O mote de Pinault não mudou: questionar, sempre
“Sempre pensei que devemos dedicar tempo às obras de arte. O tempo de serem vistas, revistas e, por vezes, compreendidas de uma outra forma. Vinte anos depois da abertura do Palazzo Grassi, quis inscrever algumas no tempo longo. Não para cristalizar a Coleção, mas para que as obras possam continuar a questionar-nos e a renovar o nosso olhar sobre o mundo.” Palavras de François Pinault, empresário e colecionador de arte, que nos últimos 20 anos reuniu mais de 10 mil obras de arte moderna e contemporânea.
Dizer que é um nome desconhecido seria blasfémia. Ele que, em 2006, escolheu Veneza para lançar o seu projeto cultural. E nunca seria “mais um” na Sereníssima, claro. Para o tornar único convocou Tadao Ando, um dos mestres da arquitetura contemporânea, que desenhou um diálogo sem precedentes entre o património histórico e a criação do seu tempo. A relação entre os dois não terminou no Palazzo. Em 2009, Ando fez renascer, com o seu gesto radical e refinado, a Punta della Dogana, também na Sereníssima. E, mais tarde, em 2021, transformou o cosmos que é a Bourse de Commerce, em Paris, na terceira morada da Coleção Pinault.
Com 90 anos, celebrados a 21 de agosto, o fundador das empresas Kering e Artémis, proprietária da Christie’s, anunciou ao mundo que o Palazzo Grassi, em Veneza, irá acolher uma exposição permanente composta por cerca de uma centena de obras maiores da sua coleção, intitulada “Obras-primas da Coleção Pinault”, a partir de 21 de março de 2027.
Spoiler por uma boa causa
O que se sabe até agora é que estarão representados 54 artistas, ativos desde a década de 1960, e que o artista islandês-dinamarquês Ólafur Eliasson fará uma intervenção site-specific na fachada do palácio. Na entrada, os espelhos de Kimsooja e o coração brilhante e reluzente de Jeff Koons terão de coabitar com o rato de Ryan Gander. Já o primeiro piso será dedicado ao movimento italiano arte povera e ao minimalismo internacional. Aqui encontrará artistas como Richard Serra, Michelangelo Pistoletto, Robert Ryman e Jannis Kounellis, entre muitos outros. Antes de se deparar com obras de Kiki Kogelnik, Martial Raysse ou Sigmar Polke. E com uma instalação de Maurizio Cattelan, l’enfant térrible a quem cumprirá vestir a pele do disruptor, com a escultura “Him” (2001), que reduz Hitler ao tamanho de uma criança ajoelhada em oração.
A ideia da exposição permanente já estava a ser amadurecida há algum tempo, como referiu Pinault ao jornal francês “Le Monde”. “Uma exposição permanente permite-nos ter obras de diferentes períodos e gerações lado a lado e mostrar como, para além da sua singularidade, também resistiram à passagem do tempo”. Sobre a fama de arriscar comprar obras ditas desafiantes e ultracontemporâneas, invoca o facto de a sua coleção ser “altamente subjetiva, muitas vezes construída com base no instinto, na paixão ou até na raiva perante a violência do presente”.
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