que o crescimento da produtividade europeia passou de cerca de 7% ao ano, em 1970, para aproximadamente 0,5% atualmente. Estes valores devem ser entendidos como parte do diagnóstico apresentado pelo professor, sendo necessária a confirmação da série estatística e da métrica utilizadas para os publicar como dados comparáveis.
Nos Estados Unidos, o problema assume outra forma. Habib considera que uma parte muito significativa dos ganhos de produtividade tem beneficiado o capital, em vez de se traduzir em melhores rendimentos para os trabalhadores, agravando as desigualdades. A afirmação de que 80% desses ganhos são absorvidos pelo capital foi apresentada pelo professor e deverá ser confirmada antes de ser utilizada como dado estatístico estabelecido.
Na Europa, pelo contrário, o desafio é conseguir gerar esses ganhos. Enquanto isso não acontecer, os governos arriscam-se a tentar compensar os cidadãos para que continuem a aguentar as dificuldades, sem resolver as causas do problema.
O Estado precisa de escolher o que quer ser
A transformação, defendeu, não pode ficar limitada às empresas. O próprio Estado precisa de rever o seu modelo de funcionamento, concebido para uma realidade muito diferente da atual.
Habib considera que a dimensão da administração pública deveria constituir uma vantagem, permitindo reunir recursos e competências. Mas, quando as organizações públicas usam a sua dimensão como justificação para a lentidão, essa vantagem transforma-se num problema.
“Se a rapidez é crítica, então a vossa dimensão é um problema. Precisamos de ser pequenos”, disse, ao defender que é necessário repensar a forma como os serviços públicos estão organizados.
Também o papel do Governo merece, na sua perspectiva, uma reflexão mais profunda. Em vez de assumir todas as funções executivas e procurar resolver diretamente cada problema, deveria concentrar-se na definição de uma visão para o país, com um horizonte de cinco a dez anos, e garantir que os orçamentos contribuem para a concretizar.
O desafio torna-se ainda mais evidente quando se cruzam objetivos potencialmente contraditórios. Habib deu o exemplo do combate à corrupção e da necessidade de acelerar o investimento: aumentar os controlos pode reduzir determinados riscos, mas também acrescentar burocracia e atrasar decisões. Facilitar procedimentos pode acelerar projectos, mas exige outros mecanismos de fiscalização.
“Escolhe”, resumiu, criticando um sistema político que, na sua leitura, procura satisfazer todos os objectivos sem assumir claramente as escolhas necessárias.
A entrada no euro também alterou as condições em que Portugal pode actuar. O país ganhou acesso a um mercado mais amplo, mas deixou de controlar a sua própria moeda e passou a ter menos margem para recorrer a determinados instrumentos de política económica. Por isso, considera que o aumento da produtividade e a reforma do Estado são ainda mais importantes.
O fim do Plano de Recuperação e Resiliência deverá, assim, levar a uma discussão sobre as mudanças necessárias para aumentar a capacidade produtiva do país, em vez de se limitar a avaliar o destino dos fundos. Habib reconheceu aspetos positivos no Orçamento do Estado, nomeadamente as medidas destinadas a incentivar o investimento e a libertar rendimento para o consumo, mas considera que serão insuficientes sem reformas mais profundas.
Essas mudanças, acrescentou, não dizem respeito apenas a Portugal. A Itália, a França e a Espanha enfrentam desafios semelhantes, pelo que defendeu uma discussão europeia sobre o financiamento de reformas estruturais dos Estados.
Três prioridades para os próximos dez anos
Quando questionado sobre as três prioridades que Portugal deveria manter ao longo da próxima década para se tornar mais competitivo, Nadim Habib apontou o funcionamento dos mercados, o investimento e a justiça.
A primeira prioridade passa por criar condições para que as empresas com capacidade de crescer o possam fazer, enquanto as que não são viáveis deixam de sobreviver indefinidamente graças a apoios. O mesmo princípio deve aplicar-se ao mercado de trabalho, permitindo maior mobilidade e uma melhor correspondência entre competências, salários e necessidades das empresas.
A segunda é o investimento. Segundo o professor, Portugal tem sacrificado investimento para pagar despesas correntes, sem avaliar devidamente se as infra-estruturas e os serviços públicos estão preparados para as ambições do país. Educação e saúde são exemplos de áreas em que a capacidade instalada tem de acompanhar as necessidades da população.
A terceira prioridade é a justiça, que considera essencial para que os mercados funcionem e para impedir que empresas sem capacidade para competir continuem a beneficiar de situações que penalizam quem trabalha melhor.
Acima de tudo, voltou a insistir na necessidade de discutir a estratégia antes de discutir o orçamento. Numa empresa, explicou, um orçamento deve ser avaliado à luz dos objectivos que pretende alcançar. Em Portugal, pelo contrário, é frequente tratar o documento orçamental como se fosse a própria estratégia.
O que falta é uma luz ao fundo do túnel
Apesar das críticas, Habib fez questão de reconhecer os progressos do país desde que chegou a Portugal, em 1991. A saúde, a educação e as instituições melhoraram, afirmou, e a sua vida e a dos filhos beneficiaram dessa evolução.
Por isso, a pergunta não é simplesmente se Portugal está bem ou mal, mas se poderia estar melhor. E é aqui que identifica o problema mais preocupante: a falta de ambição para o futuro.
O professor contou que costumava brincar com a mulher, dizendo que as únicas pessoas felizes em Portugal eram os estrangeiros, porque os portugueses nem sempre reconhecem as melhorias que o país alcançou. Mas a sua preocupação vai além da percepção pública: é a sensação de que basta aguentar mais um ano, e depois mais outro, para que tudo pareça estar bem.
“Desde que eu aguente mais um ano, está tudo bem”, resumiu, ao descrever a mentalidade de sobrevivência que considera estar a travar a transformação.
Para explicar a importância de uma visão de futuro, recordou a ideia de um colega que estuda resiliência: o que dá resistência às pessoas é uma luz ao fundo do túnel.
“Eu não me importo de trabalhar como um cão durante seis semanas, sabendo que no final isto vai ser melhor. E falta-nos esta luz”, afirmou.
É essa perspetiva que, segundo Habib, está a faltar à economia portuguesa. As pessoas não se importam de trabalhar, mas frustram-se quando trabalham sem perceber para onde estão a ir.
No fim, o professor regressou à ideia que atravessou toda a conversa: Portugal precisa de deixar de confundir resistência com progresso. A capacidade de aguentar dificuldades é importante, mas não substitui uma estratégia. E um país que passa demasiado tempo a tentar sobreviver pode acabar por gastar toda a energia necessária para construir um futuro melhor.
Afinal, se a meta for apenas chegar ao fim de mais um ano, talvez o orçamento até cumpra a sua função. O problema é que, entretanto, a próxima década também passa.

Share this content:

Publicar comentário