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Houthis, Iémen e Teerão

Houthis, Iémen e Teerão

1.Os Houhtis são um movimento político em acção no Iémen, que evoluiu de guerrilha de tribo para uma organização quase estatal, cujo objectivo central é governar o país, que, hoje, tem uma população estimada em cerca de 35 milhões de habitantes. Controlam, presentemente, entre 70% e 80% da população iemenita, concentrada em 33 a 35 % do território, sensivelmente, um terço do país. Estão, assim, implantados nas zonas mais populosas como a capital, Sanaa (tomada em 2014/5) e cidades portuárias.
Em Setembro último, estenderam o seu controlo a mais 130 kms, ao longo da orla costeira do Mar Vermelho, conquistando cidades importantes como a histórica Mocha (mais conhecida, entre nós, por Moca, cidade do café) e várias ilhas, o que lhes possibilita o controlo directo do estreito Bab el-Mandeb, uma rota vital do comércio mundial, designadamente em termos de energia.
O Governo internacionalmente reconhecido, liderado pelo Conselho de Liderança Presidencial, presidido por Mohamed al-Alimi, instalado em Áden, pois perdeu a capital para os Houthis, controla uma área territorial maior, muito desértica, rural, pouco povoada.
O Governo do Iémen na luta contra os Houthis continua a ser apoiado, por uma coligação, liderada pela Arábia Saudita, nem sempre bem-sucedida, militarmente, apesar dos 100 caças da força aérea, usados no combate contra os Houthis e na tentativa de reconquista da orla costeira.
Entre os analistas de guerra, há  grande consenso de que os Houthis têm a força militar mais bem organizada do Iémen, assente num vasto arsenal de mísseis e drones, embora não dispondo de aviação.
Notas sobre a história dos Houthis
2. Lê-se e ouve-se tanto falar dos Houthis, como um braço armado do Irão e, afinal, a História vem desdizer, por completo, esta narrativa ou, melhor dito, esta invencionice divulgada e predominante na comunicação social e, em muita literatura do Ocidente, por vezes, em artigos da imprensa internacional de algum crédito, como o Courrier international.
Mas, vamos aos dados da História.
Os Houthis são um movimento que surgiu, no norte do Iémen, nos finais da década de 1990, pela mão da família al-Houthi (percebe-se bem, agora, de onde vem a designação), com a finalidade específica de relançar a cultura e a religião da minoria Zaidita – um ramo do Islão Xiita[1] que, no passado, tivera enorme influência em todo o Iémen e até o governara, por longos períodos, durante mais de um milénio. Foi afastado do poder, em 1962, por um golpe militar que trocou o Reino do Iémen por uma República (Iémen do Norte). Este golpe, com origem em múltiplas influências, assenta, segundo estudiosos, numa causa determinante, a formação de jovens oficiais no exterior, sobretudo no Egipto, nas décadas de 1940 e 1950, sob a influência, então, de Nasser. Os efeitos deste golpe militar arrastaram-se, através de uma guerra civil (1962-1970), que terminou com o exílio, em 1970, da família real Zaidita.
Todo este “caldo político” serviu de berço ao surgimento dos Houthis, primeiro como movimento pacífico, por a minoria Zaidita se sentir discriminada pelo governo central iemenita, mas também em perigo, com os avanços da Arábia Saudita – parceiros do Governo, que, no seu espaço territorial, montaram escolas de formação religiosa com a finalidade de reduzir a influência cultural e religiosa Zaidita, através da expansão do Wahhabismo ultraconservador[2].
Invasão do Iraque
3. A invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, veio mudar radicalmente a orientação do movimento houthista que passou a usar o slogan de anti-EUA e anti-Israel.
O presidente do Iémen de então, Ali Saleh, tentou prender Hussein al-Houthi, resultando daí a sua morte e, como resultado, “a cultura” pegar em armas, ou seja, um movimento de revitalização da cultura Zaidita passa a milícia armada, batendo-se mesmo contra as 6 ofensivas militares brutais do exército iemenita contra os Houthis, desencadeadas entre 2004-2010.
Em 2014/2015, obtêm uma grande vitória ao tomarem a capital Sanaa, contra a coligação governo/Arábia Saudita, liderada por esta última, com vista a atacar e derrotar os Houthis.
O povo iemenita entendeu e bem que se tratava de uma invasão estrangeira e mostrou ostensivamente a sua repulsa e condenação, apoiando os Houthis que reforçam a sua influência e avançam civilmente, criando estruturas organizativas de governação, orientadas para a cobrança de impostos, ordem nos territórios e implantação de serviços básicos como o ensino, saúde e reforço militar, reafirmando uma agenda própria, “Iémen primeiro”, o que corresponde a uma “legitimação” de um governo Houthi em Sanaa.
Os Houthis e Teerão
4. Há vários estudos e artigos de origens diversas que vincam uma parceria estratégica e assimétrica entre Houthis e Teerão. O que isto significa?
Antes de tudo, o respeito da agenda própria. Conquistar o poder político, governar o país e, como tal, serem reconhecidos internacionalmente, são o primeiro grande objectivo dos Houthis.
Manter uma grande ligação com Teerão significa garantir, sobretudo, o fornecimento de equipamento militar, embora os Houthis já disponham de alguma capacidade produtiva de armamento. Agora, subordinação ao Irão, nas suas decisões político-militares, não existe.
Três exemplos apenas:

