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IA? “A sociedade portuguesa está a alienar-se por completo numa das discussões mais importantes para o futuro”, diz Adolfo Mesquita Nunes

IA? “A sociedade portuguesa está a alienar-se por completo numa das discussões mais importantes para o futuro”, diz Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes, advogado e autor do livro “Algoritmocracia – Inteligência artificial e automação: que futuro para as pessoas” contou esta segunda-feira, 17, que há poucos anos, na Áustria, o correspondente ao IEFP português criou um algoritmo para ajudar a fazer o “match” entre desempregados e empregos disponíveis. Passado algum tempo detetou-se que o algoritmo favorecia as pessoas com maior grau de empregabilidade.
“O algoritmo estava pensado para a eficiência e o mais eficiente era pegar nas pessoas que apresentavam mais facilidade de encontrar emprego e juntá-las às empresas que procuravam. Havia pessoas literalmente a ser ignoradas pelo algoritmo”, adiantou em entrevista a André Macedo, diretor do Jornal Económico, no encontro “Zona de Impacto Global – Pensar o ESG”, iniciativa d’O JE e do Novobanco,.
A história serve para ilustrar que há riscos quando se introduz inteligência artificial (IA) nas empresas ou nos organismos do Estado, o que não significa que não se deva introduzir e utilizar. Sim, deve. Este tipo de ferramentas tem um espectro de análise como nunca antes aconteceu na história, salienta.
Salvaguarda, no entanto: “O que não pode acontecer é introduzir-se esse género de sistemas sem ter noção de como funcionam e dos riscos que existem e de como mitigá-los”.  Porém, é o que mais há para aí. “Muitas empresas não têm noção de quais são os riscos e os desafios da IA mal desenhada ou mal pensada”, diz.
O desenho das ferramentas é, explica, no geral, baseado em critérios de eficiência, como no caso austríaco. Exemplifica com a sua própria experiência no ensino destas matérias: Se um grupo de mulheres criar um algoritmo para ajudar a encontrar os trabalhadores que numa empresa devem ser valorizados, o algoritmo favorecerá os homens e porquê? porque, adianta, introduzirão  indicadores quantitativos, tipicamente masculinos – pessoas que não faltam ao trabalho, que tiveram carreira estável ao longo do tempo, etc. etc.
Devido a vicissitudes deste género na área de Recursos Humanos muitos modelos têm sido descontinuados e há o objetivo de melhora-los, adianta.
Garante, no entanto, que “há uma parte da decisão que uma máquina nunca terá: a empatia e a utilização de critérios que não são eficientes”. São os valores que estão em causa, adianta.
Embora o cenário possa parecer distópico, Adolfo Mesquita Nunes não tem duvidas de que nos próximos 10, 15 anos, veremos corpos humanos misturados com máquinas – “olhos que não são olhos, braços biónicos e isso só a ética poderá eventualmente resolver…”
A disrupção continuará em modo acelerado. Acabará por condicionar as nossas vidas, ora definindo critérios de beleza, alertando-nos para ligar ao nosso pai ou fazer-nos mais produtivos nas empresas. “Não sei se é aquela ideia da máquina a comandar a pessoa dos filmes de ficção cientifica, mas não tenho dúvida alguma de que há uma componente de compressão do nosso livre arbítrio que vem destes sistemas”.
O que pode combater isso? A ética, afirma.
Adolfo Mesquita Nunes não está preocupado com “as pessoas que tem capacidade de ver os riscos” , nem com as “partes dinâmicas da sociedade que percebem o mundo que está a ser criado”. No entanto, o mesmo não sente em relação ao Estado e ao papel que este tem de assumir na reconversão e requalificação. Questiona: “Como vai ser a formação profissional daqui para a frente? Que percursos formativos? Como reconvertemos as pessoas mais expostas aos sectores da IA?”
Está igualmente preocupado com as empresas. Muitas ainda continuam a achar que IA é uma questão para os IT (Tecnologia de Informação). “A preocupação da maior parte das empresas é com o que é a IA e onde é que pode fazer sentido dentro da organização”, adianta. É neste ponto que estamos em Portugal.
A realidade é tanto mais inquietante quanto é sabido que quando uma empresa não tem uma política definida, estruturada, assumida, as pessoas começam a explorar por sua conta e risco, expondo a privacidade e outras coisas piores.
“Tem que haver capacitação das pessoas”, diz.
Adolfo Mesquita Nunes resume as questões da educação a três preocupações: “Costumes, professores e carreiras são os assuntos de que se fala em Portugal em matéria de educação. De IA não se fala, de curriculuns não se fala. Não só não se fala como se vota alegremente nas pessoas que não falam disto”.
“É a sociedade a alienar-se por completo numa das discussões mais importantes para o futuro”, conclui.
Defende ainda que tem de haver liberdade para que surjam mais escolas como a 42 Lisboa, ou outras com filosofias diferentes, porque não se sabe o que vai ser o futuro.
“Quanto mais liberdade existir para projetos educativos em que cada um é responsável pelo seu projeto e vai construindo dentro de determinadas balizas a sua formação e tenha uma formação que lhe permita agarrar aquilo que a cada momento se vai tornar determinante, é essencial”.
Nesta edição da “Zona de Impacto Global – Pensar o ESG”, dedicada ao tema O Futuro do Talento e do Trabalho, Pedro Santa Clara, professor catedrático de Finanças, fundador da 42 Lisboa explicou as vantagens de utilizar ferramentas de inteligência artificial para melhorar a produtividade nas empresas. Marta Cunha, head of Transformation da Sonae Sonae, acrescentou às ferramentas, a necessidade de ter uma cultura empresarial nesse sentido. Eduardo Martinez, antigo aluno da 42 Lisboa, fundador da Carbon, aconselhou prontidão para a mudança.
Patrícia Fonseca, administradora do Novobanco, entrevistada por André Macedo, diretor do JE, afirmou que a revolução digital e a IA estão a “transformar a forma como prestamos o serviço aos clientes”.
Marçal Grilo, antigo ministro da Educação considerou a inteligência artificial (IA) um grande “desafio para o país”, sendo a “imprevisibilidade” o problema número um. “Vai haver muita gente desempregada e reconvertida” mas ninguém sabe o que estaremos a discutir daqui a dez anos.

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