Próximo presidente do Brasil suspenso por um punhado de décimas
Umas décimas a mais ou a menos, mas todas convergindo no mesmo foco central: as sondagens sobre a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, que acontecem este domingo, 25 de outubro, apontam claramente para um empate técnico. Mas também informam outra coisa – e esse é um dos pontos essenciais: todas elas colocam à frente o candidato Flávio Bolsonaro. Ora, numas eleições onde um voto chega para vencer – quando, por exemplo na dança das cadeiras parlamentares só chega para empatar – o que as sondagens indicam é que Lula da Silva arrisca falhar a sua sétima tentativa para ser eleito presidente do Brasil. E exatamente do mesmo modo que perdeu a primeira: partindo em desvantagem para a segunda volta (perdeu em 1989 à segunda volta, em 1994 e 1998 à primeira, e venceu em 2002, 2006 e 2022).
Com um histórico consolidado de menor participação dos brasileiros na segunda volta das presidenciais, a esperança de Lula da Silva é tentar convencer os abstencionistas a fazerem um esforço para se decidirem a votar. Nele.
Abstencionistas procuram-se
Na primeira volta, a abstenção atingiu um recorde histórico: 21,08% (mais de 33,4 milhões de ausentes). Segundo é consensualmente aceite, os abstencionistas dividem-se, grosso modo, em três tipos diferentes: Idosos com mais de 70 anos (idade em que o voto deixa de ser obrigatório); pessoas com baixa escolaridade e analfabetismo (neste caso, a taxa de abstenção ronda historicamente os 50%; e jovens entre os 18 e os 29 anos – que, este ano podem ser 7,7 milhões.
Lula parece ter vantagem sobre Flávio Bolsonaro entre os dois primeiros grupos. Afinal, o velho sindicalista é um ‘deserdado da sorte’ que nunca pertenceu às elites com capacidade financeira para estudar até ao final do ensino universitário, o que lhe confere um sentimento legítimo de ‘irmandade’ que tem estado muito presente durante a campanha. Além disso, a equipa jurídica do Partido dos Trabalhadores exige o cumprimento rigoroso (e legal) de medidas que facilitem a locomoção e o transporte gratuito dos eleitores até às urnas no próximo domingo.
Mas perde no contacto com os jovens: os elementos mais novos da sociedade não têm memória dos anos de brasa por que o país passou ao longo da ditadura militar brasileira, que só acabou em 1985, nem da penosa recuperação económica que foi lançada a partir daí – e de que resultou, já neste milénio, na criação de uma classe média que praticamente não existia.
E depois há as redes sociais. Neste particular, a candidatura de Bolsonaro leva grande vantagem, não só porque domina melhor a forma de chegar aos jovens, mas também porque não tem grandes preocupações de se manter afastada das mais mirabolantes mentiras, desde que possam contribuir para convencer os ‘refratários’. E depois, a acreditar nas queixas do lado oposto, as direções das próprias redes sociais também escolhem – e escolheram contribuir ativamente para a vitória de Flávio Bolsonaro.
Mas a principal motivação da campanha de Bolsonaro com vista a convencer os abstencionistas tem-se concentrado naquilo a que chama o excesso de confiança dos seus próprios eleitores. O candidato tem feito apelos diretos para evitar que quem votou nele a 4 de outubro deixe de comparecer no dia 25. O lema informal é garantir a presença para consolidar a vantagem obtida, segundo a imprensa brasileira. Isto sem esquecer a evidenciação – particularmente importante para os abstencionistas mais jovens – de que Lula da Silva fará 81 anos dois dias depois da realização da segunda volta.
De acordo com projeções de institutos como a Nexus, Flávio Bolsonaro chegou a liderar com 49% contra 41% de Lula no segmento específico dos eleitores que faltaram à primeira votação, mas admitem ir às urnas na segunda, o que reforça o empenho de cada uma das candidaturas nesta reta final.
Tensão ao rubro
Como talvez fosse de esperar, todas estas motivações, mas principalmente a estreiteza do diferencial entre intenções de voto, levaram a que a campanha para a segunda volta tivesse sido enormemente tensa. O primeiro combate (é o termo certo) entre ambos nas televisões (o segundo será esta noite) foi marcado por um confronto violento, onde não faltaram ataques pessoais, remoques, vitupérios diretos e indiretos, e toda a sorte de argumentações venenosas. Outro tanto é de esperar para esta noite.
Uma coisa parece certa: mesmo que Lula da Silva venha a perder, com certeza não exporá os brasileiros a passarem pelo mesmo enxovalho internacional que foi organizado pelo pai de Flávio, Jair, há quatro anos atrás.
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