Zeca foi do relvado à secretária no Panathinaikos: “Falta-me ser campeão”
Aos 37 anos, Zeca Rodrigues já não brilha dentro de campo, mas nada o impede de continuar a dar que falar fora das quatro linhas. Visto como um ídolo no Panathinaikos, o antigo internacional pela Grécia resolveu manter-se no clube, como scout, aspirando a cargos superiores.
Em entrevista ao Desporto ao Minuto, o ex-médio justificou muitas das suas decisões tomadas ao longo da carreira, relatou a história de como se naturalizou grego e explicou o motivo para (ainda) não ter regressado a Portugal.
José Carlos Gonçalves Rodrigues, como se chama, não ficou por aí, e confessou que ficou um sonho por cumprir, no Panathinaikos, passível de ser concretizado por uma segunda via, não estando a pensar, para já, em voltar ao país onde nasceu.
O antigo internacional grego, recorde-se, formou-se no Casa Pia e brilhou ao serviço do Vitória FC, antes de rumar à Grécia, ‘dividindo’ grande parte da carreira entre o Panathinaikos e o Copenhaga, da Dinamarca.
A verdade é que é em solo grego que Zeca Rodrigues se mantém, imaginando-se a desempenhar cargos como diretor desportivo ou empresário no futuro, tendo as “portas abertas” para qualquer janela de oportunidade.
Benfica, FC Porto ou Sporting? Quando estava em Setúbal, sempre tive o sonho de jogar num dos três ‘grandes’.Após ter feito formação no Casa Pia, rumou ao Vitória FC e cumpriu apenas uma época na I Liga. Sonhava atingir um patamar mais alto?
A partir do momento em que me transferi para o Vitória FC, pensei que poderia jogar a um nível mais alto. Não sabia que podia ser ao nível que cheguei, mas sempre tive esse objetivo de chegar mais longe e sabia que se trabalhasse podia ter essa oportunidade. Na altura, não pensava que, ao fim de um ano ali, pudesse ser vendido para outro clube, mas tinha a consciência de que podia ir um bocadinho mais longe. Só posso agradecer muito ao falecido Manuel Fernandes e ao filho Tiago Fernandes por me terem dado a oportunidade de jogar no Vitória FC. Foram eles que me viram a chegar, deram-me a oportunidade e estou-lhes muito grato. Nunca me esquecerei do que fizeram por mim.
Nunca surgiu a oportunidade de jogar por Benfica, FC Porto ou Sporting?
Não, nunca houve essa oportunidade de jogar nesses clubes. Quando já estava na Grécia, houve uma conversa, mas muito informal e nada mais que isso. Podia ir para Portugal e não aconteceu. Quando estava em Setúbal, sempre tive o sonho de jogar num dos três ‘grandes’. O mister Jesualdo Ferreira deu-me oportunidade para ir para o Panathinaikos e criar a minha carreira aqui. Foi muito importante para mim.
Zeca Rodrigues representou o Panathinaikos durante nove épocas, em dois períodos distintos: o primeiro entre 2011 e 2017, o segundo em 2023/24 e 2024/25.© Getty Images
Ficou seis anos seguidos no Panathinaikos, passou pelo Copenhaga durante meia dúzia de anos e regressou à Grécia para fazer as suas últimas duas épocas. Durante este período, não houve a expectativa de regressar a Portugal?
Estava muito feliz nos primeiros seis anos na Grécia, muito contente. A minha saída para o Copenhaga aconteceu por razões económicas no clube. Se não, não teria saído. Fui para um clube com o qual me identifiquei muito. Sempre fui muito bem tratado, jogava nas competições europeias e lutava para ser campeão e para ganhar a Taça da Dinamarca. Sentia-me cómodo e feliz. Regressei ao Panathinaikos já depois de duas lesões no joelho em apenas um ano, e era lá que queria acabar a minha carreira. É um clube que me diz muito, ao qual estou muito ligado. Nunca passou pela cabeça que, após ter saído pela primeira vez do Panathinaikos, pudesse voltar a jogar em Portugal, até porque, quando me transferi, já tinha feito 28 anos. Com o passar do tempo, sabia que era muito complicado conseguir transferir-me para um clube de grande dimensão em Portugal.
É um sonho que ficou por concretizar?
Não posso falar de um sonho não concretizado. O estrangeiro, para mim, era desconhecido. Não tinha ideias nenhuma do que era estar ou jogar num país estrangeiro. Só via jogos através da televisão. O que inicialmente me passava pela cabeça era fazer carreira em Portugal, num dos ‘grandes’, se acontecesse. Teria sido muito bonito jogar num desses clubes em Portugal, mas não estou arrependido de nada. Não trocava a carreira que fiz aqui na Grécia e na Dinamarca por jogar num ‘grande’, até porque assim tive a possibilidade de representar a seleção grega. Isso foi um dos maiores marcos da minha carreira.
