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Pokémon: quando um pedaço de cartão custa mais do que uma casa

Pokémon: quando um pedaço de cartão custa mais do que uma casa

Deve ser dos poucos investimentos em que um dragão que cospe fogo pode valer mais do que uma máquina industrial e um rato amarelo pode custar o preço de uma mansão. O mercado das cartas Pokémon está a transformar recordações de infância em objetos de luxo, com preços que rivalizam com os de obras de arte e ativos financeiros.
O exemplo mais extremo chegou em fevereiro de 2026. De acordo com o Guinness World Records, Logan Paul vendeu por 16,492 milhões de dólares uma carta Pikachu Illustrator, considerada a mais cara alguma vez vendida em leilão. O mesmo exemplar tinha sido comprado pelo colecionador em 2021 por 5,275 milhões de dólares. Em cerca de cinco anos, o preço mais do que triplicou.
A peça não era um daqueles cromos que se compravam em pacotes e se trocavam no recreio. Distribuída no Japão em 1998 como prémio de um concurso de ilustração, a Pikachu Illustrator é uma carta promocional rara. O exemplar de Logan Paul tinha a classificação PSA 10, a nota máxima atribuída pela empresa de certificação Professional Sports Authenticator.
O preço ajuda a perceber a dimensão de um mercado em que a raridade pode valer tanto como o próprio objeto. E não se trata apenas de uma excentricidade de milionários: os índices que acompanham as cartas colecionáveis têm registado subidas expressivas, embora os resultados variem muito consoante a peça, a edição e o estado de conservação
O estado de conservação pode valer milhares
No universo das cartas colecionáveis, a aparência conta — e muito. Empresas especializadas, como a Professional Sports Authenticator (PSA), avaliam o estado de conservação numa escala de um a dez. O resultado considera aspetos como o alinhamento da imagem, as esquinas, os bordos e a superfície.
Uma classificação máxima pode fazer disparar o preço de uma peça rara. Mas duas cartas da mesma edição não têm necessariamente o mesmo valor, e uma nota elevada não garante que apareça um comprador disposto a pagar o preço pedido.
Os registos da plataforma Card Ladder mostram como as cotações podem oscilar. Um Gengar Holo da coleção Expedition, lançada em 2002, com classificação PSA 9, foi vendido por 24.900 dólares a 18 de outubro de 2026. O valor contrasta com os cerca de 5.000 dólares associados a uma transação anterior, no final de julho.
É uma subida impressionante, mas uma venda isolada não constitui, por si só, prova de que o preço se mantenha ou de que seja possível repetir o negócio nas mesmas condições.
Os números impressionam, mas exigem contexto
O entusiasmo também se reflete nos indicadores acompanhados por plataformas especializadas. O El Economista destacou a evolução do índice CL50, associado a cartas colecionáveis de elevado perfil, e a comparação com índices bolsistas tradicionais. Segundo os dados apresentados pelo jornal espanhol, o indicador avançou mais de 16% em três meses, num período em que o S&P 500, o Nasdaq 100 e o MSCI World registaram subidas inferiores.
Estes números devem ser lidos com cautela. Um índice não representa todas as cartas existentes, nem significa que cada colecionador tenha obtido a mesma rentabilidade. Além disso, o mercado das cartas raras é diferente do mercado acionista: há menos transações, os preços podem variar muito de exemplar para exemplar e vender rapidamente nem sempre é fácil.
A própria história de Pokémon ajuda a explicar o fenómeno. As cartas que começaram por circular entre crianças tornaram-se objetos de desejo para adultos que dispõem de maior poder de compra e procuram peças associadas à infância. A raridade, a procura internacional e o estado de conservação juntam-se à nostalgia — uma combinação capaz de levar os preços a níveis surpreendentes.
Uma coleção não é uma carteira diversificada
O risco está em confundir os recordes das peças mais cobiçadas com uma oportunidade acessível a qualquer pessoa. Uma carta que hoje parece valer uma fortuna pode perder procura, e o preço anunciado não é necessariamente o preço pelo qual será vendida. Há ainda custos de avaliação, autenticação, armazenamento e transação.
O fenómeno merece atenção económica, mas não transforma automaticamente os cromos num investimento seguro. Para quem compra por gosto, uma carta pode ter valor sentimental mesmo que a cotação desça. Para quem compra à espera de lucro, a conta é diferente: precisa de encontrar uma peça procurada, comprá-la a um preço razoável e conseguir revendê-la.
A Nvidia tem resultados empresariais, receitas e uma posição no mercado da inteligência artificial para os investidores avaliarem. Uma carta Pokémon tem raridade, estado de conservação e uma comunidade de compradores. Ambas podem valorizar-se muito, mas não obedecem às mesmas regras.
Afinal, talvez o melhor investimento continue a ser aquele que se percebe antes de abrir a carteira. Até porque nem todos os Charizard escondidos numa gaveta estão à espera de pagar a reforma.
Fontes: El Economista, para os dados comparativos do índice CL50; Card Ladder, para os registos de transações e informação sobre cartas colecionáveis; Guinness World Records, para o recorde da carta Pikachu Illustrator vendida por Logan Paul.
 

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