Em 2014, quando os Houthis decidem tomar a capital Sanaa foram amplamente desaconselhados por Teerão, que alegava grandes represálias externas, mas os Houthis avançaram, porque para eles era emblemático tomar a capital.
Quando EUA e Israel atacam o Irão, em 28 de Fevereiro 2026, a maioria dos analistas ocidentais vaticinou logo uma pronta e imediata entrada dos Houthis no processo. Afinal, o envolvimento deu-se bem mais tarde, porque, conta em primeira linha o contexto interno do Iémen, a redefinição das suas estratégias de forma autónoma e para os Houthis era inoportuno o momento.
Terceiro, em Julho de 2026, Teerão solicitou aos Houthis o fecho do estreito de Bab el- Mandeb à navegação comercial e os Houthis ignoraram o pedido.

Há quem avance que Teerão tem beneficiado da experiência Houthi, no tocante aos ataques aos navios no Mar Vemerlho, aplicando-a, na sua acção, no estreito de Ormuz.
5. Num artigo de Laurent Bonnefoy da Sciences Po (Paris), publicado a 20 de Outubro, na edição francesa The Conversation, este tema é analisado sob o título “Porque é tão errado ver os Houthis como um braço supletivo do Irão”, apontando dois erros de fundo nessa análise:

os Houthistas desenvolveram a sua capacidade militar e visam directamente a Arábia Saudita incluindo as suas infraestruturas civis, tudo de forma independente.
Os Houthis são muito diferentes do Irão porque definem eles próprios a sua estratégia e o momento das acções, consoante os seus interesses.

Esta confusão alargada, para muitos, é desconhecimento. Limitam-se a reproduzir o que ouvem.
Mas há, na base, uma desinformação propositada, no sentido de descredibilizar os Houthis e o Irão, como forma de justificar por parte do Ocidente, perante o Mundo, as sanções económicas e intervenções militares que vão aplicando.
O que se ganha com isto? Confusão, posições míopes, guerras e dificuldades maiores, sobretudo, quando se pretende entrar em negociações.
Quando a análise é séria, mesmo em condições difíceis, a negociação ganha outros contornos. Conhece-se a História.
A situação no Médio Oriente é muito complexa e a toda a hora corre-se o risco duma maior escalada. A saída está mesmo na negociação entre as diversas partes.
[1] As principais diferenças entre este ramo xiita e os outros dois principais (ismaelitas e duodecimanos), também xiitas, são uma teologia mais moderada, um certo teor pragmático nas lideranças e a rejeição da infalibilidade dos Imames (líderes ou “sacerdotes” muçulmanos).
[2] Movimento fundamentalista e puritano do islamismo sunita.

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