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A IA pinta, cria e surpreende. Mas onde está o artista?

A IA pinta, cria e surpreende. Mas onde está o artista?

Há uma pergunta que começa a ficar incómoda no mundo da arte: se uma máquina consegue pintar um quadro, criar uma fotografia de uma pessoa que nunca existiu ou produzir em segundos uma paisagem digna de capa de revista, estamos perante arte ou apenas perante uma máquina muito competente a fazer de conta que é artista?
A inteligência artificial generativa entrou no atelier sem bater à porta. Faz imagens, música, vídeo, ilustração e até poemas. E fá-lo depressa, muito depressa. O artista ainda está a escolher o pincel e a máquina já entregou 200 versões, três delas com pôr do sol e uma raposa, porque aparentemente a inteligência artificial também tem os seus clichés.
O problema é que produzir uma imagem bonita nunca foi, por si só, suficiente para fazer dela uma obra de arte. A história da arte está cheia de coisas tecnicamente impressionantes que ninguém se lembra de ir ver ao museu. A questão é outra: existe uma ideia por trás da obra? Há uma intenção? Uma escolha? Um contexto? Ou estamos apenas perante aquilo que a internet já baptizou de “AI slop”: uma avalanche de conteúdos visualmente apetecíveis, produzidos em massa e com a profundidade intelectual de uma torrada.
Um estudo publicado na PNAS Nexus, que analisou mais de quatro milhões de obras produzidas por mais de 50 mil utilizadores, encontrou uma espécie de paradoxo criativo. A utilização de IA aumentou a produtividade em 25% e a probabilidade de uma obra ser considerada atrativa também cresceu. Mas a novidade média das criações diminuiu. Ou seja, a máquina ajuda-nos a produzir mais ideias, mas pode também fazer com que acabemos todos a ter ideias um pouco parecidas.
É uma espécie de fast food da criatividade: há muito, é rápido, parece delicioso e, ao fim de algum tempo, começa a saber tudo ao mesmo.
Outro estudo, publicado na Science Advances, chegou a uma conclusão igualmente curiosa. Os criadores que utilizavam IA conseguiam produzir mais ideias inovadoras em termos absolutos, mas a proporção de ideias realmente novas diminuía. A máquina aumentava a quantidade, mas não garantia necessariamente mais criatividade.
O que é criar?
Talvez por isso a discussão esteja a deslocar-se da pergunta “a IA consegue criar?” para uma pergunta bastante mais interessante: “o que é criar?”
Porque há uma diferença entre pedir a uma máquina “faz-me uma mulher num futuro distópico, com uma cidade futurista atrás” e utilizar uma ferramenta de IA para desenvolver uma obra sobre vigilância, trabalho, memória ou solidão. Num caso, temos uma encomenda. No outro, pode existir uma intenção artística que utiliza a máquina precisamente para a questionar.
É aqui que a arte pode fazer uma coisa que a tecnologia, por si só, raramente faz: parar para olhar para o monstro que acabou de criar.
A ironia é particularmente evidente quando a IA é utilizada para falar da própria IA. Um artista pode recorrer a ferramentas generativas para mostrar a forma como os algoritmos recolhem imagens, reproduzem padrões, classificam pessoas ou transformam a experiência humana em dados. Nesse caso, a máquina deixa de ser apenas pincel e passa a ser também matéria-prima, objecto de crítica e, às vezes, cúmplice involuntária.
É uma velha história da arte com uma personagem nova. A fotografia também foi acusada de matar a pintura quando apareceu. A máquina fotográfica passou a fazer em segundos aquilo que os pintores demoravam horas a conseguir. A pintura, felizmente, não morreu. Mudou de assunto.
Com a IA pode acontecer algo semelhante. Se a máquina consegue executar uma imagem quase perfeita, talvez o valor do artista esteja cada vez menos na capacidade de executar e cada vez mais na capacidade de imaginar, seleccionar, contextualizar e dizer “não, esta não”.
E esse “não” pode ser mais importante do que parece. Uma máquina pode gerar mil imagens. O artista escolhe uma. Pode pedir mais 50. Rejeita 49. Altera outra. Junta-lhe uma fotografia, um desenho, um erro, uma memória ou uma história. É nesse processo que começa a aparecer qualquer coisa que se parece menos com produção automática e mais com criação.
A própria investigação sobre criatividade assistida por IA começa a apontar nessa direcção. Um estudo publicado no Journal of Creative Behavior concluiu que a intervenção humana continua especialmente importante no início e no final do processo criativo: definir aquilo que se quer fazer e avaliar o resultado. A IA ganha peso sobretudo no meio do caminho, ajudando a desenvolver possibilidades.
O que nos deixa com uma conclusão pouco confortável para os dois lados da barricada. Não, a IA não é simplesmente uma nova versão do artista. Mas também não é apenas uma calculadora com aspirações a Picasso.
É uma ferramenta capaz de produzir resultados que podem ser artisticamente relevantes, mas que não tem, pelo menos por enquanto, aquilo que tradicionalmente associamos à criação humana: uma experiência vivida, uma memória, uma intenção própria, uma relação com o mundo.
E depois há a parte menos poética.
A máquina aprendeu com o trabalho dos outros. Os modelos generativos foram treinados com enormes quantidades de imagens, textos e outros conteúdos, o que abriu uma guerra sobre direitos de autor, consentimento e remuneração. Na União Europeia, as novas regras de transparência para os modelos de IA de finalidade geral obrigam os fornecedores a cumprir determinadas obrigações relacionadas com direitos de autor e a divulgar informação sobre os conteúdos utilizados no treino.
É aqui que a palavra “arte” começa a trazer uma fatura.
Se uma máquina consegue imitar o estilo de milhares de artistas porque aprendeu com as suas obras, quem deve ser pago? O artista que criou a imagem original? A empresa que construiu o modelo? O utilizador que escreveu o comando? Ou todos, numa espécie de jantar colectivo em que alguém terá inevitavelmente de pagar a conta?
A discussão não é apenas filosófica. É económica. E é também cultural.
Portugal já reconhece a arte generativa e a arte baseada em inteligência artificial no universo das Artes Digitais, através da DGARTES. E o debate sobre direitos de autor e IA chegou este mês ao próprio Governo, que promoveu uma discussão sobre o impacto da inteligência artificial nas indústrias culturais e criativas.
Talvez a verdadeira ameaça à arte não seja, afinal, a existência de máquinas capazes de criar imagens. Talvez seja a nossa disponibilidade para aceitar qualquer imagem produzida em três segundos como se fosse automaticamente uma obra.
Porque uma obra de arte não é apenas aquilo que vemos. É também aquilo que nos obriga a pensar depois de vermos.
A IA já sabe fazer imagens. Algumas são extraordinárias. Outras são uma espécie de pesadelo de plástico, com mãos a mais, dentes suspeitos e uma senhora invariavelmente a olhar para o horizonte.
O que ainda não sabemos é se a inteligência artificial consegue fazer aquilo que um artista faz quando olha para o mundo e decide que há ali qualquer coisa que merece ser transformada.
Talvez seja essa a fronteira. A máquina consegue criar uma imagem. A arte começa quando alguém tem uma razão para a criar.

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