Energia solar para lá das horas de sol
Produzir eletricidade nas horas de maior exposição solar e utilizá-la ao final do dia, quando aumenta o consumo das famílias, é um dos desafios da transição energética. Portugal tem condições favoráveis à produção fotovoltaica. Aproveitar esse potencial exige que o investimento em novas centrais seja acompanhado por soluções que permitam disponibilizar energia para lá das horas de sol.
Os números mostram bem esta evolução. Segundo a ADENE – Agência para a Energia, através do Observatório da Energia e com base em dados da REN, em agosto, as energias renováveis asseguraram 54,2% do consumo de eletricidade em Portugal e o solar fotovoltaico representou 16,7%, sendo já a segunda maior fonte renovável nesse mês, apenas atrás da eólica (18,9%) e à frente da hídrica (12,7%). Mais significativo ainda é o ritmo de crescimento: face a agosto de 2024, a produção solar fotovoltaica aumentou 12,7%. São dados que demonstram a crescente importância do solar no sistema elétrico português, mas que tornam igualmente evidente a necessidade de garantir maior flexibilidade para gerir uma produção que se concentra, por natureza, em determinadas horas do dia.
Durante o primeiro semestre de 2026, Portugal registou 462 horas com preços negativos no mercado grossista de eletricidade, o segundo maior número na Europa, depois de Espanha, com 571, e à frente de França, com 370. Estes episódios evidenciam as dificuldades que surgem quando uma oferta abundante coincide com uma procura insuficiente e com limitações na capacidade de armazenar ou exportar eletricidade.
Algumas horas depois, a situação pode inverter-se: a produção solar diminui, mas as necessidades de consumo mantêm-se ou aumentam, obrigando ao recurso a outras fontes, por vezes mais dispendiosas. Os dados de agosto ajudam também a ilustrar este contraste: as fontes não renováveis asseguraram 17,3% do consumo e o saldo importador representou 28,5%. No mesmo mês, a produção de eletricidade a partir de fontes não renováveis, essencialmente gás natural, aumentou 88,2% face a agosto de 2024, enquanto o consumo de gás natural destinado à produção de eletricidade cresceu 158%. Este desfasamento mostra por que razão o crescimento das renováveis precisa de ser acompanhado por maior flexibilidade do sistema elétrico.
A concentração da produção nas mesmas horas também afeta a viabilidade económica das centrais. Quando muitas instalações produzem simultaneamente, o preço a que conseguem vender a eletricidade tende a diminuir. A possibilidade de guardar parte dessa energia para outros períodos permite aproveitar melhor a produção e reduzir a exposição dos projetos a essa concentração da oferta.
É aqui que entram as baterias. Ao armazenarem eletricidade nas horas de maior produção e disponibilizarem-na mais tarde, ajudam a aproximar a oferta da procura. Podem também contribuir para o equilíbrio da rede, respondendo rapidamente às necessidades do sistema. Quando integradas em centrais solares, permitem aproveitar infraestruturas e pontos de ligação existentes e reduzir os cortes de produção motivados por limitações na capacidade de receber energia.
Importa, contudo, perceber o que se instala. A potência de uma bateria indica quanta eletricidade pode fornecer num dado momento; a capacidade de armazenamento determina durante quanto tempo consegue manter esse fornecimento. Uma bateria de 50 megawatts com capacidade de 200 megawatts-hora pode, aproximadamente, fornecer a potência máxima durante quatro horas. Avaliar os projetos apenas pela potência instalada deixa, por isso, uma parte importante da informação de fora.
Em Portugal, os projetos Acail e Felgueiras, da Sonnedix, combinam 68 MW de potência fotovoltaica com 140,5 MWh de armazenamento em baterias. A integração destas duas componentes desde a conceção dos projetos exemplifica uma das formas de ajustar a disponibilização da energia solar às necessidades de consumo.
As baterias têm, porém, limites. São particularmente úteis para gerir diferenças entre produção e consumo ao longo do dia, mas não resolvem, por si só, períodos prolongados de baixa produção renovável ou variações sazonais. Continuam a ser necessários investimentos nas redes, nas interligações, na bombagem hidroelétrica e na gestão do consumo.
Para Portugal, o desafio passa agora por transformar projetos em capacidade efetivamente disponível. Isso exige procedimentos de licenciamento e ligação à rede mais ágeis, regras estáveis de participação nos mercados e remuneração adequada pelos diferentes serviços prestados pelo armazenamento. A segurança, a degradação dos equipamentos e a gestão das baterias no final da vida útil devem integrar esse esforço desde o início.
O sucesso da energia solar será medido também pela capacidade de a disponibilizar quando faz falta. Armazenar permite aproveitar melhor os recursos e as infraestruturas existentes e aproximar a produção renovável das necessidades concretas das empresas e das famílias. É essa ligação entre produzir e poder utilizar que Portugal precisa de reforçar.
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