A prevenção na saúde infantil é um investimento. Porque continuamos a tratá-la como uma despesa?
Até aos três anos, forma-se cerca de 80% do cérebro de uma criança, num período de crescimento cerebral particularmente acelerado. A evidência reunida pela Organização Mundial da Saúde, UNICEF e Banco Mundial mostra que o retorno do investimento em intervenções de desenvolvimento na primeira infância pode atingir 12 euros por cada euro investido. Não significa que todas as medidas preventivas tenham o mesmo retorno. Significa algo essencial: há intervenções precoces cujo valor para a criança e para a sociedade pode ultrapassar largamente o seu custo inicial. Prevenir em saúde infantil não é, por isso, apenas uma boa prática clínica. É uma decisão económica, social e política.
E há uma pergunta que Portugal precisa de fazer com maior frontalidade: quanto nos custa continuar a chegar tarde?
Quando uma dificuldade de desenvolvimento é identificada demasiado tarde, um problema de saúde se agrava por falta de acompanhamento ou uma família apenas encontra resposta depois de esgotar os seus recursos, o custo não desaparece. Transfere-se. Da saúde para a escola, da escola para a família e, muitas vezes, novamente para os sistemas social e de saúde.
O custo de não intervir cedo não deixa de existir por não aparecer numa linha orçamental da saúde infantil.
Portugal construiu, ao longo das últimas décadas, importantes conquistas na saúde materno-infantil. Mas os progressos alcançados não podem ser considerados definitivamente adquiridos.
Hoje, porém, saúde infantil significa muito mais do que sobrevivência ou ausência de doença. Significa desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, saúde mental, alimentação, linguagem, aprendizagem e condições sociais. Significa, sobretudo, identificar precocemente os sinais que exigem atenção e chegar à criança no momento em que podemos fazer maior diferença.
Isto obriga-nos a ultrapassar a fragmentação das respostas. Uma criança não é saúde numa consulta, educação na escola e proteção social quando surge uma crise. É a mesma criança em todos estes sistemas.
Prevenir não é multiplicar consultas, exames ou referenciações. É avaliar o risco, acompanhar o desenvolvimento, identificar precocemente dificuldades e assegurar continuidade entre saúde, educação, proteção social e família.
Na Fundação Bom Sucesso, 75 anos dedicados à promoção da saúde deram-nos um conhecimento muito concreto desta realidade. Em 2025, acompanhámos mais de 3.500 utentes e realizámos mais de 20.700 atos clínicos, através de uma resposta multidisciplinar, em 15 especialidades, procurando garantir que a vulnerabilidade económica ou social não afasta quem precisa de cuidados. Mas estes números representam, acima de tudo, uma responsabilidade: transformar a experiência no terreno em conhecimento capaz de contribuir para melhores respostas e melhores políticas de saúde infantil.
Porque há uma questão que não podemos ignorar: prevenção sem acesso não é verdadeira prevenção.
Uma recomendação clínica só produz resultados se puder ser cumprida. Quando uma família adia uma avaliação ou interrompe um acompanhamento por razões económicas, sociais ou porque não encontra uma resposta em tempo útil, podemos estar a perder uma janela particularmente relevante no desenvolvimento de uma criança.
É aqui que a prevenção deixa de ser apenas uma questão clínica e passa a ser também uma questão de gestão e de política pública.
Os recursos são finitos. Precisamente por isso, temos de perguntar não apenas quanto custa intervir, mas também quanto nos poderá custar não intervir no momento adequado.
E temos de medir melhor. Não basta contar consultas. Precisamos de saber quanto tempo decorre entre a identificação de uma necessidade e a resposta e, sobretudo, que diferença produzimos na saúde e no desenvolvimento de cada criança. Não basta medir atividade. Temos de medir impacto.
Aquilo que não medimos dificilmente se transforma numa prioridade. Portugal precisa de identificar mais cedo, articular melhor e garantir que nenhuma criança chega tarde por falta de recursos ou de resposta.
Isso exige três compromissos: medir os resultados da prevenção e da intervenção precoce; assegurar continuidade e articulação entre saúde, educação e proteção social; e reduzir as barreiras económicas e sociais no acesso aos cuidados.
Nem todos os problemas podem ser prevenidos, e nem todas as intervenções produzem o mesmo impacto. Precisamente por isso, as escolhas devem ser orientadas pela evidência e pela avaliação de resultados.
Em saúde infantil, não devemos valorizar apenas aquilo que conseguimos tratar. Devemos valorizar também aquilo que conseguimos antecipar.
O retorno da prevenção não se mede apenas na despesa potencialmente evitada. Mede-se em saúde, desenvolvimento, aprendizagem, autonomia e oportunidades.
Na infância, adiar também é uma decisão. E pode ter um custo. Porque, nos primeiros anos de vida, chegar mais cedo pode significar mudar uma vida inteira.
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