Queríamos ver Portugal na CEE
A década de “betão”
No ano em que Portugal integrou oficialmente a Comunidade Económica Europeia, em 1 de janeiro de 1986, um café custava 25 escudos, os Iron Maiden tocavam em Cascais e o filme Top Gun enchia as salas de cinema. Após um período sombrio a nível económico no início dos anos 80, o país dava os primeiros passos para sair da crise. O dinheiro dos fundos europeus estava a chegar e Cavaco Silva – que conseguiu a primeira maioria absoluta de um só partido da história da democracia – tinha o caminho aberto para avançar com as reformas.
No espaço de cinco anos foram construídos 1.133 quilómetros de autoestradas, de itinerários principais e complementares, 4.116 quilómetros de reabilitação de condutas de água e 640 quilómetros de renovação da via-férrea. Foram ainda lançadas as obras da Expo98 e da ponte Vasco da Gama sobre o rio Tejo, que Cavaco chamou a “obra do século”, e da barragem do Alqueva. O Centro Cultural de Belém (CCB), entre críticas sobre gastos e derrapagens, é a sede da primeira presidência portuguesa da Comunidade Europeia, em 1992. Há escolas construídas, hospitais como o S. Francisco Xavier, o Garcia de Orta e uma nova lei da gestão hospitalar.
Também se compravam mais casas, carros, televisões, frigoríficos, aspiradores, máquinas de lavar a roupa e telefones. Até no topo dos prédios surgiram as primeiras antenas parabólicas: custavam 399 contos. Foi também nesta altura que o grupo Sonae abriu o hipermercado Continente da Amadora (1987).
Entre 1986 e 1992, o nível de vida português subiu de 65 para 79 por cento do nível de vida europeu, de acordo com o estudo de Augusto Mateus, 25 anos de Portugal Europeu. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, no mesmo período, 5,6 por cento ao ano e a procura interna cresceu 7,5 por cento. As importações aumentaram mais de 15 por cento ao ano. A inflação vai descendo, sobretudo nos anos 90. O crescimento da economia chega a estar entre os mais altos da OCDE.
Mas, no fim de 1991, o ciclo de forte crescimento económico que Portugal conhecia desde 1986, tinha chegado ao fim. Uma reviravolta económica internacional, os impactos da Guerra do Golfo e as exigências internas para entrar no euro abrandaram a economia e fizeram crescer o desemprego. A recuperação económica inicia-se em 1995, já com Cavaco Silva prestes a sair do Governo.
Edição do Jornal Económico de 19 de dezembro.
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