Grécia? Numa brincadeira, o presidente [do Panathinaikos] ainda me disse ‘Vou-te fazer grego’. Eu só respondi ‘Então por que não faz? Não tenho problema’. Foi aí que ele começou a tratar do assunto.Como aconteceu esse processo de naturalização pela seleção na Grécia, já depois de ter jogado pelas camadas jovens da seleção de Portugal?
Sim, já tinha jogado por Portugal nos sub-23. Claro que sabia da dificuldade que iria ser para me tornar internacional português na seleção A. Portugal tem grande qualidade, com muito jogadores. Cada vez mais, aparecem jogadores jovens com grande qualidade. Sabia que ia ser muito complicado ou até impossível, jogar pela seleção A de Portugal. Quando tive essa oportunidade de jogar pela Grécia, não pensei duas vezes e aceitei. É um país que me diz muito, de tal forma que ainda hoje vivo na Grécia. Achei que era a melhor solução para mim, para a minha carreira.
Tudo começou com uma conversa com o presidente [do Panathinaikos], que dizia que eu ia ficar a jogar a minha carreira toda no Panathinaikos. Dizia também que eu já era grego e só me faltava mesmo o passaporte. Numa brincadeira ainda me disse ‘Vou-te fazer grego’. Eu só respondi ‘Então por que não faz? Não tenho problema’. Foi aí que ele começou a tratar do assunto, sem qualquer ideia de que eu poderia jogar pela seleção da Grécia. Quando a seleção e o treinador da altura, o alemão Michael Skibbe, souberam que eu estava a tratar da situação do passaporte, vieram falar comigo para me apresentarem a ideia de representar a Grécia. Assim aconteceu. Nessa altura, eu e o clube já tínhamos dado a entrada ao processo para me tornar grego.
Primeira convocatória em 2017? A seleção queria que eu jogasse antes os duelos amigáveis na Austrália, mas a UEFA ou a FIFA não permitiram na altura. Ainda não tinha o passaporte, embora já estivesse quase a sair. Não me deixaram… Por isso, a minha primeira internacionalização aconteceu contra a Bélgica.
Mesmo não estando arrependido, fica a sensação de desilusão por nunca ter jogado pela principal seleção de Portugal?
Não… A certa altura, começa-se a perceber que jogar pela seleção portuguesa está muito longe [de acontecer]. Eu sabia que estava longe e não tenho nenhuma mágoa. Fui muito bem recebido na seleção da grega. Fui recebido como um grego, como mais um deles, com muito respeito, carinho e amor. Não me posso arrepender ou ficar triste por uma coisa que não aconteceu, até porque acabou por me acontecer uma coisa incrível. Vir de onde vim, chegar a um país e conseguir naturalizar-me grego é um grande marco na minha carreira. Faz parte da minha história no futebol.
Zeca Rodrigues somou 34 internacionalizações pela Grécia, apontando dois golos e três assistências.© Getty Images
Assim que pendurou as botas na época passada, o Zeca não tardou em dar o salto para a estrutura do Panathinaikos, com funções de scout. Era algo que ambicionava há muito tempo?
Eu sabia que queria estar relacionado com o futebol. Sabia que queria começar no Panathinaikos, não tinha um objetivo quanto ao posto de trabalho em si. No futuro, quero ser diretor desportivo. Estou a tirar o MIP [Master for International Players] da UEFA e a preparar-me para isso, por dois anos. Entretanto, tinha de começar por algum lado. Claro que não podia ser diretor desportivo do Panathinaikos apenas quatro meses após deixar de ser jogador. Aliás, podia ser, mas não era algo que eu ambicionasse. Sinceramente, não estava preparado para ter um cargo tão grande e com tanta responsabilidade. Eu e o clube achámos que seria bom começar a aprender na parte do scouting, estar perto do diretor desportivo da equipa e estar perto das pessoas que tomam decisões no clube, para me preparar para o meu futuro.
Sente que é mais exigente ser jogador de futebol ou ter esse tipo de funções fora das quatro linhas?
Acho que é mais difícil fora das quatro linhas. Preparei-me desde os 18 anos para jogar futebol e já é uma coisa feita com naturalidade. Não se pensa muito além de treinar e jogar. Agora, estou a entrar num mundo para o qual nunca me tinha preparado. Nunca tive o real contacto ou estudei para isto. É mais difícil por não estar habituado, é um cargo novo. Estou a preparar-me e a estudar para o futuro. Como em tudo na vida, tenho de estar a viver a situação para um dia chegar a diretor desportivo. É o que estou a fazer, passo a passo. Começar um pouco mais abaixo e, quando tiver a oportunidade de exercer outras funções, estar mais preparado e não cometer tantos erros, como aconteceria se começasse agora.
