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Quatro eleições em dez dias podem mudar a democracia

Quatro eleições em dez dias podem mudar a democracia

A primeira batalha acontece este domingo, 25 de outubro, no Brasil e na Sérvia. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta Flávio Bolsonaro na segunda volta das presidenciais. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral brasileiro (TSE), os dois candidatos foram os mais votados na primeira volta: Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Estão inscritos cerca de 158,7 milhões de eleitores.
A disputa promete ser renhida. Segundo a Associated Press, os temas que mais pesam na campanha incluem o custo de vida, a criminalidade e a corrupção. Flávio Bolsonaro, senador de 45 anos e filho do antigo Presidente Jair Bolsonaro, promete uma política de segurança mais dura e defende um perdão para o pai, condenado por tentativa de golpe de Estado. Lula procura a reeleição para um quarto mandato presidencial. Uma vitória de Flávio representaria uma mudança política à direita na maior economia da América Latina.
Na Sérvia, também este domingo, realizam-se eleições legislativas antecipadas, nas quais estão em disputa 250 lugares na Assembleia Nacional. Segundo a Comissão Eleitoral da República, estão inscritos 6.450.523 eleitores. A candidatura estudantil «Student List – Students Win» enfrenta a força política liderada por Aleksandar Vucic, que domina a política sérvia há mais de uma década.
De acordo com a Reuters, o movimento estudantil ganhou dimensão após a morte de 16 pessoas no desabamento de uma cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, em 2024. A tragédia desencadeou protestos contra a corrupção e o poder político, que evoluíram para uma candidatura eleitoral. As sondagens apontam para uma disputa apertada: uma sondagem da Ipsos citada pela Reuters atribuía 47% das intenções de voto à lista do Partido Progressista Sérvio, contra 40% à candidatura estudantil, embora outros estudos apresentassem resultados diferentes. O escrutínio será um teste à capacidade de mobilização de um movimento que procura transformar o descontentamento nas ruas numa alternativa política.
A segunda eleição desta sequência acontece em Israel, na terça-feira, 27 de outubro. Os eleitores vão escolher os 120 deputados da Knesset, o parlamento israelita. A data está confirmada e foi divulgada pela própria instituição parlamentar.
Benjamin Netanyahu, líder do Likud, procura continuar no poder depois de décadas a dominar a política israelita. Entre os principais adversários está Gadi Eisenkot, antigo chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e líder do partido Yashar. Segundo o Serviço de Estudos do Parlamento Europeu, as sondagens apontam para uma disputa sem maioria garantida para qualquer dos blocos, o que poderá dificultar a formação de Governo.
A guerra em Gaza, a segurança nacional, o serviço militar obrigatório para os ultraortodoxos e a responsabilidade política pelos ataques de 7 de outubro de 2023 estão entre os temas centrais da campanha. A eleição poderá determinar se Netanyahu permanece no poder, mas uma vitória da oposição não garante, por si só, uma mudança radical na política israelita em relação aos palestinianos.
Por fim, a 3 de novembro, chegam os Estados Unidos. Não são eleições presidenciais, mas as eleições intercalares para o Congresso podem funcionar como um teste à Presidência de Donald Trump. Todos os 435 lugares da Câmara dos Representantes e cerca de um terço dos lugares do Senado estarão em disputa.
Segundo a Reuters, os democratas precisam de conquistar quatro lugares em cada uma das câmaras para retirar aos republicanos o controlo do Congresso. As sondagens favorecem os democratas na Câmara dos Representantes, enquanto a disputa pelo Senado permanece mais incerta. Uma vitória democrata poderá abrir caminho a investigações parlamentares sobre a Administração Trump e aumentar a pressão política sobre a Casa Branca, embora o Presidente mantenha poderes de veto que limitam a capacidade legislativa da oposição.
A diferença entre os quatro casos é importante. No Brasil, está em causa a escolha direta do Presidente; na Sérvia e em Israel, a composição dos parlamentos determinará quem consegue formar Governo; nos Estados Unidos, os eleitores não escolhem o Presidente, mas podem alterar o equilíbrio de poder no Congresso.
É precisamente aí que estas eleições deixam de ser apenas quatro acontecimentos nacionais. Os resultados poderão influenciar o equilíbrio político na América Latina, nos Balcãs, no Médio Oriente e na maior potência ocidental. Embora seja excessivo tratar os quatro escrutínios como uma única batalha entre democracia e autoritarismo, há uma questão comum: até onde conseguem os sistemas políticos e as instituições limitar ou contrariar líderes com forte concentração de poder.
Como refete o The Guardian, de acordo com o Instituto V-Dem, com sede na Suécia , que utiliza ferramentas de avaliação multivariáveis, as liberdades democráticas de que goza o cidadão global médio caíram para níveis vistos pela última vez em 1978 – muito antes da queda do Muro de Berlim e do colapso do comunismo na Europa.
“O conjunto de quatro eleições cruciais pode tanto interromper essa tendência quanto reforçá-la. Em cada disputa, os partidos pró-democracia enfrentam adversários acirrados, sejam eles atuais ou aspirantes a autocratas. Os resultados em cada caso provavelmente terão repercussões em suas respectivas regiões e além delas”, explica ainda o jornal britânico. 
Em pouco mais de uma semana, quatro eleitorados terão a palavra. Os resultados serão diferentes em cada país, mas o seu significado político será observado muito além das respetivas fronteiras.

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