É pintado como um ídolo no Panathinaikos, sendo mesmo o quinto jogador com mais partida (273) em toda a história do clube. Isso ajudou-o a manter-se no clube?
Ao fim e ao cabo, todos os jogadores querem reconhecimento e carinho. Se te sentes bem, confortável e amado, é difícil tomar a decisão de sair do clube. Eu tinha tudo isso, aqui, no Panathiniakos. O que eu queria era continuar a fazer a minha carreira aqui e, eventualmente, tornar-me uma das lendas do clube. Mesmo assim, acho que não sou. Estive em muitos jogos e fiz muito pelo clube, mas em termos de títulos fico atrás de muitos. Ser lenda de um clube passa por ganhar títulos… Hoje em dia, é muito difícil um jogador ficar tantos anos num clube e conseguir fazer tantos jogos.
Rui Vitória? O Panathinaikos é muito grande. Quando os resultados começam a não surgir…
E Rui Vitória? Chegou a ser visto como herói, mas acabou por desiludir no arranque da nova temporada. Os dirigentes do Panathinaikos não tiveram paciência para esperar mais tempo?
O clube é muito grande aqui na Grécia. Quando os resultados começam a não surgir da forma que o clube quer, há a mudança de treinador. É assim que as coisas funcionam… Eu não estava no clube na altura. Voltei já depois de ele ter ido embora. É um treinador com quem tenho muito boa relação, assim como com os adjuntos dele. Eu não sabia o que se passava aqui dentro ou qual era a sensação da equipa, do dono, das pessoas da direção… O que posso dizer é que foi um prazer enorme trabalhar com ele. Gostei muito do tempo em que estivemos juntos.
No futebol, um dia é uma coisa e noutra altura é outra coisa. Quero estar sempre preparado para qualquer situação.
Qual é a importância de ter um bom empresário para um futebolista?
Para mim, foi extremamente importante. Se calhar, escolher a Proeleven foi uma das melhores decisões que tive para a minha carreira ter sido como foi. Não é uma empresa de representação. Para mim, são família. O Vítor [Gonçalves] e o Carlos [Gonçalves] são minha família. Eles estiveram sempre lá para mim quando precisei. Sempre me aconselharam da melhor forma. Só tenho a agradecer do fundo do coração. Foram uma peça fundamental para aquilo que foi a minha carreira. Comecei com eles aos 19 anos e, durante toda a minha carreira, nunca mudei de empresário. Nos momentos mais difíceis, mesmo familiares, eles estiveram sempre lá, prontos para ajudar no que fosse preciso. A palavra que pode resumir aquilo que foi a nossa ligação é família. Lembro-me também do Vasco [Casquilho], que creio que tem agora uma percentagem da empresa, mas na altura trabalhava para eles. Quem me descobriu no Casa Pia foi o Carlos Coelho. Falou com o Vítor e o Carlos e trouxe-me para a empresa. A partir daí, foi a história que toda a gente já conhece.
Nunca pensou em tornar-se um empresário?
Está em equação. Neste momento, tenho as portas abertas para qualquer situação no futebol. Estou muito focado naquilo que é o meu trabalho no Panathinaikos, na forma como quero ajudar o clube. No futebol, um dia é uma coisa e noutra altura é outra coisa. Quero estar sempre preparado para qualquer situação. Sei que tenho a Proeleven do meu lado. Quando acabei [a carreira], eles falaram comigo e disseram que a porta estava aberta. É uma janela que tenho ali para o futuro. O que eu mais quero neste momento é uma equipa de futebol.
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Tem algum sonho por concretizar no mundo do futebol, nestas novas funções?
O que me vem assim diretamente à cabeça é ganhar o campeonato do Panathinakos. Foi isso que me faltou na minha carreira [de futebolista]. Faltou-me jogar um Europeu e um Mundial, mas isso já não pode acontecer. Só através de um cargo numa seleção. Aquilo que eu queria mesmo concretizar era ser campeão nacional pelo Panathinaikos.
Equaciona regressar a Portugal fora das quatro linhas, já que tal não aconteceu enquanto futebolista?
Neste momento, estou muito centrado no Panathinaikos e na minha função. O futuro não sabemos. É um país e um campeonato muito tradicional no futebol. Nunca direi que não acontecerá, mas não é uma situação que tenho na minha cabeça. O que tenho mesmo na cabeça é prosseguir aqui no clube e conseguir o sonho que falta, ajudando o clube a crescer, mas nunca fechando a porta a nenhum outro lugar.
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